Desafios da política externa brasileira em tempos de tensão global
Especialistas discutem a necessidade de autonomia e versatilidade nas relações internacionais do Brasil.
Ao podcast Mundioka, especialistas apontam que, seja quem for o presidenciável eleito, terá de lidar com um mundo de múltiplos conflitos e de intensa pressão intervencionista norte-americana.
O presidenciável que vencer as próximas eleições terá um grande desafio pela frente no que diz respeito à política externa. Em um mundo cada vez mais polarizado, fragmentado e marcado pela rivalidade entre grandes potências, qual seria a melhor estratégia, aderir a algum polo de poder ou preservar a autonomia do Brasil?
Para José Niemeyer, professor de relações internacionais do Ibmec, o ideal seria o país manter a equidistância com relação aos centros de poder. Em entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, ele avalia que o Brasil não deve se aproximar por demasiado de uma só potência.
Ele cita como exemplo a relação com os EUA, que já dura 130 anos e é essencial para a exportação brasileira de óleos combustíveis, aviões, máquinas, equipamentos e produtos semimanufaturados.
"A gente deve manter a nossa relação com os EUA. Mas o Brasil deve ter a mesma agenda ou aprimorar essa mesma agenda de aprofundamento das relações externas com China, com a União Europeia, com Índia, com os outros quadrantes do sistema internacional, principalmente onde você observar a ação das potências", afirma.
Ele acrescenta que o Brasil não precisa necessariamente estar com um relacionamento específico com uma determinada potência, mas é importante que o país atue naquela região. Um exemplo, segundo Niemeyer, é a relação do Brasil com a Alemanha, que permite, indiretamente, a relação do país com a União Europeia (UE). Outro exemplo é Vietnã, Malásia e Singapura, que estão na mesma lógica de poder que engloba a China.
"Às vezes o relacionamento no mundo muito fragmentado como hoje não necessariamente é um relacionamento direto, mas é importante que o Brasil pelo menos esteja próximo dos países que orbitam aquela potência."
Niemeyer observa que a volatilidade no sistema internacional também torna necessário para o Brasil aprimorar seu sistema de defesa.
"Hoje o Brasil é a 11ª força militar do planeta [...]. O Brasil precisa proteger essas riquezas que são variadas no campo dos minerais, da energia, de terras agriculturáveis, na nossa costa."
Ele enfatiza que o país precisa ter uma estrutura de defesa nacional muito eficiente e pronta contra para combater inimigos formais, que seriam estrangeiros ou organizações ou Estados tentando invadir território brasileiro de alguma maneira, e também para combater inimigos que não têm face, que são os grupos terroristas ou muitas vezes o crime organizado. No entanto, ele é contrário à proposta de o país ter uma arma nuclear.
"Eu não vejo o Brasil com necessidade de produzir sua própria bomba. O que o Brasil tem é que continuar fazendo pesquisas com energia nuclear para fins pacíficos, para a área econômica, para a área da saúde e também para a área de mobilidade, principalmente dos seus submarinos", afirma.
Pablo Saturnino Braga, professor adjunto do Departamento de Relações Internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e coordenador do LABMUNDO, avalia dois cenários distintos de possibilidades de governo. Ele diz que, caso a gestão Lula seja continuada, a proposta será de produzir algum espaço de autonomia diante de um quadro de múltiplas crises internacionais, e em que há uma pressão muito forte dos EUA, que, em certa medida, é uma ameaça à soberania nacional.
"Agora, em relação à eventual vitória do candidato da extrema-direita brasileiro, Flávio Bolsonaro, aí o cenário é um cenário de submissão, de concessão irrestrita da soberania nacional aos desígnios do império estadunidense, que é essa conjuntura crítica em que a gente está inserido", opina o especialista.
Na visão de Braga, as demais crises internacionais em curso atualmente são, em grande parte, consequência do intervencionismo do governo estadunidense. No recorte da América Latina, ele classifica o Brasil "como se fosse a rainha do tabuleiro", que é o último reduto de um campo progressista na região.
"No Uruguai a gente tem uma direita um pouco mais civilizada, mas no quadro geral é de um alinhamento de lideranças com o trumpismo, e isso leva a políticas, a algumas consequências importantes para a região, a abertura muito maior à entrada de empresas multinacionais e extração de recursos naturais da América Latina pelos EUA."
Ele acrescenta que, nesse cenário, a disputa tecnológica acaba sendo crucial justamente para a preservação da soberania, e destaca que a trincheira tecnológica é o espaço em que os países conseguem explorar as possibilidades maiores de dinamismo econômico, de uma economia muito mais competitiva e qualificada, tecnicamente.
"A capacidade do Brasil de desenvolver essas tecnologias é fundamental para definir a nossa autonomia também. E essa é uma das questões mais fundamentais para a gente investir. Um projeto de desenvolvimento nacional que consiga, de fato, tornar a economia brasileira mais competitiva para acompanhar as grandes transformações tecnológicas que nós estamos vivendo hoje", afirma.
Braga afirma ainda que outro desafio será avançar no projeto de neo-industrialização, o que necessitaria de uma escala de investimentos muito maior e de priorização.
"Mais do que apenas ter um programa que tenta, de alguma forma, reabilitar as cadeias produtivas mais sofisticadas, mas qual é a prioridade?"
Sobre a possibilidade de o Brasil ter uma arma nuclear, Braga destaca que o país aderiu aos principais instrumentos de não proliferação nuclear e foi um protagonista nessa discussão na década de 1970. Além disso, ele avalia que possuir uma arma nuclear seria demasiadamente delicado para o entorno estratégico do país.
"A Argentina vai olhar com desconfiança, ainda mais sobre um governo que não é nem rival, é um governo inimigo hoje, se a gente pensar o grau de agressividade do [Javier] Milei em relação ao Brasil, particularmente ao presidente Lula. [....] Para mim, isso não passa de uma discussão que não faz muito sentido diante da nossa inserção regional e internacional", afirma o especialista.