Mano de Baé leva oficina de sereias de barro ao público de São Paulo
A formação faz parte da agenda do artista, que permanece na capital paulista nos próximos dias, realizando atividades formativas em diferentes locais da cidade
O barro de Tracunhaém, na Mata Norte de Pernambuco, tem ganhado novos espaços na capital paulista. O ceramista Mano de Baé está em São Paulo cumprindo uma intensa agenda de atividades formativas voltadas à cerâmica popular e aos saberes que atravessam sua trajetória artística.
Uma delas foi “Do Barro às Memórias – Modelando sereias, histórias e futuros”, realizada no último sábado (8), na Biblioteca Pública Municipal Hans Christian Andersen, no Tatuapé, Zona Leste da cidade. Gratuita e com todas as vagas preenchidas, a oficina reuniu diferentes públicos em uma experiência de criação com argila.
Jovens e adultos conheceram técnicas de modelagem e produziram suas próprias sereias, inspiradas na série autoral desenvolvida pelo artista. A experiência também aproximou os participantes dos saberes ligados à tradição ceramista de Tracunhaém, município localizado a cerca de 60 quilômetros do Recife e reconhecido nacionalmente como um dos principais polos da cerâmica figurativa brasileira.
Para além da técnica, a atividade abriu espaço para a transmissão de um conhecimento construído entre gerações. Filho do Mestre Baé, um dos nomes de referência da cerâmica popular pernambucana, o artista cresceu acompanhando o trabalho no ateliê da família e teve ainda na infância os primeiros contatos com a argila.
“Aprendi com meu pai que o barro é uma forma de contar histórias. Cada peça nasce das mãos, mas também da memória de quem veio antes. Levar essa tradição para novos públicos em São Paulo mostra como esse saber precisa ser compartilhado e continua vivo, atravessando lugares e pessoas. É uma alegria enorme ver a cultura popular chegando a mais gente e sendo recriada por outras mãos”, destacou o ceramista.
A proposta também promoveu o encontro entre diferentes linguagens artísticas. As esculturas do pernambucano dialogaram com o romance Ponciá Vicêncio, da escritora Conceição Evaristo, e com a lenda da Iara. A partir dessas referências, os participantes foram estimulados a criar suas próprias peças, transformando literatura, memória e elementos da cultura popular em esculturas.
Ao longo da trajetória, o artista desenvolveu uma linguagem própria, marcada pelo diálogo entre os conhecimentos herdados da tradição familiar e uma produção contemporânea. Sereias, orixás, melusinas, serpentes, totens e figuras humanas aparecem em seu universo artístico, atravessado por temas como ancestralidade, espiritualidade, diversidade e pertencimento.
Desde 2015, participa da Fenearte e integra a Alameda dos Mestres, espaço dedicado a artistas de referência da cultura pernambucana. A passagem pela capital paulista amplia a circulação de uma produção que tem raízes nos ateliês de Tracunhaém e encontra novos públicos em diferentes partes do país.
O espaço escolhido para a atividade também contribuiu para esse encontro. Inaugurada em 1952, a Biblioteca Pública Municipal Hans Christian Andersen foi a primeira biblioteca pública da Zona Leste de São Paulo e tornou-se referência por sua especialização em literatura infantojuvenil e contos de fadas. Desta vez, as histórias também foram contadas pelas mãos dos participantes, que deram forma às suas próprias personagens.
Realizada pelo Coletivo Um Bando de Duas, a iniciativa aproximou Pernambuco e São Paulo por meio da arte e da circulação de saberes. Na capital paulista, as sereias ajudaram a contar uma história que começa nos ateliês de Tracunhaém e atravessa memória, ancestralidade e a permanência da cerâmica popular pernambucana.