POLÍTICA

Novo secretário-geral da ONU enfrentará grave cenário global

Seis candidatos disputam a sucessão de António Guterres, cujo mandato termina em 31 de dezembro.

Por Sputnik Brasil Publicado em 19/08/2026 às 17:45
Novo secretário-geral da ONU terá que enfrentar desafios inédito e crises mundiais. © Ricardo Stuckert / Presidência da República

Especialistas ouvidos pelo Mundioka avaliam que além de defender uma possível reestruturação da ONU para recuperar seu prestígio, o novo secretário-geral terá que lidar com um grande número de conflitos e crises mundiais nunca antes visto desde sua criação após a Segunda Guerra Mundial.

Após uma década no cargo, António Guterres encerrará seu segundo mandato como secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU) em 31 de dezembro. Atualmente, seis candidatos disputam a sucessão: Michelle Bachelet, Rafael Mariano Grossi, Maria Fernanda Espinosa, Rebeca Grynspan, Macky Sall e Carolyn Rodrigues Birkett. Quem sair vitorioso terá uma tarefa difícil, em meio a questionamentos cada vez mais intensos sobre a relevância, o poder e a capacidade financeira da organização.

Embora Grynspan seja o nome mais cotado para a posição de secretário-geral, a escolha precisa da aprovação de todos os membros do Conselho de Segurança da instituição, incluindo os membros permanentes China, França, Rússia, Reino Unido e Estados Unidos – cujo presidente, Donald Trump, há pouco tempo, citou o nome do presidente da FIFA, Gianni Infantino, como um possível candidato.

Nesse contexto, fica a pergunta sobre quem seria a melhor opção para recuperar o prestígio da ONU, vendo que o caminho até a vitória é estreito e repleto de obstáculos.

Escolha de candidatos

Ouvida pelo Mundioka, podcast da Sputnik Brasil, Maria Eduarda Lacerda Rodrigues, internacionalista e criadora da plataforma de conteúdos sobre relações internacionais "Internacionalismos", vê a questão da escolha mais como uma negociação geopolítica do que na base da competência dos candidatos.

"A competência, ela funcionaria como um filtro de entrada, por exemplo, mas a decisão final ela tende a ser puramente geopolítica."

Complementando, Rafael Pons Reis, professor do curso de relações internacionais no Centro Universitário Internacional (Uninter), pontua que a escolha do sucessor de Guterres não trará "nenhuma alteração radical", vendo que o nome indicado será um que não ameace os interesses dos membros permanentes, como em conflitos comerciais (EUA x China) ou em conflitos regionais (Rússia x Ucrânia).

"O que a gente vai ver é a busca por aquilo que os especialistas chamam de 'menor denominador comum', ou seja, acredito que a escolha do sucessor vai ser, digamos, um nome que consiga transitar, sem parecer uma ameaça direta aos interesses de um lado como de outro."

Ao comentar sobre o nome de Grynspan, Rodrigues destaca seu perfil como mulher latino-americana com ampla experiência no sistema multilateral. Atual secretária-geral da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (Unctad), ela também foi vice-presidente da Costa Rica e liderou a primeira votação informal do Conselho de Segurança.

Em sua análise, sua identidade judaica pode pesar de maneiras distintas diante do conflito entre Israel e Palestina: Grynspan condenou os ataques do Hamas em outubro de 2023, mas também criticou ações de Israel, mantendo uma posição que não coincide integralmente com nenhum dos lados.

Reis pontua que Grynspan tem "um histórico impecável" e ampla experiência no Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e na Unctad, além de uma trajetória ligada ao combate à desigualdade econômica. Para o professor, seu principal trunfo seria justamente a capacidade de reequilibrar a agenda da ONU entre segurança e desenvolvimento. Ele cita ainda sua atuação na criação do acordo de grãos e fertilizantes durante o conflito na Ucrânia, que permitiu o escoamento de mais de 32 milhões de toneladas de grãos.

Outros candidatos também importantes seriam Bachelet e Grossi, avaliam os especialistas. Sobre Bachelet, Rodrigues avalia que a candidatura perdeu força após o Chile retirar seu apoio, embora ela siga na disputa com o respaldo de Brasil e México. "Não quer dizer que a candidatura dela é cancelada, até porque o Chile não tem o poder de veto [...] inicialmente eu tinha visto como uma boa candidata que teria força para ganhar essas eleições, mas nesse momento eu acredito que ela está perdendo essa possibilidade".

Já Grossi, segundo a especialista, reúne experiência diplomática e atuação nas negociações relacionadas ao acordo nuclear iraniano de 2015, podendo ser uma alternativa caso a escolha não recaia sobre uma mulher. A candidatura de Grossi foi oficialmente apresentada pela Argentina e ele atualmente dirige a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).

Ao comparar Grynspan, Bachelet e Rafael Grossi, Reis afirma que Grynspan e Grossi aparecem como nomes com maior capacidade de transitar entre Washington, Moscou e Pequim. Grossi, por sua vez, teria como diferencial a experiência em controle de armamentos, não proliferação nuclear e energia nuclear para fins pacíficos. Para o professor, a definição dependerá sobretudo das negociações entre os membros permanentes do Conselho de Segurança.

Mudanças no papel da ONU

Na visão de Reis, propostas de reforma do Conselho de Segurança dificilmente avançariam no curto prazo. De acordo com ele, países que concentram o poder no órgão não demonstram interesse em abrir mão de suas prerrogativas.

Como explica, as discussões são antigas e a própria escolha do secretário-geral ocorre por meio de negociações fechadas entre os cinco membros permanentes, que chegam a um único nome antes de submetê-lo à Assembleia Geral.

Embora tenham ocorrido avanços desde 2016, existe uma limitação no artigo 97 da Carta da ONU: enquanto o Conselho de Segurança encaminhar apenas um nome, os 193 países da Assembleia Geral ficam, na prática, diante de duas alternativas: aceitar o acordo ou rejeitá-lo, o que poderia provocar uma crise institucional. "A grande questão que a gente percebe é que o P5 não quer dar margem para uma rediscussão do poder".

"Eles não querem perder o poder que, de certo modo, está enfeixado na mão deles."

Rodrigues, por sua vez, acrescenta que seja lá quem for o escolhido, este terá, além do desafio de encarar uma reestruturação da ONU, um grande número de conflitos armados e crises mundiais para lidar.

"Então, o candidato vai precisar trabalhar para que [a ONU] volte a ser esse símbolo forte, esse grande potencial do multilateralismo."

Para a internacionalista, o novo secretário-geral terá de reorganizar as prioridades da organização, fortalecer a mediação, ampliar a pressão diplomática e melhorar a coordenação interna, além de dar maior visibilidade a agendas que vêm perdendo espaço diante da concentração de esforços em conflitos e questões de segurança.

Segundo ela, embora mudanças sejam necessárias, dificilmente as potências abrirão mão de suas prerrogativas no atual cenário internacional, marcado pelo aumento das tensões e dos conflitos. Mas a organização precisa agir rapidamente para recuperar sua força e evitar um desgaste ainda maior de sua capacidade de atuação.

Neste cenário, reivindicações de países como Brasil, Índia, Japão e Alemanha por assentos permanentes também enfrenta obstáculos. Uma solução seria um assento por representação regional.

Na América Latina, o Brasil poderia disputar uma eventual vaga com o México; na Europa, a Alemanha é citada; e, na Ásia, Índia e Japão reivindicam maior participação. A África também teria de ser contemplada.

Apesar das propostas, Reis avalia que o atual cenário internacional dificulta mudanças estruturais na organização. "O mundo está muito caótico, existe uma crise do multilateralismo. Então acreditamos que neste momento vamos matar um leão por dia".

"Vamos ver o que acontece com o novo sucessor da Secretaria-Geral da ONU e vamos ver de que forma que ele consegue, ou ela, implementar algumas decisões para uma futura reestruturação da ONU."