CONFLITO

Seis meses do conflito entre EUA e Irã: impacto global em análise

Guerra no Oriente Médio altera geografia energética e reflete na política americana.

Por Sputnik Brasil Publicado em 27/08/2026 às 20:52
Análise do impacto global após 180 dias de conflito entre EUA e Irã. © Sputnik / Aleksei Alekseev

Na sexta-feira, dia 28 de agosto, completam-se seis meses desde que Estados Unidos e Israel atacaram o Irã e escalaram as tensões no Oriente Médio. De lá para cá, o mundo vive incertezas quanto ao comércio marítimo internacional, alta nos preços de energia e outros suprimentos.

Em 180 dias, a guerra no Irã produziu uma reconfiguração da geografia energética mundial. Em entrevista à Sputnik Brasil, Issam Menem, doutor pelo Programa de Pós-Graduação em Estudos Estratégicos Internacionais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (PPGEEI/UFRGS), destacou que as consequências do conflito, especialmente o fechamento do estreito de Ormuz, produziram respostas diferentes ao mesmo choque sistêmico, desde a criação de reservas estratégicas, a diversificação de fornecedores, novas rotas logísticas até a expansão nuclear e de fontes renováveis.

"Juntas, essas iniciativas aceleraram as transformações da ordem energética internacional".

O choque prejudicou nações do mundo inteiro, mas especialmente os mais dependentes de fontes de energia dos países do Golfo, como China, Coreia do Sul, Índia e Japão, para falarmos das maiores economias.

Ao fim e ao cabo, na avaliação de Leandro Dalalíbera Fonseca, mestre em ciência política pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), os governos perceberam o perigo de depender excessivamente de uma única região ou passagem, como no caso de Ormuz. Para ele, o choque, efeito da eclosão do conflito, pode ser temporário, mas a mudança na percepção de risco provavelmente será permanente.

Já no âmbito de ganhos ou custos estratégicos, os analistas apontam que a China obtém vantagens enquanto os EUA se desgastam no Oriente Médio. Além disso, "um Irã mais isolado do Ocidente tende a depender ainda mais economicamente de Pequim", ressalta Fonseca.

Tensões no Oriente Médio refletem negativamente na política doméstica norte-americana

Uma pesquisa Reuters/Ipsos publicada na segunda-feira (24) mostra que quatro a cada cinco norte-americanos acreditam que o conflito no Irã se prolongará. Consequência disso, o levantamento demonstra que os eleitores, ao serem perguntados sobre a condução do presidente Donald Trump da situação com Teerã, 63% dos entrevistados desaprovam. Além disso, o índice de rejeição do chefe da Casa Branca é de 62%.

Em entrevista à NBC News em junho, Trump comparou as tensões junto a Teerã com a guerra no Vietnã: "Estou avançando muito rapidamente. Já estou em três meses. O Vietnã durou 19 anos. Eu estou no meu terceiro mês", disse na oportunidade.

Entretanto, de acordo com os analistas ouvidos pela reportagem, há outras comparações entre o que acontece atualmente no país persa e outros conflitos históricos nos quais os EUA já se envolveram.

Uma delas é como o conflito no Irã antecipou a rejeição interna nos Estados Unidos em relação a outros, como o Iraque, Afeganistão e o próprio Vietnã. Para Fonseca, uma das explicações para isso é uma fadiga entre a população norte-americana em relação a guerras prolongadas. Além disso, há os efeitos do impacto doméstico, como a inflação.

Há também, segundo o analista, a percepção de que Trump traiu as promessas de campanha. "Donald Trump se elegeu com a plataforma Make America Great Again (MAGA), que era justamente baseada na ideia de voltar o olhar para a política doméstica e evitar intervenções externas onerosas e desnecessárias".

A percepção de "guerra sem fim", como apontam as pesquisas, surge simultaneamente à baixa legitimidade. "Essa combinação historicamente é uma das condições mais difíceis para qualquer governo sustentar uma intervenção militar prolongada", acrescenta Menem.

Para Luciana Garcia, doutoranda no Programa de Letras Estrangeiras e Tradução da Universidade de São Paulo (USP), uma boa comparação do aspecto de falta de soluções políticas seria a guerra do Afeganistão.

"Anos depois da ocupação militar dos EUA no Afeganistão a fim de derrotar o Talibã, o grupo fundamentalista retorna ao país e volta a governar e a impor uma agenda repressiva, sobretudo em relação às mulheres", aponta.

Se as guerras entre Irã e Vietnã podem ser comparadas de alguma forma, como propôs Trump, talvez seja mais interessante olhar sob o ângulo da superioridade militar possuída por Washington e, mesmo assim, não conseguir transformá-la em uma solução política satisfatória, sugere Fonseca.

"Superioridade militar não significa automaticamente vitória política. Os Estados Unidos podem destruir instalações militares, sistemas de defesa, bases e infraestrutura iraniana. A questão é o que acontece depois?"

Nesse sentido, o especialista destaca que os Estados Unidos não possuem um objetivo político claro enquanto acumulam meses de ofensiva no Oriente Médio. "O problema surge quando uma guerra começa com um objetivo relativamente limitado e, progressivamente, incorpora novos objetivos. Em relações internacionais, chamamos isso de mission creep. É justamente aí que aparece o risco de uma guerra longa."

Enquanto destruir o próximo alvo não responde à pergunta sobre "o que acontece depois" ou como essa iniciativa aproxima os EUA dos seus próprios objetivos, o Irã se mostra capaz de suportar os custos econômicos e políticos do conflito. "Essa talvez seja a principal lição do Vietnã aplicável ao Irã", finaliza.