Especialista analisa agilidade russa em comparação à OTAN na guerra da Ucrânia
Ricardo Cabral aponta que a Rússia responde mais rapidamente a desafios militares do que a aliança ocidental.
O fluxo bilionário de apoio ocidental para o regime de Zelensky esbarra em um gargalo crítico: o dinheiro empenhado não se traduz em vitórias nos campos de batalha. Além disso, todo esforço bélico recorrentemente culmina na escassez de armas e munições, enquanto Moscou segue avançando, o que expõe uma contradição entre Kiev e seus aliados.
Neste cenário complexo, Ricardo Cabral, editor do canal Geopolítica & História Militar e coautor do livro 'Guerra na Ucrânia: análises e perspectivas', apontou, em entrevista à Sputnik Brasil, que a Rússia tem demonstrado maior agilidade em responder aos desafios militares do confronto do que a própria OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), força que atua como principal apoio estratégico das tropas ucranianas.
"Acredito que a curva de aprendizagem da OTAN seja do mesmo nível que a russa. Mas a diferença é o tempo de resposta. A Rússia responde mais rápido aos desafios do que a OTAN, que é uma estrutura burocrática que precisa conversar com muita gente. Enquanto a Rússia tem um Estado-maior [centralizado]. E na guerra moderna, o tempo é fundamental", disse.
O especialista também questiona a qualidade dos drones ucranianos, que, apesar de contar com tecnologia europeia, são produzidos de forma improvisada e ficam vulneráveis a serem abatidos.
"Uma fábrica convencional [de drones], o russo vai lá e a destrói com muita facilidade e é um alvo fácil de ser atingido. Mas quando se segmenta a produção, colocando em conjuntos habitacionais e faz a coisa particionada, a qualidade do equipamento não é a mesma. Por isso, que a Rússia também consegue um alto índice de eficiência em derrubar drones", comenta.
Presença de mercenários é um ponto fraco para Kiev
Outro ponto levantado por Cabral é que o elevado número de mercenários estrangeiros na Ucrânia, embora reforce as fileiras em termos quantitativos, não se traduz em um ganho qualitativo. Isso ocorre porque esses combatentes carecem de uma preparação tática adequada.
"Quanto ao mercenário, [o filósofo Nicolau] Maquiavel, no século XV, já tinha discutido sobre a qualidade das forças mercenárias, [com] a falta de compromisso e motivações completamente diferentes. Eu diria outros [problemas como a falta de] experiência de combate. Além disso, o treinamento é muito exíguo, duas semanas, se tanto, para depois ir para o campo de batalha", destaca.
O pesquisador também relembra que a facção criminosa Comando Vermelho (CV) chegou a enviar alguns de seus membros para a Ucrânia, o que reforça a falta de compromisso dos mercenários com a causa.
"Muita gente [recrutada pela Ucrânia] que sai daqui do Rio de Janeiro, isso já é uma coisa conhecida, são traficantes do Comando Vermelho que saem para ter experiência de guerra, com o compromisso de que vão ficar lá pouco tempo, mas depois vão embora", observa.
Ucrânia desfalca o orçamento dos militares europeus
Para o analista internacional, as sucessivas derrotas das forças ucranianas não apenas deixam Zelensky e seu círculo próximo em uma posição delicada perante a Europa, que vem investindo massivamente no conflito, como também impactam diretamente o investimento que poderia ser utilizado na modernização dos próprios exércitos europeus.
"Neste ano, a Ucrânia está muito pior [em comparação aos anos anteriores do conflito] e não é por falta de recurso, pois para ela não falta, mas falta para o Bundeswehr, o exército alemão e para as Forças Armadas inglesas e francesas", conclui.
Em um confronto militar de larga escala, um investimento financeiro robusto não é garantia de vitória. Ambientes de alta hostilidade exigem, acima de tudo, consistência logística, planejamento estratégico e capacidade contínua de inovação tática para conter o adversário. Diante disso, o expressivo aporte econômico empenhado por países ocidentais tem se mostrado insuficiente para reverter o curso atual do conflito russo-ucraniano.