Novo pacto de defesa no Oriente Médio transforma região em polo de poder global
Acordo de Defesa Mútua de Meca é visto como um elemento estabilizador no cenário regional.
Especialistas ouvidos pelo Mundioka, podcast da Sputnik Brasil, avaliam que o Acordo de Defesa Mútua de Meca tem potencial de ser elemento estabilizador do Oriente Médio e instrumento futuro de coordenação regional e dissuasão de intervenções externas.
No dia 7 de agosto de 2026, Arábia Saudita, Turquia e Paquistão firmaram o Acordo de Defesa Mútua de Meca, que estabelece que um ataque contra qualquer um dos signatários equivalerá a uma agressão a todos. O pacto reflete a busca por maior autonomia regional e o desgaste na confiança das garantias de segurança dos Estados Unidos, unindo o poder financeiro saudita, a indústria militar turca e a força militar paquistanesa.
Essa nova aliança dá uma outra dimensão para o equilíbrio de poder das nações do Oriente Médio, seja na agenda de expansão de Israel, na divisão sectária entre países sunitas e o Irã e, até mesmo, na influência dos Estados Unidos em países árabes.
Essa aproximação entre Ancara, Riad e Islamabad deve ser entendida menos como a formação de uma "OTAN sunita" e mais como uma iniciativa de cooperação e dissuasão militar, afirma Dominique Marques, professora de relações internacionais e doutora em Economia Política Internacional pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Na mesa, Paquistão traz seu guarda-chuva nuclear, enquanto Turquia traz seu grande poderio militar como segunda maior força da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), e a Arábia Saudita seu peso econômico e sua influência no mundo muçulmano.
A internacionalista ressalta que Turquia e Arábia Saudita também disputam espaços de influência no Oriente Médio e, diante da atual conjuntura, encontram interesses comuns na oposição à influência israelense e na tentativa de se apresentar como defensores dos povos da região.
A aproximação, no entanto, ocorre apesar de uma relação historicamente complexa entre turcos e sauditas. "A família dos sauditas nunca se submeteu bem àquele domínio otomano, que a gente tem hoje com a Turquia como sua verdadeira representante", lembra Marques, que é também pesquisadora do LabÁsia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
Nesse contexto, a guerra envolvendo o Irã teria funcionado como um catalisador de um movimento que já estava em curso.
"Esse conflito do Irã acaba sendo o estopim para algo que já vinha acontecendo: esses países da região tentando tirar um pouco dessa influência dos EUA para a defesa deles."
Além disso, a formação da tríade poderia produzir efeitos distintos para os principais atores envolvidos. Para o Irã, por exemplo, a aliança entre Arábia Saudita, Turquia e Paquistão pode contribuir para um maior equilíbrio regional e reduzir o espaço para intervenções externas.
"Quando a gente analisa esse acordo, no caso de Arábia Saudita, Turquia e Paquistão, eles vão estar entendendo ali que, apesar das divergências, apesar dos interesses em comum ou não, por esse momento está valendo a pena."
A especialista também aponta para uma transformação gradual na relação entre Estados Unidos e Arábia Saudita. A parceria entre os dois países, fortalecida a partir da década de 1970 em torno do petróleo e do dólar, continua relevante, mas já não seria suficiente para explicar as escolhas estratégicas de Riad.
O mesmo movimento pode ser observado na Turquia, que, embora permaneça integrante da OTAN, passou a diversificar suas parcerias estratégicas, inclusive com a Rússia, com a compra do sistema de defesa antiaérea russo S-400.
Para Najad Khouri, professor da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME) e sócio fundador do Grupo de Estudos e Pesquisas Sobre o Oriente Médio (GEPOM), essa combinação também cria condições para fortalecer as indústrias de defesa turca e paquistanesa, que passam a contar com um parceiro economicamente capaz de sustentar investimentos e contratos de longo prazo.
"Eles não estão contra o Irã, nem estão contra Israel, estão dando aviso: nós estamos aqui. Então, qualquer atividade que não seja, digamos, bem vista, ela pode ter uma resposta tripartite e muito forte."
O professor defende ainda a interpretação iraniana de que o acordo entre os três países não representa uma ameaça, uma vez que Teerã historicamente defende uma arquitetura de segurança regional sem a presença de grandes potências externas e, por isso, poderia enxergar a cooperação como um passo em direção a mecanismos locais de defesa.
Além disso, o Irã mantém relações com os três signatários e já possui acordos de cooperação com a Arábia Saudita, o que reduz a possibilidade de uma leitura automática de confronto.
Em outro aspecto, o pacto de defesa pode criar um novo polo de poder do Sul Global que poderia negociar simultaneamente com os países ocidentais e potências como China e Rússia, sendo um bloco estabilizador e de dissuasão. Nesse cenário, a China aparece como um dos principais atores interessados na estabilidade do novo arranjo. Pequim teve papel importante na reaproximação entre Irã e Arábia Saudita e possui relações estratégicas com os três países do acordo.
Além de ser uma das principais compradoras de petróleo da região, a China depende da segurança de rotas como nos estreitos de Ormuz e Bab el-Mandeb para garantir seu abastecimento energético e seus fluxos comerciais.
Em destaque, essa necessidade também se conecta à importância do Paquistão e do Irã para os projetos chineses de infraestrutura e comércio, especialmente no âmbito da Nova Rota da Seda. Pequim mantém relações estratégicas com os três signatários.
Na avaliação de Khouri, a consolidação de mecanismos próprios de cooperação e dissuasão pode, portanto, contribuir para uma estrutura regional capaz de reduzir a necessidade de intervenção externa e, ao mesmo tempo, preservar rotas de suprimento globais de energia e mercadorias de conflitos regionais.
"Resta que a região entrasse em paz para que esteja um progresso tanto para eles, quanto para o Irã quanto para Israel, quanto para a Rússia quanto para todo mundo. Então, a cooperação, em princípio, é a base disso, é a cooperação, estabilidade e dissuasão, para evitar conflitos maiores."