ECONOMIA

Economistas alertam sobre efeitos negativos das apostas no Brasil

Estudo aponta que apostas online geram perda significativa na economia e aprofundam desigualdade de renda.

Por Sputnik Brasil Publicado em 09/09/2026 às 17:45
Estudo revela custos das apostas online na economia e seu impacto na desigualdade social. © Bruno Peres/Agência Brasil

À Sputnik Brasil, economistas analisam o impacto negativo das bets no crescimento econômico brasileiro e como a transferência de recursos gerada pelas plataformas aprofunda a elevada concentração de renda no país.

As apostas esportivas online, popularmente chamadas de bets, retiraram da economia brasileira entre R$ 120 bilhões e R$ 141 bilhões em 2025 em razão da redução do consumo, segundo um estudo publicado pelo Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (Made) da Universidade de São Paulo (USP).

Os dados indicam que a perda corresponde entre 40% e 50% de todo o crescimento econômico em 2025 e é cinco vezes maior que as projeções do custo do tarifaço dos EUA para a economia brasileira. O impacto sobre o consumo resulta em perda de arrecadação do governo de no mínimo R$ 22 milhões, podendo chegar até R$ 46 bilhões, o que equivale a 10% e 20%, respectivamente, de todo o orçamento destinado à saúde pública na Lei Orçamentária Anual (LOA) de 2025.

Em reunião no Palácio do Planalto para discutir os impactos das bets na sociedade, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que pretende tomar uma "decisão mais drástica" em relação às apostas esportivas e frisou que sua gestão já tem dois textos sobre o tema prontos para serem enviados ao Congresso na próxima semana.

Em entrevista à Sputnik Brasil, Juliane Furno, professora de economia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), avalia que o impacto econômico das bets apontado no estudo é preocupante e indica que uma parcela muito importante do, já baixo, crescimento do país se deve a essa atividade especulativa —não-produtiva — que emprega pouca gente e paga pouco tributo e, em geral, não fica dentro do Brasil.

"Ou seja, não é apenas dinheiro dos mais pobres para os mais ricos, em uma atividade de alto risco financeiro e social, mas uma transferência de recursos nacionais para grupos estrangeiros. Isso indica a fragilidade da economia brasileira, porque está se alicerçando em uma base muito precária de crescimento."

Para Hugo Garbe, professor e economista-chefe da G11 Finance & Restructuring, o custo econômico das bets vai muito além do dinheiro perdido nas apostas e coloca em evidência uma questão que precisa ser analisada em um cenário mais amplo que o do comportamento individual dos apostadores.

Segundo o economista, o volume de recursos transferido pelas famílias para as plataformas de apostas já adquiriu uma dimensão macroeconômica relevante. Porém, ele ressalta ser importante interpretar que a estimativa presente no estudo, de que a redução da atividade econômica de R$ 120 bilhões a R$ 141 bilhões corresponderia a até 50% do crescimento do período, não significa que as bets tenham, literalmente, retirado metade do crescimento do PIB brasileiro.

"Trata-se de uma estimativa contrafactual: procura-se medir quanto de atividade econômica poderia ter ocorrido caso esses recursos permanecessem disponíveis para outros usos pelas famílias. É uma maneira de dimensionar o custo de oportunidade dessa transferência de renda."

O dinheiro das bets não desaparece, explica Garbe, ele continua circulando na forma de pagamento das plataformas de aposta a funcionários, fornecedores, publicidade, tecnologia, serviços financeiros, impostos e outros custos. Ele avalia que o problema econômico está na forma como essa renda é redistribuída e, principalmente, no que deixa de ser feito com o dinheiro que as famílias perdem.

"Uma família que deixa de gastar R$ 500 em um supermercado, restaurante, transporte, vestuário ou outro serviço porque perdeu esse dinheiro em apostas reduz a demanda nesses setores. O comerciante deixa de receber, o fornecedor vende menos e, potencialmente, há menos renda e emprego ao longo dessa cadeia."

Em paralelo, uma parte dos recursos transferidos às bets pode se concentrar nos proprietários, acionistas e demais agentes que recebem a receita das plataformas. Logo, o problema não é a ausência de circulação do dinheiro, mas de uma mudança na direção dessa circulação.

"É por isso que o fenômeno pode contribuir para aumentar a desigualdade. Se uma parcela relevante dos recursos é retirada de famílias de baixa e média renda e transferida para empresas e proprietários com maior capacidade de poupança, há uma transferência que pode ser regressiva do ponto de vista distributivo."

Nesse cenário, a família de menor renda não perde apenas o dinheiro apostado, mas a possibilidade de usar esse recurso para reduzir dívidas, formar reserva ou adquirir bens, e o problema é agravado quando a perda é financiada por crédito.

"A sequência pode ser bastante perversa: a pessoa perde dinheiro, utiliza o cartão ou toma um empréstimo para cobrir as despesas, passa a pagar juros e fica com menos renda disponível nos meses seguintes. Em casos mais graves, entra em inadimplência e perde acesso ao crédito."

Furno, por sua vez, enfatiza que essa transferência de recursos agrava a situação da já elevada concentração de renda no país, e que, além de ser um problema social significativo, também é um problema econômico, já que quanto mais pobre é a pessoa, maior é seu potencial marginal de consumir.

"Quanto menos renda a pessoa tem, menos ela poupa, porque há muitas necessidades emergenciais de consumo. Então, um recurso que poderia estar indo para a economia local, está sendo drenado para fora. Isso impacta o potencial do consumo gerar emprego e renda", observa a economista.

Ela aponta ainda que hoje as bets respondem proporcionalmente mais ao endividamento do que a taxa de juros.

"Estamos batendo recorde tanto de endividamento quanto de inadimplência, e uma parte expressiva desse endividamento não é para a compra de bens materiais, mas para jogos de azar."

O que o Brasil poderia fazer?

Garbe considera que a resposta do governo brasileiro não precisa necessariamente ser a proibição das apostas legais, pois isso poderia deslocar parte da atividade para plataformas ilegais ou sediadas no exterior. Segundo ele, o desafio é reduzir os danos produzidos pelo mercado regulado e, ao mesmo tempo, impedir que o mercado clandestino ocupe o espaço deixado por ele.

O primeiro caminho, avalia o economista, seria restringir a publicidade, sobretudo aquela dirigida a jovens e pessoas economicamente vulneráveis, uma vez que a associação entre apostas, sucesso financeiro, esporte e entretenimento contribui para normalizar uma atividade que, para uma parcela dos consumidores, pode produzir perdas significativas. Também é importante fortalecer mecanismos de limite de depósito e de perdas, pois não basta informar ao consumidor que ele deve apostar de maneira responsável.

"As próprias plataformas precisam ter mecanismos capazes de identificar padrões de comportamento de risco e interromper ou restringir a atividade quando houver sinais claros de perda de controle. A autoexclusão centralizada é outro instrumento importante. O consumidor que decide parar de apostar não deveria precisar solicitar o bloqueio individualmente em dezenas de plataformas diferentes. O bloqueio deveria valer para todo o mercado regulado e seu desbloqueio deveria exigir um período de espera."