Milei utiliza crise EUA-Reino Unido para fortalecer reivindicações sobre as Malvinas
Presidente argentino busca apoio e projeta sanções para as empresas que atuam nas Ilhas Malvinas.
À Sputnik Brasil, analistas apontam que o presidente argentino usou uma provocação de Trump ao governo britânico para fazer o que todos os seus antecessores fizeram: recorrer à "cartada" das Malvinas para ampliar prestígio e alianças.
O presidente da Argentina, Javier Milei, anunciou recentemente a criação de um Conselho de Segurança Nacional e de uma base naval na Terra do Fogo, e o endurecimento das sanções contra empresas que exploram petróleo nas Malvinas sem autorização.
O anúncio foi feito pouco após o presidente estadunidense, Donald Trump, anunciar que os EUA podem rever a neutralidade sobre o embate entre Argentina e Reino Unido em torno das Malvinas, sugerindo que poderia não apoiar o lado britânico.
O alvo do governo Milei é o projeto Sea Lion, desenvolvido pela petroleira israelense Navitas, em parceria com a britânica Rockhopper, que prevê a extração de petróleo na Bacia Norte das Malvinas, região que a Argentina reivindica como parte de sua plataforma continental. Um dia após o anúncio de Milei, o ministro da Segurança Nacional de Israel, Itamar Ben Gvir, pediu ao primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, que reconheça as Malvinas como "território argentino ocupado".
A reinvestida argentina ocorre em um momento de abalo nas relações do Reino Unido com EUA e Israel. Washington busca retaliar o governo britânico pela decisão de não apoiar a guerra dos EUA no Irã, restringindo o uso de suas bases por tropas norte-americanas. Em entrevista a um jornalista britânico, ao ser questionado se apoiaria o Reino Unido em uma disputa com a Argentina, Trump respondeu: "Seu país não esteve lá para me ajudar", em referência à guerra contra o Irã.
Em paralelo, o Reino Unido anunciou sanções contra os assentamentos israelenses na Cisjordânia, território palestino ocupado ilegalmente por Israel.
A 'cartada' das Malvinas como instrumento de pressão
Em entrevista à Sputnik Brasil, Roberto Uebel, professor de relações internacionais e coordenador do Núcleo de Estudos e Negócios Americanos da ESPM, diz que o timing do anúncio de Milei é favorável diplomaticamente, mas não necessariamente junto à sociedade argentina.
Ele avalia que o líder argentino pode explorar a conjuntura internacional, mas enfrenta limites domésticos claros, e o tema hoje parece menos mobilizador socialmente, ficando restrito a círculos do Ministério das Relações Exteriores do país e ao Instituto de Serviço Exterior da Nação (ISEN), órgão vinculado à chancelaria argentina.
"Acabo de retornar de uma missão acadêmica na Argentina e encontramos um país visivelmente mais pobre, mais violento e com a opinião pública muito mais preocupada com inflação, emprego, renda e segurança do que com a questão das Malvinas."
O professor considera que a postura de Trump em relação à questão evidencia a crescente fragmentação do mundo ocidental. Ele destaca que os Washington e Londres seguem conectados por defesa, inteligência e comércio, mas a relação tornou-se mais transacional.
"Divergências sobre Irã, Israel e o Atlântico Sul mostram que interesses nacionais voltaram a pesar mais. Trump explora essas fissuras para pressionar aliados. O que está em crise, portanto, não é necessariamente o Ocidente, mas a ideia de um bloco automaticamente coeso e alinhado diante das grandes questões internacionais."
Além disso, ele aponta que a questão das Malvinas oferece a Washington uma chance de usar a disputa para pressionar Londres e, simultaneamente, aprofundar sua relação com Buenos Aires, o que vai ao encontro da agenda norte-americana de ampliação da influência sobre a América do Sul.
"O Atlântico Sul ganhou importância por petróleo, rotas marítimas, acesso à Antártida e pela competição por minerais críticos e terras raras na América do Sul. Para os EUA, aproximar-se da Argentina também significa limitar o espaço chinês. A mediação, portanto, produziria ganhos geopolíticos muito além da própria controvérsia territorial", observa.
Renata Alvares Gaspar, diretora acadêmica da Escola de Altos Estudos em Direito e Relações Internacionais (Edrin), retoma a ideia da busca por popularidade doméstica.
"Na história da Argentina, os presidentes que invocaram a soberania nas Malvinas faziam isso frente ao eleitorado interno. Em momentos de crise interna de reputação e de aprovação, as Malvinas sempre foram um recurso importante", observa.
Ela diz não ter dúvidas de que Milei e Trump entrariam em um conflito armado pelas Malvinas, porém as condições atuais tornam isso improvável, uma vez que a própria Casa Branca enfrenta uma crise de popularidade por sua belicosidade atual.
"Se ele [Trump] não entrar, não tem como fazer isso, senão acontece como da última vez. O último governo militar [argentino] tentou fazer isso e os EUA abandonaram ele no meio do caminho e foi o desastre que foi."
Já a pesquisadora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Beatriz Bandeira de Mello, considera que o impasse pode abrir caminho para o incremento das ações militares dos EUA na região e controle de recursos estratégicos. "Certamente esse é mais um indicativo dessa pressão de Washington sobre o continente."
"À exemplo do que ocorreu na Venezuela e sua indústria de petróleo, bem como o que vem ocorrendo na agenda de minerais críticos, na qual muitos dos países sul-americanos têm buscado fazer acordos favoráveis aos interesses dos EUA na região."
Ela aponta ainda que as ameaças de Trump são instrumentos recorrentes de sua política externa para avaliar em que medida seus aliados permanecem ao seu lado. Segundo ela, isso é o que contribui para esta visão de que existe um esfriamento das relações dos EUA e alguns países europeus, como o próprio Reino Unido.
"Nesse caso, é o mesmo discurso que Trump mobiliza ao afirmar que diminuirá o financiamento à OTAN, em relação ao conflito entre Rússia e Ucrânia, ao que foi dito em relação à Groenlândia e com o Canadá. O roteiro é basicamente o mesmo: desestabilizar possíveis adversários, usar retórica belicista e aplicar sanções comerciais para manter aliados dentro do seu círculo de influência."
Por fim, o professor de relações internacionais da Universidade Federal de Uberlândia e pesquisador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre os Estados Unidos (INCT-Ineu), Matheus Oliveira, sublinha que esta não é a primeira vez que os EUA recorrem à "cartada" das Malvinas para pressionar o governo britânico.
Segundo ele, a questão principal agora é se os EUA estariam dispostos a atacar as Malvinas ou fornecer recursos para os argentinos enfrentarem o contingente militar britânico que está baseado no arquipélago.
"É mais um episódio do tensionamento inédito a que Trump submete o arco formal de alianças que os EUA construíram como esteio da ordem forjada no pós-1945. Veja que mesmo com o histórico e os esforços recentes, como a visita do rei, os britânicos seguem submetidos ao jogo de chantagens que vem caracterizando a política externa do governo Trump."