ECONOMIA

Crise energética na Romênia e suas repercussões na Europa

Desligamento da usina de Cernavodă evidenciou vulnerabilidades de nações do Leste Europeu

Por Sputnik Brasil Publicado em 31/08/2026 às 10:53
Crise energética na Romênia destaca vulnerabilidades de países do Leste Europeu. © AP Photo / Andreea Alexandru

O desligamento da usina de Cernavodă por causa da seca no Danúbio gerou um efeito cascata que colocou até a Moldávia em alerta. O caso expõe o paradoxo do Leste Europeu: na pressa de impor sanções à Rússia por razões políticas ditadas por Bruxelas, nações com menor PIB sofrem impactos imediatos e bem mais severos do que os países ricos do Ocidente.

O complexo cenário na região dos Cárpatos reflete como a política ocidental de tentar isolar a Rússia agrava a vulnerabilidade de nações como a Romênia, que, apesar de integrar a União Europeia (UE), não tem peso político suficiente para se contrapor às lideranças do bloco. Com isso, acaba sofrendo impactos desproporcionais, conforme aponta Pedro Martins, doutorando em relações internacionais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), em entrevista à Sputnik Brasil.

"A Romênia é um país da UE, mas não tem capacidade econômica nem política para pressionar os outros países europeus. Romênia, Moldávia e vários países do Leste Europeu não tinham alternativa: ou mantinham a integração energética e econômica com a Rússia, ou o país parava. Por isso, muitos começaram a ter muita dificuldade em manter essas sanções contra o setor energético russo", disse.

Segundo o pesquisador, o impacto dessas medidas coercitivas contra Moscou expõe as profundas assimetrias econômicas no bloco europeu. Nesse sentido, outras nações menos abastadas acabam arcando com o fardo mais pesado das decisões políticas, em nítido contraste com o colchão financeiro das potências mais ricas do continente.

"Os 27 países [da UE] têm dependências diferentes da Rússia. A Alemanha usava a energia russa para baratear sua economia e manter a inflação sob controle. Portanto, não é uma questão de abastecimento, é uma questão econômica. Foi uma decisão política [de sancionar a Rússia] muito arriscada, e agora muitos países do Leste Europeu, que pertencem à União Europeia, estão pagando a conta", comenta.

Moldávia na encruzilhada: sem energia e fora da UE

Como resultado, a crise energética em Bucareste acabou impactando diretamente Chisinau. Embora a Moldávia não integre a União Europeia, o governo local optou por seguir as diretrizes ocidentais e romper os vínculos com Moscou, ignorando sua histórica dependência da energia russa. No entanto, ao transferir sua demanda para a Romênia, o país entrou imediatamente em estado de alerta assim que o novo fornecedor entrou em crise, conforme explica Martins.

"A Moldávia dependia 100% de importação de energia da Rússia. Muitos países do Leste Europeu, quer sejam ou não da União Europeia, como é o caso da Moldávia, tinham uma integração energética com a Rússia extrema, muito profunda. Então, quando o conflito [russo-ucraniano] começa, eles são os primeiros a sentir o impacto", destaca.

Outro ponto levantado pelo especialista é que, embora o governo moldavo deseje ingressar na União Europeia, essa ambição não reflete necessariamente a opinião pública local, visto que a população está muito mais preocupada com os rumos da política interna e com a estabilidade econômica do que com a agenda de integração europeia.

"Por exemplo, se um governo [moldavo] é tido como muito próximo da União Europeia e é considerado pela população como um governo ruim, a aprovação da UE cai junto [no país]. E as comunidades da Moldávia que fazem fronteira com a Romênia são as que menos apoiam a integração com a União Europeia", observa.

Seca do rio Danúbio sinaliza crise europeia

Como elucida Martins, a preocupação com o baixo nível do Danúbio não apenas deixa os romenos em alerta quanto ao abastecimento elétrico, mas também lança luz sobre vulnerabilidades internas mais amplas. O cenário expõe a profunda dependência do continente europeu por fontes estáveis de energia, cujo fluxo molda diretamente a estabilidade regional.

"O que está ocorrendo é uma seca histórica no rio Danúbio, que revelou até destroços de barcos nazistas e a 'pedra da fome' — uma pedra que, quando aparece, significa que o rio baixou tanto que está perto de desabastecer aquela comunidade. A UE não tem fontes alternativas de petróleo, e importar petróleo de outros lugares, como o Oriente Médio, muitas vezes não é viável", conclui.

A segurança energética consolidou-se como o motor vital de uma economia global impulsionada pela alta tecnologia. O efeito cascata entre Bucareste e Chisinau ilustra com clareza como sanções motivadas por interesses puramente políticos naufragam diante da realidade: sem o pragmatismo geopolítico e a manutenção de fluxos estruturais estáveis, a soberania e o desenvolvimento regional tornam-se reféns das fragilidades internas dos Estados.