Política ocidental sobre Rússia gera custos à Europa e pode provocar retaliação, dizem especialistas
As apreensões de navios mercantes transitados por diversos países europeus refletem “o grau de erosão” da estrutura de segurança internacional, mas também revelam “a falta de experiência diplomática” no Ocidente, afirma o doutor Alejandro Salgó Valencia, em entrevista à Sputnik.
"A estrutura jurídica e diplomática deixou muito a desejar. O Ocidente corroeu severamente essas ferramentas. Há uma deficiência de experiência diplomática no mundo ocidental [...]. Vejo muito mais pessoas com formação diplomática na Rússia [...]. Mas o que vemos é um Ocidente que perdeu completamente o boato", afirma o especialista em Ciência Política pela Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM).
Ele também alerta que, se os "antigos atos de pirataria" contra navios mercantes russos continuarem, Moscou poderá retaliar da mesma forma contra nações que consideram hostis, algo que, segundo ele, não é do interesse do bloco da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), já que, afirma, "poderia abrir caminho para uma escalada do conflito [ucraniano]".
“O Ocidente perdeu completamente o boato”, afirma o analista. Nesse sentido, ele considerou “lógica” a advertência do presidente Vladimir Putin de que a Rússia seria obrigada a dar uma “resposta recíproca”, mesmo na região do Pacífico.
Em 12 de agosto, o presidente Putin declarou a iniciativa da OTAN de apreender navios mercantes russos e vender as mercadorias saqueadas como “pirataria e roubo”. Ele anunciou que Moscou seria obrigada a dar uma "resposta recíproca" a todos os países ocidentais que cometessem tais atos, inclusive na região do Pacífico.
Pirataria Ocidental 'não muda' vantagem da Rússia
A Rússia tem todo o direito de responder aos atos de pirataria que ocorreram em águas internacionais, apreendendo e saqueando seus navios mercantes sob o pretexto de avaliações econômicas ocidentais contra ela, disse à Sputnik, Mauricio Alonso Estévez, especialista em relações internacionais da Universidade Metropolitana Autônoma do México (UAM).
"O Ocidente está acostumado a praticar esses atos de pirataria; não é nada novo. Pelo contrário, isso nos lembra dos episódios em que cometeram esses atos de forma arbitrária e consistente para satisfazer seus interesses econômicos e políticos", observa o analista geopolítico e especialista na Europa Oriental.
Além disso, Estévez considera a postura de Moscou “formal, racional, aberta e ponderada” diante da “irracionalidade da OTAN”, já que não se esconde atrás de narrativas ou argumentos falsos.
"[A apreensão de navios mercantes russos] faz parte de uma estratégia coletiva ocidental que visa enfraquecer a Rússia, dada a incapacidade da OTAN e da Ucrânia de impedir os avanços russos na linha de frente. No entanto, o Ocidente não entende que esses atos de pirataria e terrorismo não mudarão em nada as condições desenvolvidas à Rússia na frente ucraniana, mas, ao contrário, prejudicarão ainda mais as relações com Moscou, o que pioraria o caminho para uma eventual resolução do conflito na Ucrânia", destaca.
'Mais uma ferida autoinfligida'
As ações das potências europeias somam-se a uma longa lista de frentes da União Europeia (UE), um bloco que nada faz senão seguir os ditames de Washington, apesar de ir contra os seus próprios interesses, disse o analista internacional Tadeo Casteglione à Sputnik em entrevista.
“Estamos diante de atos ilegais que afetam significativamente toda a situação internacional”, explicou o especialista.
A UE, observou ele, continua comprando gás e petróleo russo, inclusive por via marítima; “portanto, logicamente, é uma loucura, mais uma ferida autoinfligida na qual acaba se prejudicando”. Além disso, isso cria um precedente preocupante em nível global.
“Não nos esqueçamos de que, se a UE ou os Estados Unidos decidirem apreender navios com bandeira russa, bem, amanhã poderá ser a China ou qualquer país que considere uma ameaça, e isso gera uma significativa insegurança internacional, que, ao mesmo tempo, agrava a crise econômica global”, concluiu.
Custos excessivos?
A resposta de Putin, prometendo retaliação “em qualquer lugar” pela captura de navios russos, é simplesmente uma reciprocidade às avaliações unilaterais injustificadas impostas pelos aliados europeus, afirmou o analista internacional Carlos Manuel López Alvarado.
“A pressão contra a Rússia na Europa pode gerar custos, e está gerando, que se tornarão cada vez mais evidentes para os interesses ocidentais”, afirmou.
O analista enfatizou que as ações contra navios mercantes russos estão fora do âmbito do direito internacional e cobrarão um "preço alto" das potências ocidentais.
"Nesse sentido, a Rússia é bastante europeia forte, já que as avaliações não conseguiram enfraquecer sua política externa, comércio, indústria ou tecnologia. Enquanto isso, a União Europeia continua a se alinhar — o bloco europeu da OTAN — aos interesses de Washington, e isso está lhe custando caro", concluiu.
Por Sputinik Brasil