Brasil se destaca na diplomacia global com Lula
Especialistas analisam desafios e a importância do Itamaraty no atual cenário internacional.
Em entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, especialistas ressaltam tradição do Itamaraty e traçam desafios para as relações exteriores brasileiras em meio a um mundo em transformação.
O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, é defensor de uma política externa pujante desde o primeiro mandato. Essa característica, inclusive, gerava brincadeiras em programas da televisão brasileira, como Casseta & Planeta, sobre o petista supostamente nunca estar no país.
Em seu terceiro governo, Lula manteve a postura de internacionalização do Brasil, que sediou eventos como o G20, a cúpula do BRICS e a COP30. Este atributo de posicionar o país como um ator internacional relevante, no entanto, ganhou maior destaque a partir dos imbróglios econômicos com os Estados Unidos, em meados de 2025.
Concorrendo ao quarto mandato, Lula tem como principal adversário o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que galga o posto que já foi de seu pai, Jair Bolsonaro (2019-2022). Se seguir a política externa do patriarca, Flávio tende a fugir da tradição brasileira de circular entre diferentes frentes nas relações globais.
Em entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, especialistas destacam que a chave para o sucesso da política externa brasileira está na capacidade do Itamaraty de ser ativo e enérgico quando necessário ou conciliador e gerenciador em questões que tenham gerado mal-entendidos.
Bruno Mendelski, doutor em relações internacionais, professor visitante e pesquisador na Universidade Federal do ABC (UFABC), além de pesquisador na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), afirma que o grande desafio para o Itamaraty no mandato do próximo presidente é saber navegar na atual polarização global.
No caso do tarifaço norte-americano, Mendelski defende que a ação enérgica do Brasil em se posicionar contra os Estados Unidos e não ceder, apesar de negociar, é um exemplo de caso no qual o Ministério das Relações Exteriores, assim como o governo federal, atuaram conforme o histórico do Itamaraty.
"Quando diz respeito aos interesses estratégicos do Brasil — e a economia é um deles —, o país tem uma política externa mais ativa. Lógico, nós entendemos, a diplomacia brasileira é muito bem capacitada para isso, que nós não temos o poderio militar e econômico das grandes potências. Por isso que o Brasil, historicamente, usa o diálogo, o multilateralismo para reduzir essa simetria de poder."
Natalia Fingermann, professora de relações internacionais da ESPM, acredita que Lula possuía um cenário mais favorável em seus dois primeiros governos, tanto no aspecto global quanto no regional. Ainda assim, a docente reforça que o Brasil cumpre papel relevante na geopolítica.
"O Brasil é um ator relevante, é importante colocar isto aqui porque parece que alguns candidatos não entendem a capacidade do Brasil e o poder econômico que o Brasil representa. A gente está falando de uma das dez maiores potências econômicas do mundo, com um mercado consumidor muito grande, território enorme e biodiversidade muito relevante e, além de tudo, com uma coisa que hoje está todo mundo de olho: as terras raras."
Destreza diplomática
Ambos os especialistas destacam a capacidade do Brasil de dialogar com múltiplos lados. Enquanto tem Pequim como principal parceiro, Brasília continua a negociar com Washington para derrubar as tarifas impostas unilateralmente pela Casa Branca.
Mendelski classifica o Brasil como uma das principais lideranças do Sul Global, mas que isso não deve e não significa um alinhamento automático com os países que se qualificam neste conceito. Prova disso é que o Planalto é convidado para reuniões como as dos G7.
"O Brasil, com exceção do que ocorreu quatro anos atrás, é um país que as demais nações querem ouvir. O Brasil tem uma liderança muito forte, por exemplo, em uma das questões-chave do século XXI, que são as mudanças climáticas. O Brasil tem essa expertise. O Brasil é um dos maiores produtores de alimentos, outra questão fundamental que também está ligada com a sustentabilidade."
O especialista destaca que, mesmo que Lula deixe o cargo e assuma um presidente com características contrárias às do petista, não será simples mudar a marca da diplomacia brasileira, dado o quadro técnico que opera o Itamaraty.
"Caso a oposição vença, a questão é que o Brasil possui um histórico, uma imagem muito consolidada. Mesmo com os quatro anos [anteriores] de retrocessos em âmbito interno e internacional, o Brasil não chegou a ser plenamente escanteado porque havia-se a consciência [de que ia passar o governo]."
Para Fingermann, o ideal seria que o Brasil mantivesse a atual política externa, que, em sua visão, não possui um lado estabelecido.
"E se o Brasil se afastar de qualquer um desses dois países, que são os dois principais parceiros comerciais do Brasil, o Brasil tem muito a perder, economicamente e comercialmente. Então, apesar das disputas políticas, principalmente a que há entre Donald Trump, Marco Rubio e o governo Lula, a gente percebe que, ainda assim, os EUA, em termos comerciais, são muito importantes para a economia brasileira e os canais de negociação fora da esfera oficial se mantêm consolidados e muito fortes."