Pai de Danilo Zocatelli, retratado como drag pelo artista, esteve presente na abertura da exposição, em São Paulo
Abertura da mostra que entrou em cartaz na galeria O Jardim com curadoria de Renato Negrão, reuniu fotografia, música de Anuby Messias que discursou sobre a vida das pessoas transm, performance Ballroom com PAVUNAGATOPRETO e ainda relatos sobre masculinidade, identidade queer e afeto familiar
A Galeria O Jardim, na Mooca, recebeu no último sábado (12) a abertura de “Querido Pai”, exposição do artista brasileiro Danilo Zocatelli, que teve curadoria de Renato Negrão. A noite reuniu arte e experiências de corpos dissidentes em torno de uma série fotográfica que investiga masculinidade, memória, afeto e identidade queer a partir da relação entre pai e filho em fotos que se tornaram virais durante o fim de semana.
Um dos momentos mais significativos da abertura foi a presença de João Cesco Filho, pai de Danilo, retratado nas fotografias da exposição como drag que, além das paredes da galeria, se espalharam pela internet em manifestações elogiosas à sua atitude. Homem do campo, de origem humilde e valores conservadores, João participou do processo artístico que deu origem à exposição e esteve na galeria para conhecer pessoalmente, pela primeira vez em formato de exposição, as obras realizadas pelo filho.
Radicado em Londres, Danilo cresceu em Marialva, no Paraná, em um contexto rural brasileiro, sentindo que precisava corresponder às expectativas de masculinidade impostas pela família e pela comunidade. Ao encontrar pertencimento na comunidade drag, decidiu utilizar essa linguagem como uma possibilidade de aproximação com o pai.
Em “Querido Pai”, Danilo não procurou transformar João em outra pessoa. O artista o convidou a experimentar seu universo, criando, por meio da maquiagem, da performance e da fotografia, um espaço de troca e reconhecimento.
A presença de João na abertura acrescentou uma dimensão especialmente significativa à exposição: o pai que aparece nas imagens como parte de uma experiência de liberdade e reconexão estava ali, diante das próprias fotografias, compartilhando com o público a história que deu origem ao trabalho.
Uma noite de performance, resistência e afeto
A programação da abertura contou também com apresentações de PAVUNAGATOPRETO e Anuby Messias, artistas queers que passaram por uma seleção em convocatória pública da galeria.
No início da noite, Anuby Messias realizou uma apresentação marcada por um discurso potente sobre a vida das pessoas trans. Antes de cantar uma música de seu repertório, a artista compartilhou com o público reflexões sobre as experiências, os desafios e a existência de pessoas trans, em uma fala que emocionou e mobilizou os presentes.
Na sequência, PAVUNAGATOPRETO transformou O Jardim em um verdadeiro Ballroom, levando para a galeria a experiência de uma cultura que nasceu nas comunidades LGBTQIA+ de Nova York e se consolidou como espaço de expressão, competição, celebração e resistência de pessoas negras e latinas, especialmente da comunidade trans e queer.
A performance aproximou o público dessa linguagem cultural, transformando o espaço expositivo em um ambiente de encontro e participação. A experiência ampliou o diálogo de Querido Pai com diferentes formas de existência e expressão dos corpos dissidentes.
Uma carta de amor a um pai
No centro de “Querido Pai” está uma carta escrita por Danilo ao pai, cujos trechos foram transformados nos títulos das fotografias. A correspondência recupera memórias da infância, o medo de decepcionar a família e a experiência de crescer como filho gay em um ambiente onde a masculinidade funcionava como código de pertencimento.
Mas a carta também recupera um momento decisivo: quando Danilo tinha 17 anos e, depois de sua mãe contar ao pai que ele havia se assumido gay, ouviu dele, pela primeira vez, que era amado.
A série nasceu desse desejo de reconstruir uma relação, sem apagar as diferenças ou transformar o outro em alguém que ele não é.
“Eu não quero te transformar em outra pessoa, porque eu aprendi a te amar e te entender como você é. Eu só quero poder te mostrar como pertenço ao mundo e como me sinto”, escreve Danilo em sua carta.
A exposição transforma essa experiência íntima em uma narrativa visual sobre a possibilidade de reconexão entre pais e filhos LGBTQIA+, colocando em debate as expectativas de masculinidade, o preconceito e a importância do afeto familiar.
Da intimidade familiar ao circuito internacional
Embora profundamente pessoal, “Querido Pai” já havia sido apresentado em importantes instituições e festivais internacionais, como os Rencontres d’Arles, na França; Saatchi Gallery e Institute of Contemporary Arts (ICA), em Londres; Embaixada do México em Londres; Embaixada Britânica em São Francisco e PhotoBrussels Festival, na Bélgica.
O projeto foi selecionado para o New Contemporaries, iniciativa anual que destaca artistas emergentes no Reino Unido. Em 2025, recebeu também o Dior Photography and Visual Arts Award for Young Talents, apresentado na Luma, em Arles, e posteriormente na Suíça.
Serviço
Exposição: Querido Pai, de Danilo Zocatelli
Curador: Renato Negrão
Local: O Jardim, galeria de arte
Endereço: Rua Ilansa, 185, Mooca – São Paulo/SP
Período de visitação: 12 de setembro a 17 de outubro de 2026
Site: ojardim185.com
Instagram: @ojardim185
Sobre o Artista
Danilo Zocatelli Cesco (1989) é artista brasileiro radicado em Londres. Sua prática investiga identidade, memória e experiências humanas por meio de storytelling, livros de artista, fotografia sem câmera, vídeo, som e escultura. Seus trabalhos atravessam temas como enfermidade, sistema prisional, crimes de ódio, resiliência queer e reconexões familiares. É mestre em fotografia pelo Royal College of Art (2024) e teve trabalhos apresentados em instituições e exposições no Reino Unido, França, Estados Unidos e outros países.
Site: www.danilozocatelli.com
Sobre O Jardim, Galeria de Arte
Fundado por Malu Mesquita e Renato Negrão, O Jardim, galeria de arte, é um centro cultural dedicado à fotografia contemporânea, localizado na Mooca, em São Paulo. O espaço reúne galeria, escola, biblioteca, laboratório analógico e editora, criando um ambiente de encontro, formação e desenvolvimento de projetos em torno da imagem.
Primeira galeria especializada em fotografia da região, O Jardim trabalha para aproximar artistas, público e território, realizando exposições, cursos, oficinas, publicações e projetos em parceria com instituições do Brasil e do exterior. Sua proposta é valorizar a fotografia como linguagem artística, ferramenta de memória e forma de diálogo e transformação social, estimulando a conexão entre diferentes pessoas, territórios e narrativas.
Site: ojardim185.com
Instagram: @ojardim185