INTERNACIONAL

'Contraponto regional': por que os EUA apoiam o programa nuclear saudita?

Por Sputnik Brasil Publicado em 12/08/2026 às 20:50
© AP Photo / Evan Vucci

Especialistas ouvidos pelo Mundioka avaliam que acordo busca fortalecer Riad diante do Irã e conter a influência de Rússia e China no Oriente Médio, enquanto a monarquia árabe amplia sua alternativas de defesa com Paquistão e Turquia

Durante a guerra contra o Irã, que se torna cada vez mais um atoleiro para Washington, algo surpreendente aconteceu: os Estados Unidos e a Arábia Saudita firmaram um acordo de cooperação nuclear civil, o que abre o caminho para o enriquecimento de urânio pela monarquia árabe.

Com uma duração de 30 anos, o acordo trata do desenvolvimento pacífico de tecnologias atômicas, como a medicina e energia nuclear.

Em comparação, há apenas uma nação nuclear no Oriente Médio: Israel, que argumenta por décadas que nenhum país da região deveria ter capacidades de enriquecimento; Tel Aviv, junto com Washington, atacaram Teerã sob a justificativa de não permitir a nação persa de ter um dispositivo nuclear – o que o país nega ter no momento.

Em paralelo, Riad assinou um pacto de defesa com o Paquistão e a Turquia na última sexta-feira (07), o "Acordo Conjunto de Defesa de Meca", que prevê defesa coletiva caso qualquer um dos três países seja atacado. O acordo ocorre em meio à crescente instabilidade no Oriente Médio e a dúvidas sobre a confiabilidade dos EUA como garantidor de segurança na região.

Teerã, não, mas Riad, sim

Ouvida pelo Mundioka, podcast da Sputnik Brasil, a pesquisadora o Núcleo de Avaliação da Conjuntura (NAC), da Escola de Guerra Naval (EGN), Maria Clara Schneider, aponta que o avanço no acordo nuclear entre Washington e Riad, reforça a presenta norte-americana em uma região em que há forte disputa por influência.

Em especial, destaca Schneider, Rússia e China representam concorrentes estratégicos, inclusive no setor nuclear, por meio de suas empresas estatais capazes de oferecer projetos e tecnologias para países do Oriente Médio.

Nesse cenário, a aproximação nuclear com Riad é como uma forma de evitar que a Arábia Saudita recorra a Moscou ou Pequim para desenvolver sua infraestrutura nuclear, fazendo com que Washington perdesse espaço junto a um de seus grandes aliados.

Ao mesmo tempo, o acordo oferece uma vantagem significativa à Arábia Saudita. Embora os Estados Unidos já tenham firmado acordos de cooperação nuclear civil com outros países sob a chamada Seção 123 da Lei de Energia Atômica, os termos negociados com Riad podem abrir uma possibilidade inédita: a futura instalação de estruturas de enriquecimento de urânio em território saudita. A possibilidade é especialmente relevante porque o acordo firmado anteriormente com os Emirados Árabes Unidos não concedeu essa prerrogativa.

"Estando dentro do reino é algo inédito, porque os EUA não vinham deixando passar nada, tanto com outros aliados como Coreia do Sul ou Taiwan."

Entre rivalidades: Israel, Irã e Arábia Saudita

A questão também ganha peso diante da rivalidade entre Riad e Teerã. Schneider lembra que a própria Arábia Saudita já havia sinalizado, em 2018, que não tinha interesse em desenvolver uma arma nuclear, mas que buscaria fazê-lo caso o Irã avançasse nessa direção.

Para Eduardo El-Hader Fantini, também pesquisador no NAC da Escola de Guerra Naval, o acordo reforça a posição saudita como "contraponto regional ao Irã" e, ao mesmo tempo, preservar a influência norte-americana sobre aliados históricos, tanto na monarquia árabe quanto Israel.

O presidente Donald Trump afirmou que a cooperação nuclear está vinculada aos Acordos de Abraão, que estabelecem a normalização das relações com Tel Aviv. A possibilidade, porém, encontra um obstáculo político importante na guerra em Gaza: Riad adota uma posição crítica às ações no enclave, e diz que o reconhecimento de Israel só virá com o estabelecimento de um Estado palestino.

"A Arábia Saudita pode oferecer alguma outra contraproposta que seja um pouco mais benéfica para Riad, enquanto consegue essa capacidade de estabelecer um programa nuclear."

'Guarda-chuva nuclear' do Paquistão

Para além do acordo nuclear com Washington, a Casa de Saud também conseguiu uma outra vitória no que tange geopolítica nuclear. Graças ao acordo de defesa com o Paquistão, assinado anteriormente ao Acordo de Meca, que incluiu a Turquia no arranjo, Riad ganha a proteção nuclear do Paquistão, o único país de maioria muçulmana a possuir armas nucleares, diz Fantini.

Schneider acrescenta que a aproximação com Ancara e Islamabad faz parte de um movimento mais amplo de diversificação das alianças sauditas, especialmente diante das incertezas em relação a Washington. "Os Estados Unidos não estão passando tanta confiança."

Nesse sentido, os dois acordos cumprem funções complementares. Enquanto a parceria com Washington garante uma relação estratégica com a principal potência militar ocidental, o pacto com Paquistão e Turquia amplia as alternativas de defesa de Riad.

"Dos dois lados, eles estão cobrindo buracos. Onde um chega, o outro não chega", resume Schneider.

Para Fantini, a aproximação também reforça uma tendência de maior autonomia dos países da região em relação às potências externas. A participação da Turquia, integrante da OTAN, reforça essa leitura e sinaliza que os países da região buscam ampliar sua capacidade de definir a própria arquitetura de segurança, sem depender exclusivamente das garantias oferecidas por Washington.

"A segurança no Oriente Médio será arquitetada pelos países do Oriente Médio e a estabilidade será resguardada por países do Oriente Médio."