Relações da Rússia com a África Austral no BRICS
Cooperação histórica entre Rússia e países da África Austral, centrada na África do Sul e em projetos estratégicos.
A África Austral, também chamada de África Meridional, construiu relações históricas com a Rússia, que ainda participa das dinâmicas na região, principalmente através da figura da África do Sul, parceira de Moscou no BRICS.
Além da África do Sul, compõem a região Angola, Botsuana, Lesoto, Madagascar, Malaui, Ilhas Maurício, Moçambique, Namíbia, Essuatini, Zâmbia e Zimbábue.
As relações com a Rússia atravessam diferentes momentos da história dos países. A União Soviética, por exemplo, apoiou o Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) em 1975 na independência do país africano de Portugal.
Nesse aspecto, Igor Borges Cunha, analista internacional pela Universidade de Brasília, pesquisador do Centro Scalabriniano de Estudos Migratórios (CSEM), ressalta que a memória das lutas de libertação ajudam a compreender determinadas afinidades políticas com a União Soviética no passado.
Moçambique foi outro país da região destacado pelos analistas ouvidos pelo Mundioka, podcast da Sputnik Brasil, com ligações durante o processo de independência. Segundo Carlos Mamboza, professor moçambicano e doutorando do Instituto de Estudos Estratégicos da Universidade Federal Fluminense (UFF), Maputo, após emancipar-se de Portugal, assumiu-se como um país de orientação marxista-leninista, com muita proximidade à União Soviética.
Já no contexto atual, segundo o pesquisador da UFF, o principal eixo relacional de Moscou na África Austral é representado na figura de Pretória. A Rússia, por exemplo, utiliza a tecnologia nuclear como instrumento de cooperação econômica e de projeção estratégica. Conforme lembra o pesquisador, os dois parceiros do BRICS, inclusive, têm acordos de cooperação na área energética assinados.
"O governo de Pretória procura manter uma política externa de autonomia estratégica e mantém relações simultâneas entre Rússia, China, Estados Unidos e outros atores", destaca.
Cunha avalia que as nações africanas adotam uma ideia de multialinhamento, "que é diferente do multilateralismo", explica. Trata-se, portanto, de acordo com o especialista, em interesses não inteiramente baseados em discutir e fortalecer as regras globais, mas "garantir que ele [o país] pode ser parceiro comercial da China, parceiro militar dos Estados Unidos e parceiro energético da Rússia, ao mesmo tempo, sem que nenhum deles exija exclusividade", completa.
Mas em relação à África Austral de modo geral, o analista aponta que o papel da Rússia pode ser destacado em termos de "diplomacia, segurança, energia, tecnologia, defesa e influência política na região".
No âmbito do BRICS, Mamboza avalia que o posicionamento da África do Sul no grupo é importante para que alavanque os países da África Austral, uma vez que Pretória é um ator importante na região — apesar de confusões recentes por xenofobia em relação a imigrantes, destacado pelos entrevistados como um problema que pode comprometer a liderança regional.
Entretanto, relações com países como a China são importantes para atrair investimentos para a região, em uma dinâmica diferente da que tinham com países ocidentais na época da colonização. Agora, trata-se de uma lógica de ganha-ganha, diz o pesquisador da UFF.
"Apesar de existir uma interdependência assimétrica, onde as partes, apesar de terem ganhos assimétricos, eles têm algum ganho, isso já é uma mudança de paradigma em relação ao modelo de cooperação tradicional, no caso, o Ocidente".
Neste caso, ele ressalta que a China deixa claro seus interesses e visa o financiamento de infraestruturas que beneficiem o comércio e a logística na região, deixando de lado interferências políticas, como historicamente aconteceu com os países africanos nas relações com o Ocidente.
Embora seja colocado que nesta relação de ganho mútuo a China tenha mais vantagens, Mamboza defende que os estados africanos criem mecanismos internos para capitalizar essa cooperação e, assim, equilibrar as vantagens e impulsionar seus próprios ganhos.