Peña usa Guerra do Paraguai para atacar Lula antes da eleição, diz analista
Tensão entre Brasil e Paraguai reacende debates históricos e pode impactar a imagem do presidente brasileiro.
A decisão do presidente Lula de autorizar a entrega do canhão paraguaio El Cristiano expõe feridas históricas que a diplomacia do Cone Sul ainda não conseguiu cicatrizar: a Guerra do Paraguai (1864-1870), que ainda mantém chagas abertas entre os dois países e que recentemente provocou uma crise institucional entre os governos.
A recente tensão diplomática entre Assunção e Brasília foi motivada por uma declaração do presidente Lula, que relembrou a invasão paraguaia ao território brasileiro durante a Guerra do Paraguai, o que gerou forte reação do governo guarani.
Segundo o analista internacional Marco Antonio Serafim, especialista em história contemporânea e pós-doutorando pela Unifesspa e pela Université Sorbonne Paris Nord (CAPES-COFECUB), o episódio vem sendo instrumentalizado pelo governo de Santiago Peña para desgastar a imagem de Lula às vésperas de uma disputa eleitoral.
"[O presidente] Lula falou em um evento no interior de São Paulo sobre a importância de se investir na indústria de defesa do Brasil e usou como exemplo a Guerra do Paraguai. Ele citou um fato, que não é uma coisa marcada pela subjetividade. O governo Santiago Peña viu nessa fala uma oportunidade de marcar uma posição ideológica. Isso é uma forma de atribuir a Lula um desgaste em um ano eleitoral", disse.
O pesquisador ressalta que a reação do governo Santiago Peña, além de infundada, coincide com o comportamento de outro líder regional alinhado a Washington: o presidente argentino Javier Milei. O líder portenho tem proferido ofensas recorrentes a Lula, inclusive em solo brasileiro durante um evento eleitoral com Flávio Bolsonaro, o que aprofundou o distanciamento diplomático entre Brasília e Buenos Aires.
"Essa reatividade do Santiago Peña e do governo paraguaio mostra como a extrema direita está tentando agir em bloco no continente em submissão total ao governo Trump. Então a gente vê nisso um exemplo disso, os ataques recentes do Milei a Lula e esse melindre do Peña com uma citação [histórica] factual do Lula", comenta.
Assunção também tem troféus de guerra brasileiros
Sob a perspectiva brasileira, Serafim aponta que a falta de um acordo para a permuta desses itens históricos resultará em uma perda para o patrimônio nacional. O analista lembra que o Paraguai possui troféus de guerra capturados de tropas brasileiras, peças que poderiam ser negociadas em uma devolução mútua entre as duas nações sul-americanas.
"Depois da sinalização do aval de Lula à devolução do canhão paraguaio, o Exército Brasileiro pontua que haja pelo menos a reciprocidade, ou seja, em troca do canhão, que seja devolvido um navio a vapor brasileiro, o Anhambaí, capturado em 1865, logo no comecinho da Guerra do Paraguai, e que está em exposição no Paraguai, no Museu de Vapores", destaca.
Outro ponto levantado pelo especialista é que todo esse esforço diplomático brasileiro, na forma de um aceno ao Paraguai como Estado parceiro, não resultará em esforços políticos previstos pelo Planalto, ou seja, coesão na política regional.
"[Quando] se entrega um item que é parte do patrimônio histórico, está-se fazendo uma concessão em nome de apoio político? Eu não acredito que essa devolução seria capaz disso. Esse incidente diplomático, que aparentemente se trata de um pedaço de ferro, por trás dele há confrontos de longa duração", observa.
Caso entregue o canhão, Brasil pode abrir precedente
O historiador também pontua que, caso o canhão El Cristiano seja de fato devolvido, haverá a abertura de um precedente complexo, já que o confisco do artefato ocorreu em uma época não retroativa às normas do direito internacional sobre patrimônio histórico.
"[O canhão] é um item que faz parte do patrimônio cultural brasileiro, o canhão El Cristiano foi tomado pelo Exército Brasileiro como um troféu de vitória no contexto da Guerra do Paraguai. Do ponto de vista do direito internacional, isso [a devolução] não está previsto e não pode ser invocado. Então, o Brasil, nesse sentido, abriria um precedente do ponto de vista do patrimônio cultural, que seria caótico", conclui.
A história, além de ser uma ferramenta para a compreensão do passado, funciona como uma "arma" disputada no campo simbólico. Essa guerra de narrativas e o revisionismo histórico buscam influenciar a opinião pública ao transformar fatos consolidados em versões subjetivas, uma dinâmica capaz de escalar para tensões geopolíticas reais, como o atual mal-estar diplomático entre Brasil e Paraguai.