Cúpula do BRICS encerra com progresso em questões internacionais
Líderes reafirmam compromisso com a paz e discutem crise no Oriente Médio e relações comerciais.
Após dois dias de intensas discussões, a cúpula de líderes do BRICS terminou no último domingo (13), em Nova Deli, na Índia, com uma declaração conjunta que, entre os principais temas, ressaltou a vocação do grupo para promover a paz mundial, incluindo uma posição comum dos 11 países-membros sobre a questão palestina no Oriente Médio.
Comércio multilateral, diplomacia para resolver conflitos internacionais em alta no mundo, crescimento econômico inclusivo e criação de um sistema de pagamentos para países-membros e parceiros. Esses foram alguns dos principais pontos da declaração final da 18ª cúpula do BRICS, desta vez sob a presidência indiana, com o tema "Construindo para Resiliência, Inovação, Cooperação e Sustentabilidade".
Aliado a isso, o documento ainda reforçou a posição comum do grupo em relação à Solução de Dois Estados no Oriente Médio como crucial para resolver a crise palestina, intensificada pela guerra promovida por Israel na Faixa de Gaza e pela repressão contra a população na Cisjordânia, além de pedir o fim do embargo dos Estados Unidos contra Cuba e sugerir o apoio à candidatura da ex-presidente do Chile, Michelle Bachelet, ao cargo de secretária-geral da Organização das Nações Unidas (ONU).
O especialista em integração econômica internacional da Universidade Estatal de Economia de São Petersburgo, Henrique Domingues, diz ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, que a aprovação da declaração final adotou um tom mais cuidadoso devido a conjuntura geopolítica atual, "bastante delicada", e da discussão de temas sensíveis ao longo da cúpula.
"Podemos dizer que houve avanços consideráveis nessas discussões, mas, claro, o documento dos chefes de Estado adotou um tom mais cuidadoso, obviamente devido às grandes tensões que acontecem nas diversas regiões do mundo, seja no leste europeu e, principalmente, no Oriente Médio. Também é importante lembrar que, com a ampliação do grupo, houve a inclusão de uma série de atores relevantes nessa região do mundo", enfatiza.
Mesmo assim, Domingues acredita que, mais uma vez, o BRICS conseguiu mostrar a importância do diálogo para fomentar relações construídas e fortalecer uma metodologia de relações internacionais focada no Sul Global. "Antes, eram os países ocidentais ou ditos desenvolvidos que buscavam impor condições aos demais em troca de algumas migalhas. Então, quando o BRICS evita, em suas declarações finais, apontar dedos e fazer julgamentos, também acaba contribuindo para fortalecer seu próprio modelo de diplomacia, com benefício mútuo entre os países e construção de um futuro compartilhado, com diversos polos de influência", diz.
Já o doutor em ciência política e professor de relações internacionais do Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP), João Nicolini, declara ao podcast que a presidência indiana conseguiu "o mais improvável", que foi um comunicado unânime com Irã e Emirados Árabes Unidos na mesma mesa, mas em lados opostos no atual conflito no Oriente Médio.
"O preço foi uma linguagem que descreve o problema sem apontar o responsável. Apesar disso, a diplomacia da Índia comemorou muito por fazer com que partes opostas do conflito no estreito de Ormuz e na guerra que o Irã enfrenta com EUA, Israel e seus parceiros árabes concordassem com um texto final. Esse documento é muito mais simbólico, principalmente pelo avanço que coloca no ponto sobre o Oriente Médio e mostrando que o BRICS aponta uma ordem multipolar onde ninguém impõe sua narrativa", afirma.
Da presença de Xi Jinping ao encontro entre líderes do Irã e Emirados Árabes Unidos
As tensões históricas entre China e Índia, principalmente por questões territoriais em regiões como o Himalaia, se intensificaram entre 2020 e 2021, quando confrontos fronteiriços deixaram militares mortos dos dois lados.
Desde antes disso, contudo, devido a esses problemas fronteiriços, o presidente Xi Jinping ficou sem visitar o país vizinho. A última visita do líder chinês ao vizinho foi em 2019, sete anos atrás. Por isso, causou surpresa ao aparecer na cúpula em Nova Deli. Para Henrique Domingues, a presença reforça a importância da articulação política no BRICS, que chega a um "patamar elevado de maturidade".
"Já vamos chegando na segunda década de articulação do BRICS e, sem sombra de dúvidas, a participação do Xi Jinping demonstra como a China, que é a grande potência do mundo hoje em diversas áreas da governança, prioriza esse tipo de relação e iniciativa entre o Sul Global [...]. Vale lembrar que as rusgas com a Índia acontecem há muitos anos e o BRICS acabou servindo de plataforma para ajudar os dois países a buscarem resolver suas diferenças de maneira diplomática. China e Índia já haviam chegado a um entendimento para essa questão, as coisas estavam avançando e essa conversa particular [do presidente chinês com o primeiro-ministro indiano Narendra Modi] é crucial", resume.
Outro destaque, segundo o especialista em integração econômica internacional, foi o encontro do presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, com o príncipe herdeiro dos Emirados Árabes Unidos, sheik Khaled bin Mohamed Al Nahyan, à margem da cúpula. Considerado raro por conta das disputas entre os dois países no Oriente Médio, Teerã chegou a manifestar a ocasião como um passo importante na construção da confiança para as relações e a estabilidade do continente.
"Sem sombra de dúvidas, toda essa tensão que se criou ultimamente no Oriente Médio com a questão palestina e, sobretudo, agora, com a agressão que o Irã sofreu dos EUA e a consequente agressão às bases militares de Washington localizadas em diversos países da região, sendo um deles os Emirados Árabes, criou dificuldades para a relação do grupo. Mesmo com tudo isso, o BRICS ajudou os dois países a avançar nas suas negociações diplomáticas e amenizar as divergências", acrescenta.
Já em relação ao posicionamento "incisivo" sobre a crise na Faixa de Gaza causada pelos ataques israelenses e à defesa da Solução de Dois Estados, com a Palestina tendo Jerusalém Oriental como sua capital, o especialista afirma que isso é mais uma forma de o BRICS se diferenciar das demais organizações internacionais ou grupos compostos principalmente pelos países ocidentais.
"Diante de toda essa brutalidade da agressão israelense, que pode ser classificada como um genocídio, o BRICS demonstra para a comunidade internacional que não há justificativa para esse tipo de atuação contra cidadãos pacíficos. É uma coisa bárbara e inexplicável até diante do nível de poder do agressor, que praticamente destruiu tudo que restava do território palestino em Gaza", argumenta.
BRICS e capacidade de unir culturas e povos 'tão diferentes'
Do Irã aos Emirados Árabes Unidos e à Arábia Saudita, do Brasil à Rússia e à Índia, da África do Sul ao Egito, Indonésia, Etiópia e China, o BRICS reúne países com profundas diferenças econômicas, políticas e culturais. Para Domingues, a última cúpula reforça justamente a capacidade do grupo de aproximar nações e povos distantes, mostrando que a diversidade entre seus membros não precisa ser um fator de exclusão, mas pode servir como ponto de aproximação e diálogo.
Tudo isso ajuda a colocar o BRICS como uma das principais plataformas globais com condições de promover a paz e o desenvolvimento pacífico. "Toda essa diversidade dá força e legitimidade. É na reunião do BRICS que os diferentes se encontram sem uma perspectiva colonial. Existe o G20, mas que tem ali uma metodologia por parte dos países desenvolvidos ocidentais que leva muito das características colonizadoras que sempre fizeram parte da relação com os países em desenvolvimento", conclui.