Celso Amorim fala sobre nova ordem mundial e fim da multilateralidade
Em evento na UFRJ, assessor de Lula defende a necessidade de um novo rearranjo das normas internacionais.
O assessor-chefe da Assessoria Especial do Presidente da República para Assuntos Internacionais, Celso Amorim, declarou nesta sexta-feira (28) que o sistema multilateral "como conhecíamos" já não existe mais e instou o Brasil a se preparar para as regras da "próxima ordem mundial".
Em evento na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), no qual recebeu o título de Doutor Honoris Causa, Amorim foi enfático ao declarar que é inevitável um rearranjo das normas internacionais de dinâmica entre os países.
"O sistema multilateral, como o conhecíamos, não voltará a existir. É preciso reconhecer que a repactuação das regras internacionais será inevitável. Nesse contexto, é preciso garantir que o Brasil esteja presente e atuante quando as regras da próxima ordem mundial forem definidas."
O diplomata defende que o Brasil é respeitado internacionalmente e cita como exemplo ter sediado as cúpulas do G20, do BRICS e da COP30 nos últimos anos. Amorim alerta para que a multipolaridade não seja confundida com uma "nova divisão do mundo em esferas de influência".
"Para evitar esse risco, é essencial reconstruir um mundo regido por regras multilateralmente acordadas. Para isso, precisamos reconhecer que o multilateralismo é uma promessa não inteiramente cumprida."
O assessor-chefe de Lula para assuntos internacionais também ressaltou que o Brasil não deve deixar de diversificar parcerias e destacou que o grande desafio da política externa nos dias de hoje é "assegurar uma posição altiva e soberana no novo equilíbrio global".
Amorim também comentou o que ele chamou de "banalização do uso da força", indicando a existência de uma "proliferação de conflitos armados" que envolvem grandes potências, seja direta ou indiretamente. O diplomata também citou o Papa Leão XIV, que pontuou a já existência de uma "guerra mundial em pedaços".
"Se nada fizermos pela paz, haverá um momento em que a contaminação desses conflitos se tornará inevitável."
O diplomata brasileiro também defendeu que Brasília realize investimentos em defesa para garantir poder de dissuasão ao país e proteger os recursos naturais.
"As reservas brasileiras de minerais críticos e estratégicos, inclusive terras raras, nos dão a oportunidade de estimular o desenvolvimento autônomo em tecnologia de ponta. Não basta explorarmos essas riquezas, é preciso utilizá-las para avançarmos em uma industrialização compatível com os tempos atuais."