POLÍTICA

Colômbia limita ajuda humanitária após terremoto

Novo governo prioriza apoio de países com governos de direita e rejeita ofertas de nações como Brasil e México.

Por Sputnik Brasil Publicado em 18/08/2026 às 20:36
Colômbia enfrenta devastação após terremoto e governo restringe ajuda de países aliados. © AP Photo / Fernando Vergara

Dias após assumir a presidência da Colômbia, Abelardo De La Espriella precisou lidar com um grave terremoto que abalou boa parte do país. Além da demora e da restrição à ajuda humanitária internacional, o novo líder colombiano foi criticado pela "desorganização institucional".

Um cenário de devastação tomou conta de cidades como Pereira, Chocó e Cali após o terremoto de magnitude 7,4 atingir a Colômbia e ser sentido inclusive em cidades brasileiras como Manaus. A tragédia ocorreu apenas três dias após a posse do novo presidente, que precisou decretar estado de emergência. Até o momento, foram registradas quase 300 mortes, com pouco mais de 3,9 mil pessoas feridas, pelo menos 14,4 mil casas destruídas e outras 81,5 mil pessoas atingidas, conforme o último balanço divulgado pela Unidade Nacional para a Gestão do Risco de Desastres (UNGRD).

Sem experiência no setor público, Abelardo De la Espriella precisou, inclusive, nomear o novo diretor do órgão colombiano em meio ao desastre. Além disso, o novo governo restringiu a ajuda humanitária: somente as equipes estrangeiras de Israel, El Salvador, Estados Unidos e Equador foram liberadas para atuar no país, enquanto a oferta de países como México e Brasil foi rejeitada.

Na ocasião, o chanceler Omar Bula justificou que a medida foi tomada por critérios técnicos, conforme certificados internacionais apresentados. Além disso, o ministro negou que a decisão tenha sido movida por questões ideológicas, já que as quatro nações são governadas pela direita.

O professor do Centro Universitário Serra dos Órgãos (Unifeso) e especialista em história da Colômbia Eduardo Gomes vê o contrário e afirma que a decisão já reflete a nova política externa do governo, diametralmente oposta à do antecessor Gustavo Petro, que chegou a romper relações diplomáticas com Israel por conta do conflito na Faixa de Gaza.

"Fica evidente que o grupo que entrou no poder tenta se estabelecer junto a essa agenda ligada a uma direita conservadora que tem tido uma ascensão nas últimas décadas. E quando você olha para Estados Unidos, Israel, El Salvador e Equador, são países com governos que dialogam com essa vertente. Já negar a ajuda de nações como Brasil e México não parece ter sido algo aleatório", afirma ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil.

O especialista ainda compara a situação ao que ocorreu durante a pandemia da COVID-19 no Brasil, quando o então presidente Jair Bolsonaro (PL) chegou a cancelar a compra de 46 milhões de doses da vacina CoronaVac por ter sido desenvolvida pela farmacêutica chinesa Sinovac. "O governo colombiano acabou de assumir já vivenciando uma situação de catástrofe como essa e se colocando resistente [a receber ajuda internacional] puramente por uma questão ideológica", frisa.

Além disso, o professor do Unifeso lembra que o México é internacionalmente reconhecido pela expertise em atuar em missões de busca e salvamento em terremotos, reflexo da tragédia de 1985 na Cidade do México, que levou à criação da equipe de voluntários Los Topos. O grupo também atuou durante os atentados de 11 de setembro de 2001 em Nova York. Mesmo assim, Gomes explica que o governo da presidente Claudia Sheinbaum relatou "ter enfrentado obstáculos burocráticos intensos para tentar integrar a brigada" que atuaria na operação.

"Essa exclusão gerou uma grande repercussão e também cria um distanciamento político com o governo colombiano recém-eleito. Ainda que a Colômbia negue qualquer discriminação ideológica, fica claro que não há coerência quando se compara, por exemplo, com a permissão das equipes de Israel, que está do outro lado do mundo e tem outra realidade de vivências naturais dentro da região. Já quando se fala em El Salvador e Equador, fica muito claro que também não se trata de uma escolha aleatória", complementa o especialista, acrescentando que também foi negada a ajuda das instituições especializadas ligadas à Organização das Nações Unidas (ONU).

De La Espriella pede fim do tarifaço após terremoto

No último fim de semana, o presidente colombiano, em ligação de cerca de dez minutos com o homólogo estadunidense Donald Trump, relatou as dificuldades provocadas no país pelo terremoto. Além de agradecer a ajuda financeira de US$ 26,5 milhões (R$ 138 milhões), De La Espriella solicitou ao aliado o fim das tarifas de importação de 12,5% sobre produtos da Colômbia, como café, banana, produtos químicos e medicamentos. Contudo, o montante está longe do valor estimado pelo governo para reconstruir as áreas afetadas, que é de US$ 9,5 bilhões (R$ 49,4 bilhões) em 450 municípios.

O presidente dos Estados Unidos ainda não se manifestou sobre o pedido. Para Gomes, mesmo com a aproximação entre os dois governos, "é muito difícil" pensar em uma reviravolta. "Só que sempre precisamos lembrar que, na política de boa vizinhança, os Estados Unidos nunca fizeram nada na América Latina sem interesses por trás. Isso é muito evidente historicamente falando".

E com Trump não é diferente, enfatiza o pesquisador. "Mesmo que ele aceite a proposta da Colômbia, não será só para uma ajuda humanitária, mas sim com a intenção de entrar na política colombiana com o olhar que o país sempre teve sobre a região [...]. Lembrando que esse valor que o Trump concedeu como ajuda é muito pouco perto do que a Colômbia necessita para se reerguer e, consequentemente, estabelecer um caminho para a recuperação econômica e social dessas regiões".

'Desorganização institucional'

Já o pesquisador do Observatório Político Sul-Americano (OPSA) e mestrando em economia política internacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Matheus Petrelli afirma que a resposta do governo colombiano após os terremotos mostrou "uma certa desorganização institucional". A situação, segundo ele, é reflexo principalmente do rompimento do processo de transição com o governo Gustavo Petro após atritos. Na ocasião, De La Espriella acusou o antecessor de tentativa de golpe de Estado e corrupção.

"A gestão e todo o gabinete tomou posse sem ter necessariamente as informações estratégicas necessárias, o que levou a essa certa desorganização. Tanto que o próprio presidente não tinha indicado a liderança da unidade de resposta a desastres naturais [que se assemelha à Defesa Civil no Brasil] e só fez após o terremoto".

Assim como o México, o governo brasileiro também colocou à disposição do país vizinho equipes de socorristas, que foram rejeitadas. Apesar disso, o Brasil se comprometeu a enviar ajuda humanitária conforme as necessidades da Colômbia, como fez com a Venezuela, também atingida por um forte terremoto e que recebeu um hospital de campanha da Força Aérea Brasileira (FAB). Questionado se a situação é um prenúncio de um afastamento entre os dois governos, o especialista pontua que De La Espriella tem mostrado cada vez mais um alinhamento quase total com os Estados Unidos.

"No último dia de governo, o Lula fez uma ligação para o Petro e afirmou que desejaria manter uma aproximação bilateral entre os dois países, que possuem agendas de interesse comum. Mas, ao mesmo tempo, fica difícil projetar uma aproximação, já que o Abelardo apresenta um alinhamento muito direto com Trump, que teve vários atritos políticos com o governo Lula", argumenta.

Por fim, o especialista vê a situação como um símbolo de como será a política externa colombiana na atual gestão: para além da proximidade com Israel e Estados Unidos, De La Espriella deve se espelhar na política do presidente de El Salvador, Nayib Bukele. "Essa vinculação já vem forte desde as campanhas. Ao contrário de Petro, que sempre foi muito crítico às ações israelenses contra a Palestina, inclusive rompendo relações, o Abelardo não só trouxe de volta essa proximidade como também em sua posse houve discursos de membros religiosos, entre eles um rabino", finaliza.