Nutrição escolar transforma hábitos alimentares de criança em Maceió
Estratégias nutricionais no Gigantinho Morada do Planalto impactam a alimentação de toda a família.
Por trás de cada refeição oferecida na educação infantil, existe um trabalho que vai muito além do preparo dos alimentos. Na rotina do Gigantinho Morada do Planalto (CMEI Professora Ana Lúcia Duarte), em Maceió, a nutrição também é utilizada como ferramenta de acolhimento, inclusão, aprendizado e desenvolvimento da autonomia das crianças.
Neste 31 de agosto, Dia do Nutricionista, a história de Isaac Bernardo, de 4 anos, mostra como estratégias simples, construídas a partir da observação, do diálogo com a família e da convivência com outras crianças, podem transformar a relação dos pequenos com a alimentação.
Isaac é acompanhado pela nutricionista Laís Romero Costa, responsável pela nutrição do Gigantinho Morada do Planalto desde a abertura da unidade. Logo nos primeiros momentos, a profissional percebeu que o menino apresentava dificuldades durante as refeições.
“Percebi que Isaac apresentava algumas dificuldades durante a alimentação. Tinha resistência para experimentar alguns determinados alimentos e demonstrava insegurança diante das refeições oferecidas na escola”, conta Laís.
A partir da observação, da escuta e do trabalho contínuo de educação alimentar e nutricional, a profissional passou a atuar em parceria com a equipe pedagógica para encontrar alternativas que respeitassem as particularidades da criança.
Um dos momentos decisivos aconteceu durante uma atividade de acolhimento às famílias, quando Laís conheceu Luana Normando, mãe de Isaac. A aproximação permitiu que a nutricionista entendesse melhor a rotina da criança e os desafios enfrentados por ele durante a alimentação.
Em casa, Isaac tinha forte vínculo com a mãe e costumava depender dela para se alimentar. Muitas vezes, precisava que Luana colocasse a comida diretamente em sua boca. Na escola, apresentava resistência e dizia que só aceitava a comida preparada pela mãe.
Foi então que a equipe encontrou uma solução simples: utilizar um objeto que trouxesse familiaridade e segurança para Isaac.
Como os pais e responsáveis têm acesso aos cardápios da unidade, Laís sugeriu que Luana enviasse para a escola o recipiente que Isaac já costumava utilizar em casa, com a mesma preparação oferecida na escola.
A refeição passou a ser servida no recipiente conhecido pelo menino. O resultado foi imediato.
Isaac aceitou a refeição e comeu tudo sozinho. Depois, ainda comentou com a profissional: “Tia, a comida que a mamãe fez está uma delícia.”
Para Laís, o episódio mostra que aquilo que pode parecer um pequeno gesto representa, na verdade, uma grande conquista no desenvolvimento infantil.
“Pode parecer um pequeno gesto, mas, para nós, representa uma grande conquista. Mostra que, quando olhamos para a criança para além do prato, conseguimos compreender suas necessidades e encontrar caminhos que respeitem sua individualidade”, explica.
Uma conquista acompanhada de perto pela mãe
Para Luana Maria, mãe de Isaac, acompanhar a transformação do filho durante as refeições foi uma experiência emocionante. Ela conta que, antes do acompanhamento na escola, o menino apresentava muita resistência para comer e dependia diretamente dela durante as refeições.
“Eu me senti muito bem, muito feliz mesmo, porque eu via que ele não aceitava vários alimentos e que, muitas vezes, eu tinha que dar a comida na boca dele. Então, quando comecei a perceber que ele estava comendo sozinho e experimentando coisas que antes ele sempre rejeitava, foi uma felicidade muito grande para mim”, relata Luana.
A mãe conta que a sugestão de levar para a escola o recipiente que Isaac já utilizava em casa também foi importante para que ele se sentisse mais seguro durante as refeições.
“Ele tinha aquele depósito que já era acostumado a usar em casa. Quando a nutricionista falou para eu mandar para a escola, eu comecei a enviar. E ele passou a comer naquele mesmo recipiente. Acho que aquilo trouxe uma segurança para ele, porque era algo que ele já conhecia”, explica.
Segundo Luana, a mudança foi além da alimentação. O filho passou a demonstrar mais independência e segurança no momento das refeições.
“Antes, eu precisava estar ali dando a comida para ele. Hoje ele já consegue comer sozinho. Para uma mãe, ver isso é muito gratificante. É uma coisa que parece pequena, mas para mim foi uma conquista enorme”, afirma.
Luana também destaca o acolhimento recebido pela equipe da unidade e pela nutricionista durante todo o processo.
“Eu sou muito grata por tudo que fizeram pelo Isaac. A nutrição da escola não abraçou só ele, abraçou a nossa família. A gente começou a aprender coisas novas e a levar isso para dentro de casa. Hoje eu consigo olhar para a alimentação dos meus filhos de uma forma diferente”, conta.
Ela ressalta ainda que os aprendizados adquiridos a partir do acompanhamento de Isaac passaram a influenciar a rotina dos outros dois filhos, mesmo eles ainda não tendo idade para estudar nos Gigantinhos.
Transformando a relação com a comida
Outro episódio chamou a atenção durante o acompanhamento de Isaac e revelou a importância da convivência entre as crianças no processo de descoberta de novos alimentos.
Em uma conversa com a nutricionista, Luana perguntou, surpresa, se realmente Isaac comia melancia e fígado na escola. Em casa, segundo ela, o menino não aceitava esses alimentos.
Segundo Laís, a situação é comum no ambiente escolar e mostra como o contato diário com outras crianças pode contribuir para ampliar as experiências alimentares. Durante as refeições no refeitório, os alunos compartilham experiências e acabam influenciando uns aos outros de maneira espontânea e positiva.
É comum, por exemplo, que uma criança incentive outra com frases como “Essa comida está muito gostosa!”, “Come, para ficar forte!” ou “Você vai gostar!”.
Esse incentivo entre os próprios colegas pode despertar curiosidade, interesse e, muitas vezes, coragem para experimentar aquilo que inicialmente seria recusado.
É a força do coletivo contribuindo para uma nova experiência alimentar. A criança observa o colega, sente-se segura, experimenta e pode descobrir que aquele alimento que antes rejeitava também pode fazer parte de suas preferências.
Para Laís, esses momentos mostram que a alimentação na infância também é construída por meio do vínculo, da convivência, do exemplo e das experiências compartilhadas.
A profissional ressalta que esse processo não acontece de forma imediata ou impositiva. Experimentar novos alimentos exige tempo, paciência, acolhimento, estratégia e respeito à individualidade de cada criança.
“É justamente nesses pequenos momentos que percebemos que a alimentação na infância também é construída através do vínculo, da convivência, do exemplo e das experiências compartilhadas. Por isso, acredito tanto que o ato de comer é ensinável. Não acontece de uma hora para outra, nem de forma impositiva. É um processo que exige tempo, paciência, acolhimento, estratégia e, principalmente, respeito pela individualidade de cada criança”, destaca Laís.
Nutrição que ultrapassa os muros da escola
Para Ana Denise, coordenadora de Nutrição da Secretaria Municipal de Educação de Maceió (Semed), a história de Isaac representa a importância de um olhar individualizado para a alimentação na primeira infância.
“A alimentação escolar precisa ser pensada não apenas como uma refeição, mas como parte do processo de desenvolvimento da criança. Quando conseguimos identificar as particularidades de cada aluno e trabalhar em parceria com a família, construímos estratégias que favorecem não só a aceitação dos alimentos, mas também a autonomia, a segurança e uma relação mais saudável com a comida”, afirma.
A coordenadora também destaca que a educação alimentar pode ultrapassar os limites da escola e influenciar toda a família.
“Nosso objetivo é que esse conhecimento ultrapasse os muros da escola e chegue às famílias. Quando uma criança aprende a experimentar novos alimentos, desenvolve autonomia e passa a compreender melhor a importância de uma alimentação saudável, ela também pode levar esse aprendizado para casa”, completa Ana Denise.
A experiência de Isaac reforça justamente essa ideia. Luana tem outros dois filhos, que ainda não estudam nos Gigantinhos por causa da idade, mas que também passaram a receber os reflexos dos novos conhecimentos e hábitos construídos pela família.
Para Laís, esse é um dos principais papéis da educação alimentar e nutricional: fazer com que o aprendizado de uma criança possa alcançar toda a família e produzir mudanças que permaneçam ao longo da vida.
“A nutrição não é apenas sobre o alimento. É sobre a escuta, sobre o acolhimento, sobre o vínculo, a inclusão, o respeito e a individualidade”, destaca.
Na infância, cada refeição pode se transformar em uma oportunidade de aprendizado. Experimentar novos alimentos, desenvolver autonomia e construir uma relação positiva com a comida são processos que também fazem parte da formação das crianças.
“A nutrição também é pedagógica. O ato de comer é ensinável”, afirma Laís.
A profissional considera que uma das principais missões do trabalho desenvolvido nas unidades de ensino é justamente plantar, desde cedo, hábitos que possam acompanhar as crianças durante toda a vida.
O caso de Isaac mostra que uma mudança aparentemente pequena, como servir a refeição em um recipiente familiar, pode representar um passo importante quando existe escuta, acolhimento, planejamento e respeito às necessidades individuais.
Ao mesmo tempo, a convivência com os colegas mostra que o aprendizado também pode acontecer de forma coletiva, quando uma criança observa, experimenta e se sente encorajada pelo exemplo de outra.
Mais do que oferecer uma refeição, o trabalho da nutrição na educação infantil contribui para formar hábitos, estimular a autonomia, fortalecer vínculos e levar conhecimento para dentro das famílias.
“Alimentar uma criança é muito mais do que ofertar uma refeição. É cuidar, é ensinar, é acolher, é acreditar que cada pequena conquista pode transformar uma história”, resume Laís.