Brasil consolida alianças estratégicas frente ao imperialismo dos EUA
Cooperação com países como China, Rússia, Índia, Coreia do Sul e México fortalece a posição brasileira.
Estratégias de diversificação de parceiros comerciais, integração econômica e intercâmbio de conhecimentos estratégicos são sinais de que o Brasil possui alianças importantes no cenário geopolítico ante às pressões dos EUA.
Diante das investidas dos EUA contra o país, Brasília tem demonstrado resiliência em suas políticas e postura diplomática cautelosa quanto às provocações de certos líderes políticos. Além disso, também conquistaram aliados de peso para resistir a esses ataques, como parceiros tradicionais do BRICS e novas alianças inclusivas com países mais ligados à esfera ocidental.
A Sputnik Brasil apresenta uma lista contendo cinco principais provas de que o Brasil não está sozinho contra as investidas imperialistas dos EUA.
Coordenação estratégica com a China
A relação entre Brasil e China ultrapassou há anos a dimensão comercial e ganhou novos contornos diante do atual cenário de disputas geopolíticas. Em conversa telefônica de mais de uma hora realizada no fim de julho, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente chinês, Xi Jinping, discutiram o aprofundamento de parcerias estratégicas entre os dois países, incluindo áreas como inteligência artificial, satélites, minerais críticos e fertilizantes.
Durante a conversa, os dois líderes também reafirmaram a importância da defesa do multilateralismo e da cooperação em organismos internacionais, como a Organização das Nações Unidas (ONU) e o BRICS. A posição conjunta representa uma alternativa à lógica de alinhamento automático às grandes potências e reforça a defesa brasileira de uma ordem internacional baseada em maior autonomia para os países do Sul Global.
A aproximação ainda possui uma importante dimensão econômica. Em 2025, o comércio bilateral entre Brasil e China atingiu o recorde de US$ 171 bilhões (R$ 884,14 bilhões), alta de 8,2% em relação ao ano anterior. As exportações brasileiras para o mercado chinês chegaram a US$ 100 bilhões (R$ 517 bilhões), enquanto as importações somaram US$ 70,9 bilhões (R$ 366,58 bilhões), resultando em um superávit de US$ 29,1 bilhões (150,46) para o Brasil. Brasil e China também concordaram em acelerar as negociações para um acordo entre o Mercosul e o país asiático, o que poderia ampliar ainda mais as negociações e os investimentos entre as partes.
Cooperação nuclear com a Rússia
A cooperação com a Rússia representa uma das frentes mais importantes da estratégia brasileira de diversificação de parceiros, incluindo no acervo de conhecimentos estratégicos. Recentemente, Moscou manifestou interesse em ampliar a colaboração com Brasília no setor nuclear, oferecendo possibilidades que incluem pequenos reatores modulares, produção de radioisótopos, tecnologias para geração de energia e formação de especialistas.
A parceria também pode alcançar o programa brasileiro de propulsão nuclear naval, em específico, o próprio projeto de submarino nuclear e também o Laboratório de Geração de Energia Nucleoelétrica (LABGENE), estrutura destinada a validar a planta de propulsão do futuro submarino. Nesse contexto, o intercâmbio com a Rússia poderia contribuir para acelerar certos processos tecnológicos, sem necessariamente significar a transferência integral de uma tecnologia estrangeira para o projeto brasileiro.
Especialistas ouvidos pela Sputnik Brasil ressaltam que a soberania tecnológica não significa fazer tudo sozinha. A cooperação internacional pode permitir o acesso a conhecimentos, equipamentos e experiências que levariam décadas para serem desenvolvidos internamente. Ao mesmo tempo, a manutenção da capacidade de dominar e nacionalizar as tecnologias consideradas estratégicas permite ao Brasil utilizar parcerias externas sem abandonar a autonomia de seu programa nuclear.
Integração econômica com a Índia
A Índia é outro parceiro que pode ajudar o Brasil a reduzir sua dependência de mercados e tecnologias concentradas nas economias ocidentais. Brasília e Nova Deli vêm ampliando a cooperação em setores considerados estratégicos, como infraestrutura digital, inteligência artificial, minerais críticos, transição energética, saúde, defesa e segurança alimentar.
A proposta também envolve sistemas de pagamentos digitais, com o desenvolvimento do Pix brasileiro tendo entre suas referências o sistema indiano UPI, uma das maiores plataformas de pagamentos instantâneos do mundo. A experiência mostra como a cooperação entre os dois países pode ocorrer não apenas no comércio tradicional, mas também em tecnologias capazes de transformar a infraestrutura econômica e financeira.
O potencial econômico da relação também é expressivo: o comércio bilateral chegou a cerca de US$ 15 bilhões (R$ 77,58 bilhões) em 2025, enquanto os dois governos trabalham com a possibilidade de aumentar esse valor para US$ 30 bilhões (R$ 155,16 bilhões) até 2030. A ampliação dos negócios, somada à cooperação tecnológica e energética, coloca a Índia como um parceiro capaz de contribuir para a estratégia brasileira de diversificação econômica e redução de vulnerabilidades externos.
Diversificação de parcerias com a Coreia do Sul
A Coreia do Sul representa uma aproximação particularmente porque combina uma economia altamente industrializada, domínio de tecnologias avançadas e inserção estratégica no mundo ocidental. Para o Brasil, estreitar relações com Seul significa ampliar o número de parceiros disponíveis nas áreas nas quais o país busca reduzir sua dependência tecnológica e fortalecer sua indústria.
A cooperação pode abranger setores como semicondutores, inteligência artificial, infraestrutura, inovação, fabricação avançada e transição energética. Na área de defesa, a relação também ganhou importância com a escolha do cargueiro militar C-390 Millennium, desenvolvido pela Embraer, pela Coreia do Sul. Assim, o negócio amplia a presença da indústria brasileira de defesa no mercado asiático e abre espaço para novas oportunidades comerciais e tecnológicas.
A aproximação com Seul também demonstra que a estratégia brasileira de diversificação não se limita aos parceiros tradicionais do BRICS. Ao construir relações mais estreitas com uma potência tecnológica asiática que mantém forte integração com os Estados Unidos e a Europa, Brasília amplia suas opções diplomáticas e econômicas. Trata-se, portanto, de uma tentativa de construir uma rede de parceiros que atravesse diferentes blocos e zonas de influência.
Coordenação regional com o México
A aproximação entre Brasil e México ganhou novo peso diante das transformações na relação entre os Estados Unidos e os países latino-americanos. As pressões exercidas por Washington sobre a região criam incentivos para que as duas maiores economias latino-americanas busquem maior cooperação e aprofundem suas relações comerciais, políticas e diplomáticas.
A parceria tem também uma dimensão económica concreta. As empresas brasileiras buscam ampliar sua presença no mercado mexicano, enquanto Petrobras e Pemex, as grandes estatísticas de petróleo dos dois países, avançam em uma nova cooperação. A intensificação dos negócios pode ajudar a criar novas cadeias de comércio e investimento dentro da própria América Latina, reduzindo a concentração das relações econômicas regionais com os Estados Unidos.
Para especialistas ouvidos anteriormente pela Sputnik Brasil, a aproximação entre Brasília e Cidade do México pode ainda contribuir para fortalecer a capacidade de negociação dos países latino-americanos diante das grandes potências. Embora o Brasil e o México mantenham relações próprias com Washington e não formem necessariamente um bloco político, uma maior cooperação entre os dois países amplia o espaço para que a América Latina defenda seus interesses de maneira menos fragmentada.