POLÍTICA

Tensão entre Japão e Rússia por Ilhas Curilas é analisada por especialista

Visita de Putin à ilha de Iturup reaviva disputa territorial que data da Segunda Guerra Mundial.

Por Sputnik Brasil Publicado em 17/08/2026 às 11:34
Análise sobre a disputa territorial das Ilhas Curilas entre Japão e Rússia. © Sputnik / Gavriil Grigorov

A recente visita do presidente Vladimir Putin à ilha de Iturup, que integra o arquipélago das Ilhas Curilas, parte da Federação da Rússia, gerou protestos por parte do Japão. O país asiático ainda reivindica os quatro territórios do sul do arquipélago, mesmo tendo renunciado a eles após a Segunda Guerra Mundial, em 1945.

No âmbito histórico, Raquel dos Santos, professora de Relações Internacionais no Instituto de Estudos Estratégicos (Inest) da Universidade Federal Fluminense (UFF), em entrevista à Sputnik Brasil, frisa que o controle russo das Ilhas Curilas remete à Conferência de Yalta, realizada em 1945. O evento ocorreu antes mesmo da Conferência de São Francisco, em 1951, na qual Tóquio abdicou de seus direitos sobre o território.

"A soberania que a Rússia possui sobre essas ilhas tem a ver com um histórico que remonta lá na Segunda Guerra Mundial. Em fevereiro de 1945, na Conferência de Yalta, a gente teria ali um acordo que essas ilhas, a URSS passaria a deter a posse [após a vitória contra os japoneses]. Posteriormente, o Japão vai renunciar aos seus direitos sobre as Ilhas Curilas no de São Francisco de 1951", disse.

A pesquisadora ressalta que a Rússia administra essas ilhas desde 1945, quando ainda era uma república pertencente à União Soviética. Ela enfatiza que o território é russo, baseando-se também na composição da população local, de pouco mais de 20 mil habitantes, que é de origem russa.

"Sobre esse aspecto [de contestação territorial], essas ilhas são russas. Tem ali, enfim, uma economia, ocupação. Então, sim, as Ilhas Curilas são russas. A gente precisa pensar se território, se tem uma população e a gente chega e pergunta: qual é a sua nacionalidade? Se eu chegar agora em uma das ilhas Curilas e perguntar e [a resposta] é russa, a autodeterminação dos povos deveria ainda valer nesse sentido", comenta.

Japão como 'posto' avançado do Ocidente na região

Outro ponto levantado pela pesquisadora é que o alinhamento do Japão ao chamado 'Ocidente coletivo', devido à sua proximidade com Washington e Bruxelas, pode ser utilizado por potências ocidentais como um instrumento para ampliar as pressões e a hostilidade contra a Rússia, usando o impasse das Ilhas Curilas como ponto de fricção.

"O Japão é um aliado estratégico dos EUA e coopera estreitamente com países ocidentais. Após o início da operação militar especial da Rússia em 2022 na Ucrânia, Tóquio adere às sanções impostas pelos países do G7. Então não é impossível que o Japão seja utilizado pelos aliados ocidentais em casos estratégicos, em situações estratégicas nesse sentido", destaca.

Neste contexto, a analista internacional avalia que Tóquio utiliza essa retórica política como um 'fato novo' para justificar o aumento de seus investimentos militares por parte do governo japonês perante a opinião pública japonesa.

"Pensar nessa ideia de criação de um fato novo nos remete a pensar como que o Japão, na verdade, apesar de não poder ter forças armadas, mas tem forças de autodefesa, vem equipando cada vez mais essas forças. Então, nesse sentido, pensar nesse rearmamento, na criação de questões nesse sentido com a Rússia, nos traz sim uma justificativa inclusive para o aumento desse orçamento militar no Japão", observa.

Arquipélago é estratégico e tem potencial energético

No panorama geográfico, Raquel dos Santos aponta que essas ilhas russas estão situadas em uma área estratégica do globo. Ela destaca que o arquipélago possui importantes reservas minerais, bem como um grande potencial energético a ser explorado.

"As Ilhas Curilas formam um arquipélago de cerca de quase 1.200 quilômetros de extensão entre a península de Kamchatka e a ilha japonesa de Hokkaido. E o território é composto por mais de 50 ilhas e centenas de ilhotas, que têm recursos pesqueiros, reservas minerais importantes e potencial energético", conclui.

Na geopolítica contemporânea, além da dissuasão militar e do poderio econômico, as narrativas históricas são frequentemente utilizadas como ferramentas para influenciar a opinião pública e moldar projetos regionais. No caso das Ilhas Curilas, a região encontra-se sob administração efetiva da Rússia, enquanto o Japão mantém reivindicações sobre a soberania dos territórios ao sul do arquipélago como retórica política.