GEOPOLÍTICA

A importância crescente da Rota do Mar do Norte na relação entre Rússia e China

Especialistas destacam como a nova rota marítima redefine parcerias e influência no comércio global.

Por Sputnik Brasil Publicado em 24/08/2026 às 11:04
A Rota do Mar do Norte se torna essencial para a conexão entre Ásia e Europa. © Foto / Sovcomflot

A Rota do Mar do Norte vem se consolidando como um eixo logístico crucial diante das instabilidades em fluxos tradicionais, como em Suez e Ormuz. Além disso, a rota oferece a vantagem de reduzir o tempo de transporte até os principais portos globais. Pequim e Seul buscam intensificar suas operações na região, da qual Moscou já tem expertise.

Nesse cenário de disputa por recursos e controle de rotas essenciais para o comércio exterior, a Rússia larga na frente e consolida ainda mais a parceria sino-russa. Essa é a avaliação de Igor Estima Sardo, doutorando em Ciência Política pela UFRGS e pesquisador associado do Instituto Sul-Americano de Política e Estratégia (ISAPE), em entrevista à Sputnik Brasil.

"A Rússia sai ganhando muito nisso [na nova configuração da Rota Marítima do Norte] e a parceria entre a China e a Rússia vai se solidificar cada vez mais, acho que a gente pode colocar do ponto de vista geográfico e geopolítico. Realmente a Rússia é o fiel da balança na região do Ártico, porque realmente tem o maior mar territorial e é o maior país do mundo", disse.

Como elucida Sardo, esse contexto ganha força com a iniciativa da China através de sua Rota da Seda Polar, além da recente entrada da Coreia do Sul, que passou a enxergar o fluxo pelo Ártico como promissor. Esse movimento não apenas consolida a presença chinesa na dinâmica da região, mas também projeta Seul em uma nova direção.

"De fato, a Coreia do Sul está em uma região com potências como Rússia, China e Japão, com isso tem que buscar uma equidistância e parcerias regionais, se quiser realmente buscar uma autonomia para não se tornar um protetorado dos Estados Unidos", comenta.

EUA agem contra aliados para disputar rota no Ártico

Outro ponto levantado pelo pesquisador é a cobiça dos Estados Unidos pela Groenlândia, território da Dinamarca, aliado histórico de Washington, assim como pelo Canadá, que também foi assediado pela Casa Branca, que já projeta uma perda de competitividade diante do crescimento da Rota Marítima do Norte.

"A gente já começa a ver uma disputa geopolítica pelo Polo Norte e pelo Ártico, digamos assim. [O governo] Trump tem mostrado muita preocupação em relação a isso, ou seja, esse quase assédio que ocorre de os EUA quererem anexar a Groenlândia e o Canadá é justamente por essa questão de Trump querer cada vez mais controlar a região do Ártico", destaca.

Nesse contexto, Sardo enfatiza que o expansionismo dos Estados Unidos em também mirar o Canadá para tentar viabilizar um caminho alternativo no Ártico, que sirva como um paralelo estratégico à Rota Marítima do Norte com forte presença dos russos.

"A questão toda é a competição com a Rota do Norte. Através do Canadá, existe a rota pelo mar territorial canadense. É um pouco mais difícil, mas ainda assim, em comparação, por exemplo, ao canal de Suez ou do Panamá, também tem uma economia muito grande com todos aqueles caminhos naqueles arquipélagos canadenses", observa.

Rota ártica reduz tempo de frete entre portos globais

O analista internacional também destaca que a grande vantagem da Rota Marítima do Norte é o encurtamento da distância entre a Ásia e os portos europeus, um dos eixos mais importantes da economia global.

"A Rota do Norte, na verdade, está sendo muito visada porque vai realmente se tornar cada vez mais economicamente viável. Hoje em dia, por exemplo, ligar Roterdã até o Leste Asiático é cerca de 21 mil km. Agora, se pegar a Rota do Norte, pela faixa do mar territorial russo, dá uns 14 mil km. Isso é uma economia muito grande", conclui.

Em um mundo globalizado de cadeias de suprimentos interdependentes, e diante de constantes crises políticas no sistema-mundo, alternativas regionais ganham força. Assim, rotas como a do Ártico deixam de ser apenas saídas logísticas para superar obstáculos, mas também transformam em mais um centro de cobiça e disputa global.