DEFESA

Parceria com Abu Dhabi fortalece setor de defesa cibernética no Brasil

Centro de Excelência em Defesa Cibernética será o primeiro na América Latina com enfoque na tríplice hélice.

Por Sputnik Brasil Publicado em 03/09/2026 às 16:32
Brasil e Abu Dhabi selam parceria para o Centro de Defesa Cibernética na América Latina. © Foto / Divulgação / EDGE Group

Em entrevista à Sputnik Brasil, especialistas apontam vantagens na parceria entre Exército e EDGE Group, dos Emirados Árabes Unidos, e reforçam necessidade de planos de longo prazo para a industrialização brasileira por meio da tríplice hélice.

O Exército Brasileiro e o conglomerado emiradense EDGE Group anunciaram no fim do último mês uma parceria para desenvolvimento e criação do Centro de Excelência em Defesa Cibernética (COE). De acordo com os responsáveis pelo projeto, esta será a primeira instalação deste tipo na América Latina a operar por meio de uma tríplice hélice: governo, academia e indústria.

O COE terá como objetivo proteger os sistemas e redes das Forças Armadas e de outras instituições federais, realizando capacitações para lidar com ataques, dando treinamentos para evitar invasões e desenvolvendo uma doutrina nacional para esse tipo de evento.

A iniciativa reflete um compromisso estratégico e paritário entre as duas instituições fundadoras de estabelecer uma organização permanente, com padrões internacionais de referência, para atender às demandas de cibersegurança do Brasil e contribuir para a região em geral.

Ainda por meio do comunicado do grupo emiradense, os parceiros fundadores realizarão investimentos diretos na instituição, mas não informou quanto será destinado ao projeto, tampouco onde será a sede do COE.

Em entrevista à Sputnik Brasil, especialistas afirmaram que a parceria entre o Exército Brasileiro e um grupo emiradense reforça o compromisso de Brasília com o Sul Global. No entanto, destacam a necessidade de transformar esse projeto conjunto em apenas um primeiro passo para o desenvolvimento de uma indústria e uma tecnologia nacional.

Juliana Zaniboni, pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Estudos Estratégicos da Universidade Federal Fluminense (PPGEST/UFF) e especialista em cibersegurança e ciberdefesa, conta que é preciso analisar além do próprio acordo e questiona se há um projeto de longo prazo por trás da parceria.

Se o Brasil faz esse tipo de negociação, essa ideia de transferência de tecnologia, mas ao mesmo tempo não tem essa política ou esse entendimento a longo prazo de como pegar essa tecnologia e transformar em nacional, fazer disso um processo de industrialização [...], essas transferências não seriam pensadas a longo prazo.

Zaniboni desta que esta cooperação estreita os laços entre Brasil e EAU, que tem crescido desde a entrada de Abu Dhabi no BRICS. No entanto, a especialista destaca que o país árabe é aliado dos Estados Unidos e questiona se o desenvolvimento do COE com um outro Estado configura soberania ao Brasil.

A ideia da soberania é ter a gerência sobre infraestruturas, ter o poder. Se você se mantém nesse lugar de compra eterna, será de fato uma soberania? Os EAU são parceiros, tudo bem, mas, caso alguma coisa no sistema internacional aconteça e esse tipo de compra não seja mais utilizada, não seja mais possível, o que a gente faz?

João Gabriel Brumann, professor de relações internacionais da UniRitter e pesquisador do Instituto Sul-Americano de Política e Estratégia (ISAPE), acredita que o ideal era o Brasil desenvolver o COE de maneira autônoma, mas não vê riscos à soberania do país. O especialista, por sua vez, valoriza a transferência de expertise emiradense, assim como o dinheiro que o grupo árabe pode aportar para fazer essa tríplice hélice funcionar.

Não pode ser considerada uma diminuição da nossa autonomia, da nossa soberania, na medida em que deve envolver contrapartidas, o que a gente chama de offset. Até onde foi divulgado, não se trata de uma aquisição, mas sim de uma parceria, de um desenvolvimento em conjunto, e isso é extremamente comum na área de defesa.

Brumann ressalta a escolha de um grupo pertencente a um país fora da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), o que reforça a pluralidade de parcerias brasileiras no campo da defesa. Para o especialista, a ideia desse acordo não é afrontar alguma nação em específico, mas mostrar que o Brasil busca aliados além do Norte Global.

Isso é realmente uma ampliação de laços do Brasil, é o funcionamento de uma diplomacia de defesa voltada para o Sul Global, para os países em desenvolvimento, se você preferir. E pode ser uma forma de demonstrar autonomia frente a essas investidas, sim, demonstrar que o Brasil tem capacidade de articular outros parceiros para continuar se capacitando nos eventos de defesa.

O grupo emiradense mais brasileiro?

O site InvestNews fez um levantamento das aquisições do EDGE Group no Brasil e mostrou que os emiradenses já compraram participações em três empresas de defesa nacionais: 100% da Akaer (tecnologia aeroespacial, energia e automotiva), 51% da Condor (tecnologias não letais) e 50% da SIATT (mísseis).

Zaniboni conta que os Emirados Árabes Unidos têm diversificado investimentos no setor de defesa, sendo o Brasil o segundo maior parceiro no continente. Brasília só fica atrás de Washington, que assistiu à migração de empresas norte-americanas da área de inteligência artificial para Abu Dhabi.

Pensando nos aspectos econômicos, a especialista não vê o Brasil em pé de igualdade com o EDGE Group no projeto do COE.

Acho que [esse acordo] se torna mais vantajoso para eles, que estão ativamente fazendo essa diversificação de mercado para eles. Em relação ao Brasil, tenho já as minhas ressalvas. A gente não está levando a nossa tecnologia, a gente está em uma posição mais subalterna.

Brumman, por outro lado, acredita que a venda das aeronaves multimissão Embraer C-390 feitas aos Emirados Árabes Unidos pode ter tido como contrapartida o estreitamento de laços de defesa dos dois países.

Como o Brasil pratica cláusulas de offset para si, outros países também praticam para eles. É muito provável que isso tenha sido negociado no pacote ou que tenha aberto essa possibilidade por conta dessa aquisição [do C-390].

A escolha do Exército Brasileiro, em específico, para a realização desse projeto, segundo Brumman, se dá pelo planejamento estratégico estabelecido no Livro Branco de Defesa Nacional, publicado em 2012. O documento também prevê que a Marinha realize o desenvolvimento de planos sobre energia nuclear e a Força Aérea, por sua vez, cuide da parte aeroespacial.

O Livro Branco deixa bem clara essa divisão de responsabilidades frente aos projetos estratégicos brasileiros. [...] É o pessoal do Exército que tem essa expertise e a articulação [para ciberdefesa].