Corredores verdes avançam no mundo e Brasil amplia participação na agenda de descarbonização marítima
Acordo com Singapura se soma a iniciativas do MPor com Noruega, Países Baixos e França para desenvolver rotas com combustíveis e tecnologias de baixa ou zero emissão
O Brasil ampliou sua participação na agenda internacional de descarbonização do transporte marítimo com a assinatura, em agosto, de um Memorando de Entendimento com Singapura para a criação de um Corredor Verde e Digital de Navegação entre os dois países. A iniciativa se soma a acordos e estudos desenvolvidos pelo Ministério de Portos e Aeroportos (MPor) com outros parceiros internacionais e acompanha um movimento que vem ganhando espaço em diferentes regiões do mundo.
O objetivo dos chamados corredores verdes é criar, em determinadas rotas marítimas, as condições para que navios movidos por combustíveis de baixa ou zero emissão possam operar. Para isso, governos, portos, empresas de navegação, produtores de combustíveis, instituições de pesquisa e outros integrantes da cadeia trabalham de forma coordenada em temas como infraestrutura, oferta de combustíveis, tecnologias, regulamentação, financiamento e capacitação.
A proposta surgiu internacionalmente a partir da Declaração de Clydebank, lançada na COP26, em 2021. Desde então, o conceito se espalhou por diferentes mercados e passou a ser tratado como uma ferramenta para testar soluções e acelerar a transição do transporte marítimo para modelos de menor emissão. Segundo o Relatório Anual de Progresso dos Corredores Marítimos Verdes 2025 (Annual Progress Report on Green Shipping Corridors 2025), havia 84 iniciativas ativas no mundo até outubro de 2025, 25 a mais que na edição anterior.
Um movimento em expansão
O crescimento das iniciativas mostra que os corredores verdes deixaram de ser uma agenda concentrada em poucos países. O relatório aponta novas iniciativas na Ásia, na América Latina e na África, incluindo quatro na Índia, quatro na China, três no Brasil e duas no Chile, além de projetos em Gana e no Quênia. Ao todo, mais de 300 organizações participavam das iniciativas acompanhadas pelo levantamento.
Apesar da expansão, a implementação ainda está em estágio inicial. Das 84 iniciativas identificadas, 24 estavam na fase de iniciação, 44 na etapa de exploração e 12 na fase de preparação. Apenas quatro haviam chegado à etapa de realização, quando navios, infraestrutura ou instalações de combustível começam a ser construídos ou quando o transporte marítimo com emissão zero efetivamente começa a operar na rota.
Entre os projetos que chegaram mais longe estão rotas na Europa e na Ásia-Pacífico. Os corredores entre Estocolmo e Turku e entre Vaasa e Umeå (regiões da Finlândia e da Suécia), por exemplo, já usavam biometano em operações de transporte de passageiros. Na rota entre Austrália e Ásia, empresas avançaram na contratação de navios preparados para operar com amônia, enquanto o corredor entre Oslo, na Noruega, e Roterdã, nos Países Baixos, conta com navios movidos a hidrogênio em desenvolvimento e estudos para a infraestrutura de abastecimento.
Os exemplos mostram que não existe um único caminho para viabilizar um corredor verde. Em alguns casos, instrumentos regulatórios ajudam a reduzir a diferença de custo dos combustíveis. Em outros, compromissos de grandes empresas ou recursos públicos contribuem para tornar os projetos economicamente viáveis. O relatório aponta que encontrar soluções específicas para cada rota é um dos fatores que têm permitido o avanço das iniciativas mais maduras.
O desafio da implementação
A distância entre anunciar um corredor e colocá-lo em operação é um dos principais desafios da agenda. O relatório aponta a diferença de preço entre combustíveis convencionais e alternativas de baixa ou zero emissão como uma das principais barreiras. A dificuldade de fazer os donos das cargas aceitarem um custo adicional também limita a evolução de vários projetos.
Outros obstáculos incluem o tempo necessário para construir navios e infraestrutura, a disponibilidade de instalações para armazenamento e abastecimento de novos combustíveis e as incertezas regulatórias.
Ao mesmo tempo, as iniciativas já produziram resultados que vão além da implantação de embarcações, com impactos considerados altos na criação de conexões entre empresas e governos, na produção e compartilhamento de conhecimento e na ampliação da conscientização sobre o papel dos portos na construção de cadeias de abastecimento de combustíveis de menor emissão.
Brasil amplia parcerias
É nesse cenário que o Brasil vem estruturando sua participação. O Memorando de Entendimento assinado com Singapura prevê cooperação para avaliar as condições necessárias à criação de uma cadeia de suprimento de combustíveis com emissões de gases de efeito estufa nulas ou próximas de zero, na rota entre os dois países. O acordo também contempla pesquisa e desenvolvimento, estudos para redução de riscos dos investimentos, instrumentos financeiros e digitais, intercâmbio de informações, capacitação e workshops.
A escolha de Singapura como parceiro também amplia as possibilidades de cooperação em uma região central para o transporte marítimo mundial. Durante a missão internacional realizada em agosto, o ministro Tomé Franca visitou o Porto de Tuas e conheceu soluções de automação, digitalização e sustentabilidade aplicadas à operação portuária. A agenda também incluiu reunião com a Autoridade Marítima e Portuária de Singapura e a assinatura do memorando.
“O Brasil tem muito a contribuir para essa transição. Somos um dos maiores produtores de biocombustíveis do mundo e temos condições favoráveis para desenvolver combustíveis de baixa emissão. A criação de corredores verdes aproxima países, empresas e instituições para transformar esse potencial em soluções para o transporte marítimo”, afirmou Tomé Franca.
Cooperação internacional
A parceria com Singapura se soma à cooperação construída pelo MPor com outros países. Com a Noruega e os Países Baixos, o Ministério participa de discussões para estruturar um corredor marítimo sustentável entre o Brasil e a Europa. Em junho, representantes dos três países participaram, em Brasília, de um workshop dedicado à implementação da iniciativa, com apresentação de um estudo de viabilidade técnica que identificou rotas prioritárias e avaliou alternativas de combustíveis, como biodiesel, amônia e metanol.
O trabalho também avançou para a discussão de mecanismos capazes de aproximar os projetos da implementação. Entre os pontos debatidos estão a coordenação entre governos, empresas e instituições de pesquisa e a possibilidade de direcionar instrumentos de financiamento para embarcações, portos e terminais que façam parte de corredores verdes.
Com a França, o MPor também participa de uma iniciativa voltada à criação de um corredor marítimo verde. A Declaração de Intenções prevê cooperação para desenvolver projetos de transporte marítimo sustentável, estimular tecnologias de baixa ou quase zero emissão, ferramentas digitais, pesquisa conjunta e capacitação. O acordo estabelece ainda que o Ministério, por meio das Secretarias Nacionais de Portos e de Hidrovias e Navegação, deverá liderar a coordenação pelo lado brasileiro.
Brasil no mapa
O avanço dessas parcerias ocorre em um momento de expansão mundial dos corredores verdes. O relatório do Global Maritime Forum destaca que países como Brasil, China e Índia já possuem estratégias e objetivos relacionados à transição energética, mas ainda precisam desenvolver instrumentos capazes de transformar essas diretrizes em projetos concretos. O documento aponta justamente a cooperação bilateral, a coordenação de políticas públicas e a participação antecipada do setor privado como caminhos para acelerar essa etapa.
Para o Brasil, a agenda reúne desafios e oportunidades. Além de participar da construção de soluções para reduzir as emissões do transporte marítimo, o país possui potencial para atuar na produção e no fornecimento de combustíveis de baixa emissão, como biometano, hidrogênio, amônia e metanol verdes.