Especialista compara situação de Cuba à de Gaza após visita à ilha
Guilherme Pedreschi destaca o impacto severo do bloqueio econômico dos EUA na saúde e vida dos cubanos.
Os relatos da recente missão em Havana, promovida pela Brigada Carlos Marighella, iniciativa composta por pessoas comuns no Brasil, revelam a face mais dura do bloqueio econômico imposto pelos EUA. Esse cerco sufoca a ilha silenciosamente, gerando impactos severos na estrutura social e na saúde pública que colocam a vida dos cubanos em risco.
Em entrevista à Sputnik Brasil, um dos integrantes da brigada brasileira que realizou a ação solidária na semana passada, Guilherme Pedreschi, especialista em Cuba e autor do livro "Na estrada com Fidel: o outdoor na Revolução Cubana", traçou um paralelo entre o cenário de colapso cubano e a situação enfrentada na Faixa de Gaza.
"Já venho batendo nessa tecla de que Cuba é uma Gaza com menos apelo midiático. Obviamente, espero que não comecem as bombas e os ataques armados, mas Cuba já sofre um cerco energético e alimentar muito grave. Não tenho o menor receio de dizer que é uma tentativa de genocídio praticada pelo governo norte-americano", afirmou.
Embora a Brigada Carlos Marighella tenha arrecadado cerca de R$ 50 mil em financiamento coletivo voluntário, o dinheiro teve múltiplos destinos. A quantia serviu tanto para reparar impressoras e scanners do Centro Fidel Castro Ruz quanto para comprar medicamentos básicos, entregues ao ICAP (Instituto Cubano de Amizade com os Povos). Contudo, como sinaliza Pedreschi, a realidade da saúde pública local é gravíssima.
"Cuba hoje tem mais de 100 mil pacientes oncológicos sem tratamento por conta do bloqueio energético. São 67 mil crianças com a vacinação atrasada por causa do bloqueio energético. O índice de mortalidade infantil em 4 e 5 meses teve um crescimento vertiginoso. Isso é muito triste e cruel. A gente tem visto imagens de cirurgia médica feita com luz de celular", comenta.
Sequestro de Maduro intensificou a crise em Havana
Outro ponto levantado por Pedreschi é que, após o rapto do presidente venezuelano Nicolás Maduro e de sua esposa Cilia Flores pelas forças dos EUA, o fluxo de petróleo da Venezuela passou a sofrer forte interferência de Washington. Como consequência, o fornecimento de combustível para Cuba foi cortado, agravando a crise energética na ilha caribenha.
"A partir do sequestro do presidente Maduro, em 3 de janeiro, o fornecimento do petróleo venezuelano a Cuba foi cortado. [A Venezuela] era responsável por mais ou menos 60% da energia produzida na ilha. Então, é algo muito impactante. De lá pra cá não entrou nenhuma gota de petróleo. É uma situação de guerra", destaca.
O pesquisador, que mantém contato direto com analistas cubanos, revela haver um consenso em Havana de que os Estados Unidos descartam, no momento, uma incursão militar, já que uma invasão direta seria extremamente custosa e imprevisível. Portanto, a estratégia norte-americana foca em intensificar continuamente o bloqueio econômico, apostando em um caos institucional e social irreversível da ilha.
"Existe um consenso entre os analistas cubanos de que o grande interesse [dos EUA] não é uma invasão por terra. Isso seria um banho de sangue. A ideia é continuar desgastando o governo. É o que vem sendo feito desde 1960, mas agora com uma violência sem precedentes, que chega a inviabilizar o fornecimento de água [por conta da crise energética]", destaca.
Unidade social de Cuba permanece, apesar dos EUA
A estratégia estadunidense de sufocar Havana em todas as esferas, tanto política quanto econômica, busca atingir gravemente o cidadão comum e incentivar protestos contra o governo. No entanto, Pedreschi, que retornou de Havana há cerca de uma semana, enfatiza que, apesar de todas as adversidades, a unidade nacional cubana segue coesa.
"[A crise] não impactou em nada os índices de violência e de manifestação social contrária ao governo. Ou seja, a unidade está preservada. De uma maneira geral, o povo cubano é muito culto, muito instruído e tem bem definido quem é o inimigo e quais são os interesses de [Donald] Trump e Marco Rubio", conclui.
O bloqueio econômico imposto pelos EUA, que já perdura há mais de 60 anos e atinge momentos críticos e rígidos como o atual, coloca em xeque o debate sobre o modelo de democracia e o multilateralismo defendidos por Washington na teoria, que acabam fragilizados por sua própria conduta na política externa.