EVENTO

Pré-simpósio debate diagnóstico, tratamento e eficiência sanitária na suinocultura

Por Assessoria Publicado em 11/08/2026 às 15:23
Na abertura da programação, a presidente do Nucleovet, Aletéia Britto da Silveira Balestrin, destacou a importância de reunir profissionais e contribuir com a transformação do conhecimento técnico. UQ Eventos

A gestão sanitária e o uso racional de antimicrobianos abriram a programação do 18º Simpósio Brasil Sul de Suinocultura (SBSS), no Centro de Cultura e Eventos Plínio Arlindo de Nes, em Chapecó. Promovido pelo Núcleo Oeste de Médicos Veterinários e Zootecnistas (Nucleovet), o pré-simpósio Gestão de Programas Sanitários na Suinocultura – Da Prevenção ao Tratamento: Otimizando o Uso de Antimicrobianos ocorreu na manhã desta terça-feira (11), e reuniu quatro especialistas para discutir fundamentos terapêuticos, diagnóstico, construção de protocolos, farmacoeconomia e monitoramento dos tratamentos.

Na abertura da programação, a presidente do Nucleovet, Aletéia Britto da Silveira Balestrin, chamou a atenção para a necessidade de compreender a sanidade de maneira estratégica e considerar que a discussão vai além da definição de protocolos. “Estamos falando de decisão, prevenção, diagnóstico, monitoramento e responsabilidade. O uso racional de antimicrobianos é um compromisso que ultrapassa os limites da granja. Ele está diretamente relacionado à sustentabilidade da produção, à saúde dos animais, à segurança dos alimentos e ao futuro da nossa atividade”, ressaltou.

PROGRAMAS SANITÁRIOS

O médico-veterinário Dr. Everson Zotti apresentou o módulo A Base de Qualquer Programa, propondo uma revisão dos conhecimentos que devem anteceder a definição de um tratamento antimicrobiano. A apresentação percorreu conceitos relacionados às bactérias Gram-positivas e Gram-negativas, antimicrobianos bactericidas e bacteriostáticos, imunidade, farmacocinética, farmacodinâmica, efeito pós-antibiótico, interações entre medicamentos e aspectos relacionados à administração oral.

Dr. Zotti salientou que a antibioticoterapia permanece como um tema estratégico para a suinocultura e exige conhecimento técnico antes da tomada de decisão no campo. Entre os pontos apresentados, destacou que, antes da prescrição de qualquer antimicrobiano, é necessário confirmar o diagnóstico e o agente envolvido, avaliar a presença de processo inflamatório ou febre e considerar a condição imunológica do animal.

A importância do tema também foi contextualizada a partir das crescentes exigências internacionais relacionadas ao uso de antimicrobianos. Dr. Zotti apresentou como exemplo as determinações da União Europeia para a cadeia produtiva brasileira, sublinhou que os questionamentos recentes possuem caráter regulatório e documental, relacionados às garantias oficiais, fiscalização e certificação do uso dessas substâncias, e não à detecção de resíduos de antibióticos na carne brasileira. Para ele, o cenário demonstra que a gestão dos antimicrobianos ultrapassa a rotina sanitária das granjas e passa a ter implicações também para o posicionamento do País no comércio internacional.

Outro ponto abordado foi a associação entre diferentes antimicrobianos. Zotti explicou que a combinação pode resultar em sinergismo, antagonismo ou indiferença, dependendo do mecanismo de ação, do patógeno e da concentração do medicamento no local da infecção. Por isso, as associações devem ter um propósito definido, como ampliar o espectro de ação, buscar sinergismo ou reduzir o risco de resistência, sem substituir ferramentas fundamentais como o diagnóstico e o antibiograma.

Na sequência, médico veterinário Dr. Edison Magalhães, professor assistente do Departamento de Ciência Animal da Iowa State University, conduziu o módulo Inteligência Sanitária e Diagnóstico, direcionando a discussão para a construção de sistemas de monitoramento capazes de transformar informações sanitárias em decisões práticas. Magalhães partiu de uma questão central: não só identificar se determinado agente está presente, é necessário compreender sua dinâmica dentro do sistema produtivo, seu impacto e definir previamente quais medidas serão adotadas diante de cada resultado.

O Dr. Magalhães utilizou como principal referência a experiência dos Estados Unidos com a Síndrome Reprodutiva e Respiratória dos Suínos (PRRS). Segundo ele, a complexidade da doença, marcada pela persistência do vírus, elevada diversidade genética, circulação em baixa prevalência e alto impacto econômico, obrigou a suinocultura norte-americana a desenvolver uma estrutura robusta de monitoramento e vigilância. Embora o Brasil não tenha PRRS, o especialista realçou que o conhecimento e as ferramentas construídos a partir desse desafio podem ser transferidos para agentes presentes na produção brasileira.

“Toda essa cultura é criada a partir do diagnóstico e de entender a circulação do agente dentro do sistema. É isso que queremos trazer para o Brasil e discutir como esse conceito pode ser aplicado à suinocultura brasileira”, destacou. Para Magalhães, essa estrutura permite avançar de coletas pontuais para uma visão longitudinal da sanidade, acompanhando os agentes ao longo do tempo e gerando informações sobre sua atividade, impacto econômico e necessidade de intervenção.

Para aproximar essa abordagem da realidade brasileira, Magalhães apresentou a ileíte como exemplo de enfermidade na qual o momento da coleta pode ser determinante. Dados discutidos durante a palestra demonstraram que os suínos podem estar infectados e apresentar perdas produtivas mesmo sem sinais clínicos evidentes. Com o avanço do tempo, a excreção do agente pode diminuir até não ser mais detectada, embora o prejuízo produtivo já tenha ocorrido. Dessa forma, explicou, o monitoramento precisa acompanhar a janela biológica da doença, em vez de ocorrer somente como resposta ao aparecimento de sinais clínicos.

O terceiro módulo foi conduzido pelo médico-veterinário Dr. Augusto Heck, que abordou a construção de programas sanitários factíveis e fez uma análise crítica sobre a adoção de protocolos de amplo espectro. O palestrante explicou que a percepção de que uma maior cobertura aumenta as chances de sucesso pode ser enganosa. Embora os animais possam apresentar uma resposta inicial, o tratamento sem diagnóstico pode ocultar problemas subjacentes e fazer com que os sistemas produtivos permaneçam dependentes de protocolos que nem sempre têm sua eficácia devidamente avaliada.

Entre os principais riscos, Heck destacou a pressão de seleção para resistência aos antimicrobianos e o desequilíbrio da microbiota. Ao atingir não somente o patógeno de interesse, mas também outros microrganismos, o amplo espectro pode favorecer a seleção e a transferência de genes de resistência. Também pode eliminar bactérias benéficas da microbiota intestinal, contribuindo para disbiose, problemas pós-tratamento e reflexos sobre indicadores zootécnicos, como conversão alimentar e ganho de peso.

Heck também chamou a atenção para erros relacionados à dose, duração e via de administração. Segundo ele, tanto a subdosagem quanto o uso inadequado podem favorecer a seleção de bactérias resistentes. Ao mesmo tempo, doses excessivamente elevadas e utilizadas por períodos prolongados também podem trazer consequências, incluindo toxicidade, comprometimento da resposta imune e desequilíbrio da microbiota. Por isso, ressaltou que o uso responsável depende do conhecimento das características de cada princípio ativo e da estratégia terapêutica adotada.

Os impactos, conforme apresentou, ultrapassam a granja. O uso imprudente pode resultar em retratamentos, aumento da mortalidade e dos descartes, perda de desempenho e elevação do custo de produção, além de trazer implicações para a saúde pública, o meio ambiente e o acesso aos mercados. Heck lembrou que países como China, Japão e integrantes da União Europeia já demandam rastreabilidade no uso dos antimicrobianos e que essa responsabilidade envolve empresas, produtores e médicos-veterinários.

Como alternativa, o especialista apresentou cinco pilares para o uso responsável dos antimicrobianos: diagnóstico preciso, escolha criteriosa, prevenção, monitoramento e educação continuada. O ponto de partida, segundo ele, deve ser a identificação correta do problema, com ferramentas como coleta de material, cultura e isolamento, antibiograma e, preferencialmente, determinação da Concentração Inibitória Mínima (MIC), além de recursos complementares como histopatologia e necropsia. “Sem isso, estamos, na verdade, dando um chute técnico qualificado”, observou ao defender decisões respaldadas por evidências.

Encerrando a programação da manhã, o gerente corporativo de Suinocultura da Aurora Coop, Luiz Carlos Giongo, ministrou o módulo Farmacoeconomia e Monitoramento, com uma abordagem voltada à relação entre sanidade, desempenho produtivo e resultado econômico. O palestrante demonstrou que avaliar um programa sanitário exige ir além do preço dos medicamentos, acompanhando os resultados dos tratamentos e mensurando seus impactos sobre o desempenho dos animais e a rentabilidade da produção.

Giongo destacou que os produtos veterinários representam uma parcela pequena do valor total da atividade. Dados apresentados durante a palestra indicaram participação próxima de 5% no custo de produção, enquanto a alimentação concentra a maior parcela dos gastos. Nesse contexto, chamou a atenção para a necessidade de mudar a lógica de análise: em vez de perguntar somente qual medicamento é mais barato ou como reduzir o custo da farmácia, é necessário avaliar os impactos provocados pela doença e verificar se existem informações suficientes para sustentar a tomada de decisão.

“Precisamos acompanhar o resultado dos tratamentos ou dos produtos veterinários utilizados na criação, se eles realmente estão entregando o resultado desejado e proporcionando a condição de equilíbrio sanitário que precisamos”, explicou. Segundo Giongo, essa avaliação completa deve considerar não apenas o medicamento e sua aplicação, mas também possíveis retratamentos, mortalidade, descartes e refugos, redução do ganho de peso, atraso no abate, piora na conversão alimentar e condenações no frigorífico.

Para demonstrar a diferença entre preço de compra e custo efetivo de um tratamento, o palestrante apresentou comparativos entre medicamentos e exemplos reais de campo. “O produto mais barato na compra nem sempre é aquele que apresenta o melhor resultado final”, ressaltou. A escolha, segundo ele, precisa considerar o agente envolvido, a estratégia terapêutica, a via de administração, a dose, a necessidade efetiva do tratamento e informações provenientes do diagnóstico e do antibiograma.

Um dos casos apresentados envolveu um surto de pleuropneumonia suína (Actinobacillus pleuropneumoniae - APP) em uma unidade de produção, no qual foram comparados seis meses de ocorrência da doença com o período anterior. Ao incorporar perdas de desempenho, mortalidade, condenações ao abate, medicamentos, vacinação e mão de obra, os impactos chegaram a aproximadamente R$ 115,4 mil em um lote de 2.300 animais, ressaltando como o custo de uma enfermidade ultrapassa significativamente aquilo que aparece na conta da farmácia.

Para Giongo, entretanto, o melhor resultado começa antes da necessidade de recorrer a tratamentos. Biosseguridade, manejo adequado, vacinação, instalações, ambiência, nutrição e equilíbrio sanitário contribuem diretamente para reduzir a ocorrência de enfermidades e, consequentemente, a necessidade de produtos curativos. Quando o tratamento é necessário, destacou, ele precisa ser realizado corretamente. “Tem que usar o produto certo, na hora certa e na dose certa. Se utilizarmos uma subdose, tratarmos de forma inadequada ou escolhermos o produto errado, podemos precisar tratar novamente, aumentando o desperdício, o custo e até o risco de resistência”, afirmou.

Ao concluir, o palestrante comentou que reduzir o uso de antibióticos é resultado da construção de equilíbrio no sistema produtivo, e não da retirada dos medicamentos. Diagnóstico adequado, prevenção, monitoramento e escolha criteriosa das intervenções permitem conciliar saúde animal, eficiência produtiva e resultado econômico. “O melhor tratamento não é o mais barato na compra do produto. É aquele que entrega o maior retorno sanitário, produtivo e econômico, com uso responsável e monitorado”, finalizou.

PROGRAMAÇÃO GERAL

• 18º Simpósio Brasil Sul de Suinocultura

• 17ª Brasil Sul Pig Fair

TERÇA-FEIRA (11/08/2026)

14h50 às 15h20 – Fluxo Produtivo: Da Matriz ao Abate (Visão da Nutrição)

Palestrante: Cesar Augusto Pospissil Garbossa

15h25 às 15h55 – Mesa Redonda

16h00 às 16h30 – Coffee break

16h30 às 17h10 – O Futuro da Proteína Suína

Palestrante: Luis Rua

17h10 às 17h30 – Perguntas

17h30 – Solenidade de Abertura Oficial do SBSS

18h30: Palestra de Abertura: A Nova Geopolítica dos Alimentos: Impactos nas proteínas animais e na suinocultura.

Palestrante: Marcos Jank

20h00: Coquetel de Abertura na PIG FAIR

QUARTA-FEIRA (12/08/2026)

Painel Biovigilância - Gestão Integrada

08h00 às 8h40: Biomanagement e Defesa Sanitária: Estratégias de Mitigação

Palestrante: Jordi Baliellas Capdevila

08h45 às 09h15: Vigilância e controle de Vetores: Roedores e Insetos como disseminadores de Patógenos

Palestrante: Alisson Mezzalira

09h20 as 09h50 - Mesa Redonda

09h50 às 10h20: Coffee Break

Painel Alimentação - Desafios e Oportunidades

10h20 às 10h50 – Eixo Imuno-Nutricional: Programação Metabólica da Matriz ao leitão

Palestrante: Jose Soto

10h55 às 11h25 – Imunonutrição: Estratégias Não Farmacológicas para a Resiliência Sanitária

Palestrante: Andres Gomez

11h30 às 12h00: Vigilância Analítica e Gestão de Micotoxinas: Estratégias para Blindar a Performance e a Sanidade

Palestrante: Ricardo Rauber

12h00 às 12h30 – Mesa Redonda

12:30 às 14h00 – Intervalo para almoço

12h30 às 13h30 – Eventos Paralelos

Painel Sanidade - Saúde Respiratória

14h00 às 15h00 – Erradicação de M. hyopneumoniae: Protocolos de Exposição, Estabilização e Eliminação

Palestrantes: Gustavo Silva e Paul Yeske

15h00 às 15:30 – Sincronia Sanitária: O Impacto da Aclimatização de Leitoas na estabilidade do plantel

Palestrantes: Luciano Brandalise

15h30 às 16h00: Coffee Break

16h00 às 16h40 – Influenza em Foco: Impactos e alternativas de controle

Palestrante: Ricardo Yuti Nagae

16h45 às 17h25 – Ambiência 4.0: Conectividade, Bem-Estar e Eficiência Energética na Suinocultura

Palestrante: Lederson Trindade de Lima

17h35 às 18h00 – Mesa Redonda

18h30 às 19h30 – Evento Paralelo Exclusivo (MSD)

20h00: Happy Hour na PIG FAIR

QUINTA-FEIRA (13/08/2026)

08h30 às 09h10 – Alimentação de Precisão: Sensores, Conectividade e Eficiência Nutricional

Palestrante: Bruno Silva

09h10 às 09h30 – Perguntas

9h30 às 10h00 – Coffee Break

Painel Pessoas - Gestão e Performance

10h00 às 10h30 – Percepção vs. Realidade: Comunicação Estratégica para Mitigar Erros e Maximizar Resultados

Palestrante: Creici Lamonato

10h35 às 11h05 – Capital Humano e Sucessão: Preparando a Próxima Geração e as Equipes de Alta Performance

Palestrante: Rogério Facin

11h10 às 11h40 – O Apagão de Mão de Obra e o Desafio da Qualificação

Palestrante: Anderson Queirós

11h45 às 12h15 – Mesa Redonda

12h15 – Sorteio de brindes e encerramento

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