Mulheres no futebol: entre a paixão das arquibancadas e a luta contra a violência dentro e fora de casa
Multidões, desperta paixões e ocupa um espaço central na cultura brasileira. Cada vez mais, as mulheres são protagonistas ativas desse cenário: estão vibrando nas arquibancadas, atuando nos gramados, na arbitragem, no jornalismo e na gestão esportiva. Contudo, para muitas, os dias de partida ainda carregam a sombra do medo — não nos estádios, onde elas ocupam seu lugar por direito, mas dentro da própria casa.
Dados de segurança pública acendem um alerta em Alagoas e no Brasil ao revelar que o ambiente doméstico se torna mais hostil para as mulheres em dias de jogos. Diante desse cenário, especialistas e lideranças femininas reforçam que o machismo e a violência precisam ser combatidos em todas as frentes, garantindo que o lugar da mulher seja, inegavelmente, onde ela quiser.
A escalada dos números dentro de casa
Levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) aponta um aumento de 28,9% nos registros de lesão corporal dolosa contra mulheres em dias de partidas de futebol, além de uma alta de 27,4% nos casos de ameaça.
Quando a análise foca exclusivamente no ambiente residencial, o indicador é ainda mais crítico:
Tipo de ocorrência geral: Lesão corporal dolosa
Aumento em dias de jogo: +28,9%
Ocorrências dentro de casa: Lesão corporal residencial
Aumento em dias de jogo: +35,1%
Tipo de ocorrência geral: Ameaça
Aumento em dias de jogo: +27,4%
Ocorrências dentro de casa: Ameaça residencial
Aumento em dias de jogo: +26,8%
Na faixa etária de 15 a 29 anos, o impacto atinge o pico: os registros de ameaça e lesão corporal somados sobem 44,4% nos dias em que há futebol. O histórico também demonstra um agravamento com o tempo, já que o crescimento das agressões físicas nos dias de jogo subiu de 20,8% (entre 2015 e 2018) para os atuais 28,9%.
O cenário em Alagoas
Pesquisa do DataSenado mostra que 29% das mulheres alagoanas declaram já ter sofrido violência doméstica ao longo da vida. Outro dado relevante aponta que 36% das entrevistadas no estado vivenciaram situações de agressão nos 12 meses anteriores sem reconhecer voluntariamente os episódios como abuso.
Nas estatísticas oficiais do estado, em 67% dos casos registrados, o autor da violência é o próprio companheiro ou marido.
O futebol não é a causa
Especialistas são categóricos ao afirmar que o futebol não gera a violência, mas pode atuar como um catalisador de comportamentos agressivos em homens que já exercem dominação nas relações, somado ao consumo abusivo de álcool.
"O futebol, evidentemente, não é a causa da violência; ele pode funcionar como um contexto que potencializa comportamentos machistas, o consumo abusivo de álcool e a agressividade de homens que já reproduzem uma cultura de dominação e violência dentro de casa", explica a advogada Maria Lucyelma.
Ela reforça que a responsabilidade é exclusiva do agressor. "Nenhuma mulher deve ser responsabilizada pela violência que sofre e não cabe a ela mudar seu comportamento para evitar ser agredida. Precisamos romper com a ideia de que a violência doméstica é um problema privado. Ela é uma questão social, de segurança pública e de direitos humanos."
Para Daiane Correia, coordenadora do Movimento Nós, Alagoanas, campanhas de conscientização como o Agosto Lilás devem extrapolar o debate teórico e gerar impacto prático na vida das mulheres.
"A violência não acontece apenas nos estádios: ela também está dentro das casas. Precisamos romper esse ciclo, fortalecer a prevenção e, principalmente, ampliar a divulgação dos canais de acolhimento e da rede de proteção para que toda mulher saiba onde e como buscar ajuda", defende Daiane.
O protocolo nos estádios e a rede de proteção
Para assegurar a presença feminina de forma livre e segura, clubes alagoanos como CRB e CSA, em parceria com a Federação Alagoana de Futebol (FAF), vêm implementando o protocolo "Não é Não" nos estádios. A medida prevê a capacitação de equipes de segurança para acolher torcedoras e coibir o assédio nas arquibancadas.
Fora dos campos, a orientação para casos de risco é buscar ajuda imediatamente por meio dos canais oficiais:
Central de Atendimento à Mulher: Ligue 180 (WhatsApp: 61 99656-5008) — Gratuito e 24 horas.
Polícia Militar: Ligue 190 (para emergências e agressões em andamento).
Atendimento Local: Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (DEAM) em Alagoas.