Costa Rica adota modelo de segurança inspirado em El Salvador
A presidente Laura Fernández dá continuidade ao projeto de ‘tolerância zero’ para combater a violência.
O agravamento da violência e a consolidação da Costa Rica como hub logístico para o tráfico internacional de drogas provocaram uma guinada política de segurança do país. Diante dessa crise, a presidente Laura Fernández deu continuidade ao projeto "tolerância zero" de seu antecessor Rodrigo Chaves, inspirado no modelo salvadorenho.
Em 2025, a taxa de homicídios na Costa Rica atingiu 16,8 por 100 mil habitantes, um índice alarmante para um país historicamente reconhecido por sua qualidade de vida. Diante desse cenário, o modelo de segurança de Nayib Bukele passou a inspirar a nação centro-americana.
Essa influência consolidou-se a partir da gestão de Rodrigo Chaves e estende-se até o atual governo de Laura Fernández, no qual Chaves atua como ministro, conforme explica o geógrafo e analista internacional Ricardo Luigi em entrevista à Sputnik Brasil.
"Quando Rodrigo Chaves era presidente, pouco antes de Laura Fernández assumir, Bukele esteve na Costa Rica e deu orientações sobre a construção de cadeia e da política de enfrentamento em relação ao narcotráfico. Nesse sentido, vão ter destaques: a questão do encarceramento em massa da população e o aumento da cooperação internacional com outros países, especialmente com os EUA", disse.
O especialista avalia que a "bukelização" doméstica em uma nação historicamente conhecida por sua estabilidade pode consolidar esse modelo de segurança na região. Para o analista, a dinâmica da América Central funciona de maneira integrada, de modo que o fenômeno político implementado em um país inevitavelmente ecoa nos Estados vizinhos.
"Na América Central, tem um transbordamento muito grande das questões políticas. O que acontece em um país da América Central costuma transbordar muito facilmente e influenciar muito facilmente o rumo dos seus vizinhos. Então, nesse sentido, Bukele é uma referência muito forte também para Costa Rica", comenta.
Sem Forças Armadas e fluxo do crime internacional
Outro ponto levantado por Luigi é que, para além dos elevados índices de violência urbana, a Costa Rica tornou-se uma rota do crime internacional, englobando tanto o narcotráfico quanto a mineração ilegal. Essa dupla dinâmica criminosa deixa o cenário interno do país ainda mais complexo.
"Se por um lado, é positivo não ter Forças Armadas e o desarmamento do próprio país, por outro, a gente vem percebendo que [na Costa Rica] e nos países que têm um histórico mais pacífico e histórico de menor vigilância na América Latina acabam sendo utilizados pelas redes internacionais do narcotráfico, de contrabando e de mineração", destaca.
O analista também contextualiza as razões que levaram o país centro-americano a abdicar do direito de ter Forças Armadas regulares, em 1949, e por que a nação já foi comparada a uma espécie de "Suíça". Ele enfatiza que, hoje, os costa-riquenhos enfrentam altos índices de criminalidade, enquanto o país se transformou também em um polo para a lavagem de dinheiro.
"[A Costa Rica foi vista] durante muito tempo como a Suíça da América Latina. A Costa Rica aboliu as Forças Armadas no final dos anos 40, e isso gerou um grande desenvolvimento, porque o dinheiro foi utilizado para desenvolver a educação e a saúde pública. E, por outro lado, também é um paraíso fiscal que a gente sabe que é bastante benéfico para a lavagem de dinheiro dessas organizações criminosas", observa.
Relação com a Casa Branca afasta o país de Pequim
Ainda no âmbito das relações internacionais, o professor Ricardo Luigi também conta que a proximidade da Costa Rica com os EUA, inclusive integrando o Escudo das Américas, fez com que o país se afastasse de uma parceria em potencial com a China.
"No começo dos anos 2000, a Costa Rica vinha se aproximando da China, inclusive com acordos de cooperação tecnológica, e a gente tem visto uma tendência também à retração dessa cooperação cada vez que a Costa Rica se aproxima dos EUA. E eu não vejo o Escudo das Américas, por exemplo, como um mecanismo que vai resolver os problemas da violência e crime organizado na América Latina", conclui.
O caso da Costa Rica demonstra o quanto as dinâmicas domésticas estão profundamente conectadas à política externa, tecendo uma teia que envolve interesses ideológicos diversos e o avanço do crime transnacional. A transformação da antiga "Suíça latina" evidencia que o isolamento pacífico já não é uma opção viável diante das forças globais contemporâneas.