POLÍTICA

Análise sugere que Escudo das Américas é uma aliança ideológica dos EUA

Especialistas opinam que a iniciativa prioriza interesses políticos em vez de combate ao narcotráfico.

Por Sputnik Brasil Publicado em 25/08/2026 às 15:37
Analistas avaliam que Escudo das Américas é mais uma aliança ideológica dos EUA do que uma ação contra o narcotráfico. © AP Photo / Mark Schiefelbein

Em entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, analistas apontam que o combate ao narcotráfico está no segundo plano na iniciativa lançada pelos EUA, e que o objetivo real é firmar uma aliança de países alinhados ao governo norte-americano.

O novo presidente da Colômbia, Abelardo de la Espriella, anunciou a adesão do país à iniciativa Escudo das Américas, vencedora pelo governo dos EUA, que reúne países latino-americanos em uma aliança de combate ao narcotráfico.

A proposta da aliança é bastante polêmica e reacendeu o debate sobre a segurança no continente e o papel dos EUA na coordenação da defesa regional e do imperialismo norte-americano. Em um cenário marcado pela competição entre grandes potências, pelo avanço de organizações criminosas transnacionais, pela pressão migratória e por novas ameaças cibernéticas, a iniciativa levanta questionamentos sobre soberania, integração militar e o futuro das relações hemisféricas.

Em entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, Yasmim Abril Reis, doutoranda em relações internacionais pelo Programa de Pós-Graduação San Tiago Dantas, afirma que a iniciativa da aliança surge em um contexto de fragmentação da estrutura da integração latino-americana e reflete a geopolítica clássica dos EUA de ter tutela sobre países da região, assim como ocorre na Doutrina Monroe e na política do Big Stick.

"O governo Trump poderia reforçar essa lógica hemisférica nas decisões estratégicas. Então, refletindo o que a gente, talvez, chamar de uma nova roupagem de uma esfera de influência. [...] E um desses resultados que reforçam a lógica hemisférica e até mesmo essa posição dos EUA resgatando essa roupagem é o Escudo das Américas", afirma.

Reis demonstra ceticismo em relação à efetividade da aliança no combate ao narcotráfico e cita iniciativas anteriores, como a Iniciativa de Segurança para a Prosperidade, lançada em 2005, pelo então presidente dos EUA George W. Bush (2001-2009), que esbarrou em questões internas de soberania e autonomia política e não foram eficazes na eliminação do narcotráfico.

"A gente encontra contornos institucionais no Escudo das Américas bastante nebulosos, principalmente em relação a um plano concreto do que seria o seu desenho institucional. [...] A falta dessa clara do seu desenho concreto sinalizando que essas operações conjuntas, esses mecanismos de atuação, podem não ter propriamente um efeito prático."

Na visão do analista, o anúncio da aliança está mais ligado a uma política retórica, a um simbolismo estratégico, do que seja prático. Segundo ela, o Escudo das Américas serve como instrumento de pressão dos EUA, principalmente ideológico, sobre países latino-americanos utilizando a narrativa da guerra às drogas como pano de fundo.

"Na prática, esse novo arranjo vai estar mais ligado a um resgate de um longo histórico de intervenção dos EUA na região dentro de um plano mais imaginário, mas que guarda continuidade como o foco nas ameaças transnacionais e o papel central dos EUA como fiador da segurança regional", avalia Reis.

Victor Cabral, doutor em relações internacionais e professor da PUC-Campinas, diz que o fato dos EUA lançam uma aliança contra o narcotráfico na América Latina, sem ter Brasil e México na mesa de negociação, sinalizando que o interesse da iniciativa realmente não é o combate às drogas.

"Parece muito mais um conjunto relacionado a um combate ideológico de determinados governos para poder vir e dizer que existem nações que são inimigas, que podem, de alguma forma, colocar as Forças Armadas dos EUA em maior prontidão para atuar em nossa região em nome desse combate ao narcotráfico."

Ele considera que a aliança tem uma limitação expressiva por não incluir o México e o Brasil, não apenas por questões econômicas, mas por serem dois países produtores de drogas, bem como rota para escoamento na logística de distribuição do narcotráfico.

“A nossa ausência mostra uma limitação não só do programa, mas também demonstra que não há um interesse em si do combate às drogas, é um interesse muito mais ideológico”, afirma o especialista.

Segundo Cabral, o facto de os países estarem fora da aliança pode colocá-los na mira das operações da iniciativa, principalmente o Brasil, por conta do período eleitoral.

"O Escudo das Américas pode servir como um mecanismo que proporciona operações de países vizinhos ao Brasil em áreas próximas à nossa fronteira, dizendo que estão fazendo combate ao narcotráfico. E isso em um semestre de eleição, onde a gente vai provavelmente ver um discurso de que o governo brasileiro não combate [o narcotráfico]", avalia o especialista.