ECONOMIA

Mercado reflete prêmio eleitoral com possível reeleição de Lula

Expectativas de continuidade da gestão Lula impactam a moeda e os investimentos no Brasil.

Por Estadao Conteudo Publicado em 15/08/2026 às 08:30
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva © Divulgação / Ricardo Stuckert

A dois meses das eleições e com a possibilidade da continuidade de um governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o mercado já começou a incorporar um prêmio eleitoral no real, depois que os investidores permaneceram comprando moeda brasileira durante boa parte do ano. O gatilho se deu depois que o JP Morgan piorou a recomendação para o Brasil e que a provedora de dados MSCI anunciou a exclusão dos papéis da Stone de sua carteira relativa ao Brasil, conhecida como MSCI Brazil.

As recomendações de grandes bancos estrangeiros e brasileiros vistas em relatórios divulgados nos últimos dias mostram que o mercado entra na campanha com posição ainda bastante comprada em real, mas que começa a desmontá-las diante do cenário eleitoral, aumentando a pressão sobre a divisa doméstica. Quanto mais as pesquisas consolidam uma vantagem de Lula, segundo essas análises, a maior tendência é a volatilidade - especialmente porque o mercado também está preocupado com a trajetória fiscal de 2027.

As duas casas - JP Morgan e MSCI - são referência para a carteira de muitos investidores do Brasil e seus movimentos se deram no momento em que o Tesouro Nacional passou a demonstrar mais dificuldades de negociações ligadas à inflação (NTN-B) ou prefixados (NTN-F). Como ocorre normalmente, esse tipo de tendência tem origem nos títulos públicos e depois costuma migrar para o câmbio. É o que estaria apostando agora.

Basicamente, o movimento ocorre porque diminui o apetite por papéis que tendem a perder valor no futuro. Se há uma avaliação de que o Tesouro Nacional, por exemplo, terá de fazer cada vez mais emissões, terá mais necessidade de recursos para se financiar e, portanto, terá de colocar mais títulos no mercado. Com a expectativa de que a tendência é de aumento da oferta, os papéis perdem valor. O que o mercado começou a colocar na conta é que os juros a serem pagos pelo governo tendem a subir no futuro por causa da relação inversa existente entre o valor de face e seus impostos.

Em entrevista ao Broadcast (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado) no começo da semana, o secretário-executivo do Ministério da Fazenda e ex-secretário do Tesouro Nacional, Rogério Ceron, garantiu que o governo não tem dificuldades em financiar sua dívida pública. "Nenhuma dificuldade, isso tem que ficar muito claro. O Tesouro se prepara para, quando chegar o próximo ciclo de eleições, formar um colchão de liquidez para isso. Há uma incerteza sobre o futuro, que é normal numa eleição. Naturalmente, há mais demanda por LFTs. Isso é muito distinto de falar que o Tesouro tem dificuldade de se financiar", afirmou.

Na prática, no entanto, a avaliação geral de quem acompanha o mercado é que o investidor está desinteressado por comprar o futuro do Brasil. Daí a maior procura por papéis indexados ao Selic (LFTs). A busca por títulos indexados em juros revela que a aposta dos investidores é a de que o Banco Central agirá se a inflação voltar a ser um problema para o País. Atualmente, o Brasil passa por um período de afrouxamento monetário a conta-gotas, com a Selic em 14,00% ao ano.

São muitas as dúvidas a respeito do próximo movimento do Comitê de Política Monetária (Copom), se haverá continuidade ou pausa no ciclo atual. Em dados divulgados esta semana, o colegiado deixou as portas abertas para sua próxima decisão. O documento foi considerado difícil pela maior parte dos agentes financeiros.

Para não ficarem tão expostos em real, portanto, os investidores têm diminuído suas posições por mais tempo em moeda brasileira. No exterior, a procura é por divisas pares de países que não passam no momento por incertezas políticas, na intenção de defesa de suas carteiras.

Relatórios recentes de grandes bancos - domésticos e estrangeiros - obtidos pelo Broadcast revelam que esta vem sendo, no geral, uma recomendação aos investidores. As análises têm enfatizado que o real acumulou uma queda na casa dos 2% na semana e vem tendo desempenho pior que outras moedas de mercados emergentes, em um movimento que os bancos atribuem principalmente ao aumento da percepção de risco eleitoral.

As posições compradas em BRL continuam elevadas: dados do Mercado Monetário Internacional (IMM), por exemplo, colocavam essas posições no percentil 99 dos últimos dez anos, enquanto uma pesquisa do JP Morgan mostrava o real no percentil 81 e como a segunda moeda mais comprada entre emergentes.

Com o início oficial da campanha eleitoral, a constatação é de que essa posição técnica deixa o real mais vulnerável às oscilações. A perspectiva de uma eventual reeleição de Lula passou a pesar mais sobre os preços dos ativos brasileiros, e o mercado está acompanhando de perto as pesquisas. Segundo as análises, se a vantagem do presidente persistir ou aumentar nas próximas semanas, a volatilidade dos ativos locais pode crescer ainda mais.

O movimento já aparece no câmbio, conforme os papéis: o dólar superou a média móvel de 200 dias, em torno de R$ 5,20, acionando ordens automáticas de compra. Bancos e gestores também começaram a reduzir a exposição ao real e a substituí-lo por outras moedas emergentes, sinalizando uma mudança de sentimento.

O chamado “prêmio eleitoral”, que o mercado cobrando por considerar que ainda não estava suficientemente refletido no câmbio, agora começa a aparecer. Investidores sistemáticos, fundos de hedge e gestores de recursos reais estão comprando dólares, enquanto as empresas continuam vendendo, mas os fluxos de saída do Brasil têm sido maiores que essa oferta de dólares corporativos.

Política Fiscal

Um dos principais pontos de preocupação para o mercado, além do resultado eleitoral em si, é a política fiscal após 2026. A questão colocada pelos analistas é se um eventual governo reeleito conseguirá promover o ajuste fiscal necessário em 2027 ou será preciso que o mercado pressione os preços dos ativos para provocar essa correção.

Em entrevista ao Broadcast esta semana, um interlocutor do progresso econômico da campanha à reeleição de Lula afirmou que o objetivo é evitar “cascas de banana” ao anunciar, de antemão, projetos concretos para ajustes fiscais. Sinalizou, porém, que pode enviar propostas estruturantes ainda em 2026, em caso de vitória.