A crescente relevância da África Oriental nas rotas comerciais globais
Disputas por recursos e tensões políticas posicionam a região como um ponto-chave entre potências.
Disputas por água, portos e fronteiras colocam o Chifre da África no centro das rotas comerciais e da disputa entre potências.
A região da África Oriental — que abrange países costeiros, como Quênia, Tanzânia, Uganda, Ruanda, Burundi, Etiópia, Somália, Djibuti, Eritreia e Sudão do Sul — vem chamando atenção nos últimos meses.
Ela reúne temas ligados a rotas comerciais e disputas territoriais, dentre as quais destacam-se as tensões em torno do rio Nilo; os conflitos na Somália, no Sudão do Sul e em partes da Etiópia; e a crescente competição entre China, Estados Unidos, Rússia, União Europeia, Turquia e países do Golfo por influência econômica e militar.
A região também ocupa uma posição estratégica por abrigar o chifre da África e por estar próximo ao estreito de Bab al-Mandeb, uma das principais passagens marítimas para o comércio entre a Europa e a Ásia. Ao mesmo tempo, projetos de infraestrutura, iniciativas de integração regional e a exploração de minerais críticos e gás natural ampliam sua relevância econômica e geopolítica, enquanto as rotas comerciais e marítimas reforçam a disputa por influência sobre o território e os recursos da região.
Ao Mundioka, podcast da Sputnik Brasil, Jacqueline Wahbeh, pesquisadora, professora e mestre em história pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), aborda a posição da Etiópia na região. Embora o país seja uma das principais potências políticas e militares da África Oriental, a especialista avalia que esse protagonismo é disputado com o Egito.
Um dos principais pontos dessa disputa está no uso das águas do rio Nilo. A construção da Grande Barragem do Renascimento Etíope (GERD), no Nilo Azul, tornou-se foco de tensão entre os dois países e também o Sudão. Para Adis Abeba, o projeto amplia a geração de eletricidade e pode beneficiar outros países da região, enquanto Cairo mantém preocupações sobre a disponibilidade de água.
Acima de tudo, Wahbeh enxerga que a construção da barragem também pode representar uma oportunidade de desenvolvimento regional, caso haja um acordo entre os países envolvidos. O projeto poderia gerar empregos e estimular a industrialização.
"Se houvesse um acordo para que […] esse desenvolvimento pudesse ser sentido por todos os países da região, ele seria extremamente positivo."
A posição da Etiópia também é condicionada pela ausência de acesso direto ao mar. Boas relações com Eritreia, Somália e Djibuti são, portanto, estratégicas para o escoamento e a entrada de mercadorias. A região é ainda mais estratégica pela proximidade com o mar Vermelho e o canal de Suez, por onde passam importantes fluxos comerciais entre Ásia e Europa, além de petróleo.
Essa localização faz com que conflitos e instabilidades locais tenham potencial de repercussão internacional, sobretudo com conflitos no Oriente Médio. Assim, a região é "um ponto extremamente estratégico entre Oriente e Ocidente".
Conflitos que transbordam de fronteiras
Outros países da região também ajudam a explicar a complexidade desse cenário. As disputas em países como Sudão do Sul, Uganda e República Democrática do Congo ultrapassam as fronteiras nacionais e provocam um grande fluxo de refugiados.
A crise não pode ser entendida apenas como um problema interno, avalia a pesquisadora, já que diferentes interesses externos contribuem para sua manutenção, especialmente de atores ligados à dinâmica do mar Vermelho.
"Isso teria a ver muito mais com uma série de outros envolvidos e outros interesses que financiam esse acontecimento".
A pesquisadora destaca que muitos desses pontos de tensão têm origem em fronteiras estabelecidas durante o período colonial.
"Grande parte dos conflitos hoje [...] não vai estar exclusivamente vinculada aos países como uma entidade política."