POLÍTICA

Governos sul-americanos adotam retórica anti-imigração semelhante à dos EUA

Análise aponta impacto das políticas migratórias rígidas na integração regional.

Por Sputnik Brasil Publicado em 09/09/2026 às 09:32
Análise sobre as novas práticas anti-imigração em países da América do Sul. © Foto / X / @SubseInterior

A retórica e as práticas migratórias do governo de Donald Trump encontraram eco em países como Argentina, Chile e Colômbia. Alinhados aos Estados Unidos, esses governos também adotaram uma postura de rigidez em relação aos imigrantes. A adaptação da atual política estadunidense ao cenário sul-americano reacende o debate sobre a integração regional.

Nesse sentido, Beatriz Bandeira de Mello, doutora em relações internacionais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), em entrevista à Sputnik Brasil, aponta que esse tipo de posicionamento pode com o tempo corroer um dos pilares mais fortes entre os países sul-americanos, que é justamente a circulação de pessoas.

"Eu acho que corrói muito a nossa sociedade e não contribui em nada para a nossa região. Com esses tensionamentos, frações da sociedade que às vezes não têm essa percepção e enxergam [a imigração] como ameaça. Então, é muito perigoso a gente ir por esse caminho de criminalizar, de enrijecer as normas e tudo mais", disse.

A especialista pontua que a proximidade ideológica com Washington de líderes como Abelardo de la Espriella (Colômbia), Javier Milei (Argentina) e José Antonio Kast (Chile) fortalece a criminalização dos fluxos migratórios. Como reflexo dessa convergência política, a população venezuelana torna-se ainda mais vulnerável e exposta a abusos no continente.

"Assim como Kast, Abelardo de la Espriella também tem adotado uma retórica muito agressiva de criminalizar esses migrantes. Acontece que, à medida em que são eleitos esses governos mais alinhados com as diretrizes de governo Trump, começa-se a adotar essa retórica mais agressiva contra os migrantes, principalmente contra esses fluxos migratórios, tendo os venezuelanos como os bodes expiatórios", comenta.

Discurso anti-imigração são feitos a partir de falácias

Outro ponto levantado por Bandeira de Mello é que a culpabilização de imigrantes para os problemas estruturais do país, também é seguida por ideias sobre aumento da criminalidade, que supostamente afetariam a economia interna.

"Os políticos alinhados com esse discurso de que os migrantes dizem que são um grande problema do desenvolvimento econômico, então que fechar fronteiras seria a solução [e essa ideia] vem associada à retórica de criminalização também, de que os imigrantes vêm cometer crimes, o que tem sido muito usado por Milei", destaca.

A analista internacional também pontua que Buenos Aires e Bogotá, ao dificultarem as regras de migração entre cidadãos do Mercosul e de seus estados associados, desrespeitam diretamente os acordos de integração no âmbito da América do Sul.

"Hoje a gente tem essa facilidade de poder transitar entre os países, principalmente no Mercosul e nos países associados. O que acontece é que os países, por exemplo, Argentina e Colômbia, que são os dois exemplos mais chaves, que têm falado mais sobre isso abertamente, eles têm tentado, digamos, 'burlar' essa regra", observa.

EUA como padrão a ser seguido é algo contraditório

Segundo a análise de Bandeira de Mello, é contraditória a postura anti-imigração dos EUA, visto que o país foi historicamente construído por fluxos migratórios. Essa dinâmica torna-se ainda mais complexa quando replicada por nações latino-americanas, que adotam diretrizes estadunidenses em detrimento de suas próprias realidades regionais.

"Eu acho que é muito perigoso a gente incorporar esses discursos enlatados dos EUA que, em si, foi um país formado por migrações, é extremamente contraditório. A gente não pode assumir esses discursos enlatados e acreditar que fechar fronteiras e infringir as nossas normas é a melhor saída para lidar com a questão migratória, que é muito central em toda a América Latina", conclui.

A influência dos EUA na América Latina vai além das pressões econômicas e militares. O alinhamento automático à Casa Branca faz governos locais replicarem diretrizes de Washington internamente. Contudo, ao adaptar essas estratégias, como na gestão migratória, essas nações agravam suas próprias crises humanitárias e institucionais.