Brasil lidera diálogo sobre segurança na América do Sul
Cúpula em Brasília discute cooperação contra crime organizado e autonomia regional.
A presidência brasileira pode fortalecer respostas conjuntas ao crime organizado e ampliar a autonomia regional diante da influência dos EUA na segurança latino-americana.
Durante a 3ª Cúpula Regional da Aliança para a Segurança, a Justiça e o Desenvolvimento, realizada em Brasília na última semana, o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) anunciou a ampliação de US$ 2,5 bilhões (R$ 12,9 bilhões) para US$ 4 bilhões (R$ 20,7 bilhões) do fundo destinado à segurança pública na América Latina e no Caribe entre 2026 e 2028.
O Brasil assumiu, por um ano, a presidência da Aliança para a Segurança, a Justiça e o Desenvolvimento, iniciativa que reúne países latino-americanos e caribenhos, e firmou uma parceria inédita com a Interpol para fortalecer o intercâmbio de informações e a cooperação policial.
Para Brasília, parte dos recursos será direcionada ao programa federal Brasil contra o Crime Organizado, com investimentos em investigação de homicídios, sistema prisional, combate ao tráfico de armas e, sobretudo, na asfixia financeira das organizações criminosas. Os países poderão acessar os financiamentos mediante a apresentação de projetos e o estabelecimento de metas a serem cumpridas até 2030.
Mais do que representar uma injeção de recursos na segurança pública, a iniciativa coloca o Brasil em uma posição de maior coordenação regional, justamente em uma área na qual Washington vem ampliando sua atuação.
Crime sem fronteiras
Apesar do anúncio de investimento, o recurso não representa uma transferência imediata para os cofres da segurança pública brasileira. Como explica Daniel Hirata, assessor especial do Ministério da Justiça e Segurança Pública, responsável pelo suporte técnico e analítico às ações de enfrentamento ao crime organizado, o memorando firmado com o BID abre uma linha de financiamento de médio e longo prazo, que dependerá da apresentação de projetos concretos e executáveis.
"Não se trata de R$ 5 bilhões que ingressam imediatamente no orçamento da segurança pública brasileira", explica Hirata. O acordo também prevê R$ 2 milhões em assistência técnica para qualificar projetos, padronizar metodologias e fortalecer a capacidade de gestão dos órgãos envolvidos.
A avaliação do governo é que o financiamento pode ajudar a suprir uma lacuna histórica da segurança pública, que não contou com a mesma escala de crédito multilateral disponível para outras áreas. Entre as frentes previstas estão investigação de homicídios, combate ao tráfico de armas, sistema penitenciário, recuperação de ativos e desarticulação das estruturas financeiras das organizações criminosas.
O financiamento, no entanto, é apenas uma parte da estratégia. Para Hirata, o avanço das facções exige uma mudança na forma como os países compartilham informações e conduzem investigações. As organizações criminosas atuam em redes que atravessam fronteiras, com drogas, armas e recursos financeiros circulando por diferentes jurisdições.
Nesse cenário, o compartilhamento de inteligência passa a ser uma ferramenta para conectar investigações, localizar foragidos e rastrear ativos, mas depende também de maior integração entre as instituições brasileiras.
"O crime organizado atual opera em redes que atravessam fronteiras."
É nesse ponto que entra a parceria com a Interpol. A organização conecta autoridades de 196 países por meio de uma rede segura e bases de dados compartilhadas. O objetivo, segundo o assessor, é construir uma "arquitetura em camadas", que começa pela interoperabilidade entre órgãos brasileiros, passa pela cooperação regional — como o Mercosul e outras iniciativas sul-americanas — e chega às redes globais.
Um dos encaminhamentos da Cúpula foi a colaboração da Interpol com a Força-Tarefa de Resposta Rápida da Aliança, que terá um projeto-piloto no Brasil para testar mecanismos de cooperação técnica especializada. Hirata ressalta, porém, que o compartilhamento de informações não significa acesso irrestrito a dados e continua submetido à legislação brasileira e às regras de proteção de dados.
Pressão dos EUA na América Latina
A princípio, a coalizão busca unir os países sul-americanos contra o crime organizado, mas também surge em meio à pressão da Casa Branca para ampliar sua influência política e militar na região.
Especialistas ouvidos pela Sputnik Brasil avaliam, porém, que a iniciativa vai além de uma resposta aos EUA e pode representar um movimento de autonomia regional diante de um problema que ultrapassou a esfera da segurança pública. O sucesso dependerá da capacidade de superar divergências entre os governos e construir respostas permanentes, com maior integração em segurança e defesa, sem necessariamente assumir o formato de uma aliança militar.
A liderança brasileira também ocorre em um contexto de crescente atuação dos Estados Unidos na agenda de segurança latino-americana. Para Hirata, porém, a presidência da Aliança não deve ser interpretada como tentativa de criar um contraponto a Washington.
Segundo o porta-voz, o Brasil terá a tarefa de coordenar os países-membros e transformar os compromissos firmados em Brasília em ações concretas. A avaliação do Ministério da Justiça é que fortalecer a cooperação latino-americana não significa fechar espaço para parceiros externos, mas ampliar a capacidade da própria região de definir prioridades e construir respostas conjuntas.
"A Aliança não foi concebida como instrumento de disputa geopolítica ou de contraposição aos Estados Unidos ou a qualquer outro país", afirma Hirata. A lógica, segundo ele, é de complementaridade: uma região com instituições mais integradas e mecanismos próprios de cooperação estaria em melhores condições para dialogar com Washington, com outros países e com organismos multilaterais.
Nesse sentido, a presidência brasileira pode ter um efeito que vai além da segurança pública. A criação de diagnósticos comuns, o compartilhamento de informações e a coordenação de respostas podem aumentar a capacidade de negociação dos países latino-americanos diante de diferentes parceiros internacionais.
A avaliação também encontra eco entre especialistas, que veem na articulação regional uma oportunidade para que a América do Sul desenvolva uma agenda própria de segurança e defesa. A ideia não seria criar uma aliança militar nos moldes da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), mas estabelecer mecanismos permanentes para operações coordenadas, troca de inteligência e rastreamento de ativos que atravessem diferentes jurisdições.
"Instituições regionais mais fortes tendem a favorecer parcerias internacionais mais equilibradas. A lógica é de complementaridade, não de confronto ou escolha entre parceiros."