Conab se prepara para mitigar efeitos do El Niño, afirma diretora
Companhia Nacional de Abastecimento adota medidas para garantir alimentos em regiões afetadas pelo fenômeno climático.
À Sputnik Brasil, diretora da companhia lista medidas do governo contra os impactos do fenômeno climático, como a recomposição dos estoques e políticas de abastecimento de pequenos produtores, que protegem contra eventuais quebras de safras.
O El Niño está previsto para afetar fortemente o clima no Brasil até o final do verão de 2027, alterando o regime de chuvas e elevando as temperaturas em diferentes regiões. Tais mudanças climáticas colocam à prova a produção de alimentos e aumentam o risco de perdas de safras.
Dentre os principais impactos previstos estão chuvas excessivas para o Sul, com inundações e danos a culturas como o trigo e o arroz, e estiagem no Norte e Nordeste, afetando cultivos de feijão, mandioca e milho sequeiro.
À Sputnik Brasil, a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) alerta ainda para o risco de desabastecimento por conta da estiagem, que leva à redução do calado das embarcações – isto é, sua capacidade de ficar submersa para navegar em segurança, sem encalhar.
"E isso afeta especialmente aqueles municípios, aquelas cidades que só têm acesso pelos rios. Isso pode impactar como esses alimentos chegam nessas regiões mais isoladas ou com acesso exclusivamente fluvial no Norte do país", afirma Naiara Bittencourt, diretora de Política Agrícola e Informação.
Bittencourt também chama atenção para os impactos causados pelo El Niño em relação ao milho. Como o alimento é essencial para ração de aves, suínos e bovinos, sua escassez pode levar ao aumento de preço em outros setores da economia. No entanto, ela afirma que esse efeito não é imediato por conta da política pública do governo direcionada a manter os estoques abastecidos.
"Especialmente na região do Centro-Oeste, que está agora no ápice da safra, a gente tem adquirido esse milho para deixar estocado [...] para garantir que esse milho seja disponibilizado em um preço acessível. Então, ainda que a gente tenha uma quebra de safra do milho no Nordeste e no Norte no início do ano que vem, a gente já tem a formação desses estoques ocorrendo nesse momento para prevenir esses efeitos."
Em maio, o governo anunciou a liberação de R$ 54,3 milhões em crédito suplementar para a Conab para antecipar a compra de milho e formar estoques de prevenção do El Niño. A ação foi seguida pela aprovação da Medida Provisória (MP) 1.384/2026, que abre um crédito extraordinário de cerca de R$ 925 milhões destinados à recomposição dos estoques e políticas de abastecimento de pequenos produtores, protegendo contra eventuais quebras de safras.
"Desse recurso, cerca de R$ 850 milhões vão para a recomposição de estoques e de políticas públicas executadas pela Conab em parcerias tanto com o Ministério do Desenvolvimento Social, quanto com o Ministério do Desenvolvimento Agrário", detalha Bittencourt.
"Outras medidas importantes que também vão ser executadas agora com esse crédito extraordinário é a ação de distribuição de alimentos e o programa de aquisição de alimentos."
Ela destaca ainda que a união do choque climático aos gargalos logísticos que afetam regiões isoladas, como comunidades da Amazônia, traz a necessidade de combinar vários tipos de instrumentos.
"Primeiro é a ação de distribuição de alimentos, com atenção especial aos povos indígenas e comunidades tradicionais, comunidades ribeirinhas, e também, especialmente, com enfoque em unidades de conservação, que é para fornecer cestas prontas de alimentos em comunidades que não tenham produção suficiente."
Essa medida, acrescenta a diretora, é combinada com o programa de aquisição de alimentos, que é voltado para adquirir alimentos das comunidades tradicionais, da agricultura familiar, e entregar em unidades recebedoras, como escolas e unidades de saúde.
Já para o Nordeste ela afirma que o foco são as políticas de abastecimento alimentar voltadas aos pequenos criadores, e no Sul o empenho da Conab é para garantir estoques de alimentos, cestas prontas e o abastecimento de cozinhas solidárias para momentos de intensa enxurrada e inundações.
"É importante a gente dizer, que essa estratégia adotada pela Conab, em conjunto com os ministérios, ela é necessariamente territorializada. Não existe uma única resposta para o El Niño no Brasil, tem uma resposta para o Norte, uma resposta para o Nordeste e uma para o Sul, que são instrumentos diversos em cada uma dessas regiões."