Forrageiras são a base da pecuária moderna no Brasil, comprova pesquisador da Embrapa Cerrados
Pesquisador Marcelo Ayres apresentou as vantagens do uso das cultivares mais modernas de forrageiras tropicais
“Gostaria de deixar dois pontos claros: o primeiro é que o boi mudou. O boi de hoje não é o mesmo animal de 40, 50 anos atrás. E o segundo ponto é que quando falamos de forrageira e pastagem, estamos falando de tecnologia de ponta. Convido para uma mudança de mentalidade para entender que não se trata apenas de capim”, disse o pesquisador Marcelo Ayres, da Embrapa Cerrados (DF), ao iniciar a palestra “Se até o boi mudou, por que seu pasto continua o mesmo?”. A apresentação fez parte do painel “Desafios e oportunidades na pecuária de corte”, promovido durante a 34ª Expoabra, feira agropecuária realizada no Parque de Exposição Granja do Torto, em Brasília, até o próximo domingo (13).
O Brasil tem o segundo maior rebanho bovino do mundo, além de ser o segundo principal produtor mundial e maior exportador. Em 2025, o valor bruto da produção agropecuária nacional foi de R$ 1,3 trilhão, sendo que a pecuária representou cerca de R$ 250 bilhões. “E onde começa a nossa pecuária? Não tenho dúvida de que, assim como em outros países, ela começa no pasto”, refletiu o pesquisador, lembrando que o País conta com 160,5 milhões de hectares de pastagens, sendo 62,7 milhões de hectares no Cerrado.
De acordo com a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), 80,14% dos animais abatidos no Brasil no ano passado foram terminados a pasto. “É um componente importante e muitas vezes relegado. Por causa disso, fazemos um produto diferente, que chamo de boi verde. Praticamente toda a nossa produção é executada e terminada a pasto. Deveríamos estar recebendo um prêmio no mercado internacional por estarmos entregando um produto com essa qualidade e com essa característica”, argumentou Ayres.
Entre os pilares da pecuária, estão a sanidade, a genética, a reprodução, a nutrição e a gestão. Mas, segundo o pesquisador, as propriedades têm priorizado a genética dos animais. “Na hora de escolher a cultivar de forrageira, o preço é o que define a escolha do produtor, e isso representa apenas 10% o custo total de implantação do pasto, considerando todas as operações. Por causa disso, em 2026 ainda estamos usando cultivares do século passado, desenvolvidas entre as décadas de 1970 e 1990 com a lógica de um boi que não existe mais”, apontou, acrescentando que 80% das cultivares de forrageiras utilizadas pela pecuária brasileira são tecnologias defasadas.
Portfólio da Embrapa
Ayres destacou algumas das novas cultivares desenvolvidas pela Embrapa em parceria com a Associação para o Fomento à Pesquisa de Melhoramento de Forrageiras (Unipasto) e voltadas à pecuária moderna, atendendo aos desafios enfrentados pelos pecuaristas no manejo das pastagens, como pragas e doenças, escassez de forragem na estação seca, valor nutritivo e transição de estações, com melhor desempenho.
“São forrageiras que podem causar grande impacto na propriedade do nosso pecuarista. Temos que entender a cultivar de forrageira como entendemos a cultivar de soja, o carro moderno ou a automação na indústria. É muita tecnologia”, comparou.
Lançada em abril deste ano, a cultivar BRS Carinás é um híbrido de Brachiaria decumbens que representa uma evolução em relação à tradicional cultivar Basilisk (“capim-braquiarinha”). A planta é mais alta e tem folhas mais largas e compridas; o hábito de crescimento é semiereto, facilitando o manejo; os numerosos perfilhos basais garantem mais folhas e mais qualidade de forragem. A BRS Carinás tolera solos mais ácidos e com baixos teores de fósforo assim como a Basilisk, porém apresenta cobertura mais rápida, reduzindo a ocorrência de plantas invasoras; maior biomassa e mais folhas por hectare, com maiores teores de proteína (13% a 14%); além de proporcionar desempenho animal superior, com maiores taxa de lotação e ganho de peso por hectare (13@/ha/ano).
A cultivar de B. brizantha BRS Paiaguás permite estender o período de pastejo na transição chuva-seca, devido à senescência (envelhecimento natural) das folhas mais tardia, sendo superior à BRS Piatã em ganho médio diário por animal (cerca de 80%) e em taxa de lotação (cerca de 40%) durante a seca.
Voltado à intensificação do sistema produtivo com o pastejo rotacionado, o Panicum maximum BRS Zuri é uma cultivar de porte alto que auxilia na questão fitossanitária, uma vez que materiais da mesma espécie, como Tanzânia-1 e Mombaça (ambos da década de 1990), sofrem perdas significativas com manchas foliares. Além disso, a BRS Zuri apresenta mais folhas, tem maior qualidade de forragem e responde à adubação nitrogenada. Em experimento comparativo com a cultivar Massai, dos anos 2000, considerando as estações chuvosa e de seca apresentou ganho médio diário e taxa de lotação 10% a 15% superiores.
Já a cultivar de P. maximum BRS Tamani tem porte baixo e abundante massa foliar, sendo de fácil manejo e responsiva à adubação nitrogenada em sistemas intensivos. Assim como a BRS Zuri, apresenta produção e ganho médio de peso superiores aos do capim Massai ao longo do ciclo produtivo.
O Andropogon gayanus BRS Sarandi foi lançado em 2022, 42 anos depois da Planaltina, primeira cultivar de forrageira tropical desenvolvida pela Embrapa. A cultivar é voltada a sistemas de cria e recria, solos de baixa fertilidade, com bom desempenho em solos pedregosos e arenosos. “Além disso, na transição seca-chuva, é o primeiro material que vai rebrotar quando começarem as chuvas, proporcionando um ‘respiro’ ao produtor nesse período, enquanto as outras cultivares dele ainda não responderam ou não rebrotaram”, explicou Ayres, sugerindo o uso do material em 20% a 30% da área da propriedade, em solos mais rasos e de menor fertilidade.
Com base em experimento realizado na Embrapa Cerrados, a cultivar proporciona ganhos de 10 a 15@/ha/ano, teor de proteína de 7% a 11%, 11 a 15 t/ha/ano de pastagem e taxa de lotação de 3 UA/ha. Apresenta recomendação de uso para a região do Matopiba (abrangida pelo Cerrado dos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), bem como para o norte de Goiás, Minas Gerais, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.
Impacto econômico das novas cultivares
O pesquisador apresentou números dos ganhos econômicos das novas cultivares em relação a materiais antigos em apenas um ano de produção. A BRS Paiaguás proporciona ganho 7% superior ao da BRS Piatã (ou mais R$ 1035/ha/ano); a BRS Carinás em relação à cultivar Basilisk obtém ganho 13% maior (R$ 483/ha/ano a mais), sendo os mesmos valores na comparação entre a BRS Zuri e a cultivar Mombaça; a BRS Tamani tem ganho 9% maior que o da cultivar Massai (diferença de R$ 1593/ha/ano); o P. maximum BRS Quênia tem ganho de 17% (ou R$ 3243/ha/ano) superior ao da cultivar Mombaça; e a BRS Sarandi apresenta ganho 20% maior que o da BRS Planaltina (mais R$ 1275/ha/ano).
“Esses números são o que os produtores estão deixando de ganhar por não usarem essas cultivares modernas. As diferenças de ganhos em apenas um ano certamente vão pagar a diferença de custo das sementes, que é pequena. Imaginem, então, esses valores multiplicados por cinco ou seis anos, que é o tempo que esses pastos ficarão na propriedade”, comentou Ayres.
Diante desses dados, ele lançou a pergunta: quanto tempo mais o produtor vai aceitar perder produtividade utilizando uma pastagem ultrapassada, que já não representa o que existe de melhor em genética forrageira? “Não é só capim: é tecnologia de ponta. São anos de pesquisa”, reforçou.
Panorama da carne bovina
A Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), uma pessoa necessita de no mínimo 1 g de proteína por kg de peso/dia. Nesse sentido, o pesquisador falou sobre o panorama mundial da carne bovina, que apresenta crescimento da demanda em 13% em 2026 e a necessidade de 76 milhões de toneladas de volume total para o atendimento da exigência diária de proteína da população.
“Isso nos leva à conclusão e que o Brasil será o maior fornecedor de proteína animal para o mundo. Mas ainda há um longo caminho a percorrer”, afirmou Ayres, mostrando dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e do Rally da Pecuária sobre a produção nacional de carne bovina.
A produtividade média nacional é de 67,7 kg de carcaça/ha/ano, porém 76% dos produtores (1,12 milhões de propriedades) estão abaixo dessa média. O rebanho bovino em 2024 era de 238 milhões de cabeças (pelo IBGE) ou 202,78 milhões de cabeças de acordo com a Abiec. Conforme a Associação Brasileira de Inseminação Artificial (Asbia), o Brasil tem 65,6 milhões de matrizes de corte aptas a reprodução, quantidade equivalente a quase todo o rebanho norte-americano, que está em torno de 80 milhões de cabeças. A taxa de natalidade média é de cerca de 60% e a de desfrute de apenas 19%, o que representa 26,3 milhões de matrizes vazias todos os anos. “Além de não oferecem produtos (bezerros), essas vacas estão na propriedade dando despesa. Estamos falando de R$ 800 a R$ 1200 por matriz por ano. É um número gigantesco e temos que buscar uma equação eficiente”, observou Ayres.
O pesquisador calculou que se a taxa de desmame aumentasse de 60% para 80%, o País produziria mais 16,4 milhões de bezerros. Nesse caso, se uma fazenda com 100 vacas passasse a produzir 80 bezerros, os 20 bezerros a mais, considerando um animal de 12 meses de idade pesando 285 kg e custando em média R$ 3400, representariam uma renda adicional de cerca de R$ 68 mil. “O touro e o boi saem da propriedade, mas as matrizes e novilhas de reposição ficam, elas são o tesouro do produtor. Se ele investe em genética, usando sêmen de animais testados, vai selecionar e melhorar o rebanho muito mais rápido”, comentou o pesquisador.
Ayres questionou se o produtor brasileiro está preparado para as transformações na pecuária, os novos ganhos e o salto de produtividade. “As tecnologias estão disponíveis e as instituições estão aí para apoiar o produtor nessa transformação”, disse, apresentando dados sobre a evolução no desempenho dos animais. No modelo tradicional de pecuária, o peso médio de carcaça variava de 210 kg a 220 kg, a idade média ao abate era de 36 a 42 meses e o rendimento de carcaça ficava entre 50% e 52%; na pecuária moderna, o peso médio de carcaça é de 290 kg a 310 kg (80 kg a mais), a idade média ao abate é de 18 a 24 meses (até 18 meses mais cedo) e o rendimento de carcaça é de 54% a 56% (2% a 4% a mais).
“Se o boi mudou, temos que mudar o pasto também. Repito: não é só capim, é tecnologia de ponta. Seu pasto precisa produzir mais, durar mais, responder melhor ao manejo, sustentar mais animais, gerar mais arrobas e entregar mais resultado. Esta é a oportunidade de mudar”, finalizou o pesquisador.
As informações detalhadas sobre as cultivares de forrageiras tropicais da Embrapa estão disponíveis na Página de Cultivares da Embrapa (https://www.embrapa.br/cultivares) e no aplicativo Pasto Certo, disponível para Android e iOS, e na versão para desktop (https://www.pastocerto.com/). Diversas publicações sobre esse e outros temas estão disponíveis em https://www.embrapa.br/publicacoes-e-bibliotecas.
O painel “Desafios e oportunidades na pecuária de corte” também contou com palestras do pesquisador Cláudio Magnabosco, da Embrapa Cerrados (“Impacto econômico de touros melhoradores na pecuária de corte”); Letícia Pereira, do Instituto de Zootecnia e Programa GMA-USP (“Estratégias para aumentar a eficiência e a rentabilidade do rebanho de cria”); e Ricardo Arantes, da TRI Comunicação (“Desafios do agro moderno: como enfrenta-los?”).
Breno Lobato (MTb 9417/MG)Embrapa CerradosContatos para a imprensa: [email protected]Telefone: (61) 3388-9945