Cientista político critica eficácia de métodos militares dos EUA contra narcotráfico
Thomas Posado destaca a necessidade de investigação e monitoramento das cadeias de produção e distribuição.
Os métodos militares adotados pela coalizão liderada pelos Estados Unidos para combater os cartéis não permitem enfrentar de forma eficaz o narcotráfico na América Latina, afirmou à Sputnik o cientista político francês Thomas Posado, da Universidade de Rouen-Normandia.
"Para combater eficazmente o narcotráfico, é necessário realizar investigações, prender traficantes e monitorar as cadeias de produção e distribuição", detalhou o especialista.
Segundo o especialista, apenas realizar ataques contra supostos traficantes não é suficiente para desmantelar as redes criminosas existentes. "Bombardeios indiscriminados permitem obter imagens para divulgar nas redes sociais os supostos sucessos, mas não mudam a realidade do narcotráfico no terreno e apenas criam uma nova fonte de violência para a população civil."
Posado também apontou contradições na política antidrogas do governo dos EUA, citando como exemplo o perdão concedido ao ex-presidente de Honduras Juan Orlando Hernández.
Hernández ocupou a Presidência de Honduras por dois mandatos consecutivos, de 2014 a 2022, e foi extraditado para os Estados Unidos em 2022. As autoridades norte-americanas o acusaram de facilitar o envio de grandes quantidades de cocaína para o país e de manter vínculos com cartéis de drogas.
Um tribunal de Nova York o condenou em março de 2024. Em junho do mesmo ano, Hernández recebeu uma pena de 45 anos de prisão e uma multa de US$ 8 milhões (R$ 40,8 milhões) por tráfico de drogas. Em dezembro de 2025, o presidente dos EUA, Donald Trump, concedeu perdão a Hernández, o que levou à sua libertação e ao retorno às atividades políticas.
Ataques terrestres na América Latina
No último mês, os Estados Unidos passaram a avaliar uma campanha marítima contra o narcotráfico na América Latina com operações terrestres. A possibilidade foi admitida pelo secretário de Guerra norte-americano, Pete Hegseth, ao afirmar que Washington poderia escalar a estratégia de bombardeios ao solo dos países da região. Desde setembro do ano passado, essas operações deixaram pelo menos 215 mortos.
"Será o mesmo efeito em terra. Por isso, estamos trabalhando com Equador, Colômbia e outros parceiros para levar a luta às DTOs [sigla em inglês para organizações de tráfico de drogas] em terra", disse à época.
A declaração ocorreu durante exercícios militares realizados no Panamá com participação de cerca de 20 países, e amplia o alcance anunciado para a campanha militar dos Estados Unidos contra organizações ligadas ao tráfico de drogas. Segundo Hegseth, os grupos poderão ser considerados alvos independentemente de onde estejam, caso trafiquem drogas ou representem uma ameaça aos Estados Unidos e seus aliados.
O secretário do governo do presidente Donald Trump afirmou que a estratégia na região será a mesma utilizada contra grupos como Al-Qaeda e Daesh (organizações terroristas proibidas na Rússia e em vários outros países).