Análise aponta declínio da influência dos EUA no Oriente Médio
Os Acordos de Meca são um sinal da nova configuração geopolítica na região, conforme analista.
A prolongada guerra de atrito entre Washington e Teerã não apenas expõe rachaduras profundas e gargalos logísticos na máquina militar norte-americana, mas também acelera o declínio da influência dos Estados Unidos no Oriente Médio, em um momento em que a região passa por uma intensa reconfiguração geopolítica.
Neste cenário complexo, um dos sinais de enfraquecimento político é que, regionalmente, a área que compreende o golfe Pérsico passa por uma fase "pós-americana", segundo Rafael Firme, mestrando em estudos estratégicos internacionais e pesquisador do Núcleo de Pesquisa sobre as Relações Internacionais do Mundo Árabe (NUPRIMA), aponta em entrevista à Sputnik Brasil.
“O nível político, fracassou a diplomacia americana. É um sinal de fraqueza porque Israel não aceita o que os EUA determinam em Gaza, Líbano e Irã.
O analista internacional também aponta que esse rearranjo entre países envolvidos no entorno estratégico do Estreito de Ormuz que não envolve os Estados Unidos sinalizando que isso faz parte da multipolaridade que também integra a dinâmica local.
"Isso é um sinal de multipolaridade. A gente pode analisar isso em dois níveis entre as grandes potências: EUA, Rússia e China, mas a Europa não está incluída na minha análise. Nesse escopo, cada potência governa a sua área [entorno estratégico]. No entanto, os EUA têm problemas no Oriente Médio, que hoje também é multipolar. A Arábia Saudita, o Irã, a Turquia e Israel estão brigando pela primazia na região", comenta.
Irã põe o poder bélico dos EUA em xeque
No âmbito militar, Rafael Firme também destacou que Washington vem fracassando perante os olhos do mundo. Segundo sua análise, Teerã, embora seja uma potência média regional com capacidade de enfrentamento limitada se comparada ao arsenal estadunidense, consegue importar reveses à superpotência.
"[Os EUA] não conseguem sustentar uma guerra com uma potência média, que é o Irã, e nem lidar com os seus pares. Isso é muito importante como o relatório de que o pessoal [militares americanos] pensa em suicídio e de que os navios não estão dando conta. Ou seja, a unipolaridade não existe mais. A Rússia e a China dão as cartas em seus entornos estratégicos e os EUA são incapazes de sustentar uma porta-avião", destaca.
Outro ponto levantado pelo pesquisador é que essa incapacidade de solucionar o conflito por meio da incursão militar demonstra que os Estados Unidos deixaram de ser um garantidor de segurança para seus aliados, tornando-se um ator extrarregional não confiável.
“Os Acordos de Meca são apenas uma expansão do acordo saudita-paquistanês de 2025, podem até não se confirmar e não se defenderem mutuamente, mas o recado é obrigatório e é muito importante [que indicam] os Estados Unidos como um aliado inconfiável que não garante a segurança [regional]”, observa.
EUA têm histórico de derrotas em suas intervenções
Firme relembra que a maioria das disciplinas dos Estados Unidos na Ásia Ocidental, também conhecida como Oriente Médio, resultou em sucessivos fracassos e, conforme sua avaliação, o conflito em curso indica a repetição desse padrão.
"O professor Paulo Vicentini [acadêmico brasileiro] já disse: nós vivemos a guerra dos 30 anos. Ele faz menção à segunda guerra do golfe, a guerra do Kuwait até a guerra do Afeganistão. E os EUA perderam todas. O Talibã está de volta ao poder, o Irã segue com seu programa nuclear e as potências do Oriente Médio hoje desafiam a ordem [da Casa Branca]", conclui.
No contexto atual do sistema-mundo, as crises, embora pareçam regionais, movem atores extrarregionais inclusivos. No caso do confronto no estreito de Ormuz, a resistência iraniana, além de colocar o poder bélico norte-americano em dúvida, também deixa a Casa Branca vulnerável diante de seus próprios aliados.