AVIAÇÃO

Anac foi alertada sobre falhas na Voepass antes do acidente, aponta TV

Ex-funcionário da Anac denunciou irregularidades de manutenção na companhia aérea anos antes do trágico ocorrido.

Por Estadao Conteudo Publicado em 09/08/2026 às 22:18
Voepass Reprodução

Anos antes do acidente do avião da Voepass, que vitimou 62 pessoas em Vinhedo (SP) em agosto de 2024, a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) já havia sido alertada sobre graves falhas de manutenção nas operações da companhia aérea, conforme uma reportagem do Fantástico. Desde 2019, um ex-inspetor do órgão regulador denunciou, segundo o programa da TV Globo, o reaproveitamento irregular de peças sem laudo de segurança e a falta de aeronavegabilidade das aeronaves da empresa. Ao invés de suspender as operações da Voepass, a Anac teria ignorado as recomendações e exonerado o agente.

O Estadão não conseguiu localizar as assessorias de imprensa da agência e da Voepass na noite deste domingo. Ao Fantástico, a Anac informou que abrirá um processo interno para averiguar a responsabilidade dos servidores. A companhia aérea, também à TV, reafirmou que a segurança era uma prioridade da empresa.

O ex-funcionário está movendo uma ação judicial contra a Anac, relatando as falhas e alegando perseguições por parte de dirigentes da companhia.

A Polícia Federal, na conclusão do inquérito na semana passada, citou suspeitas de falhas na fiscalização, mas não indiciou funcionários da Anac. A responsabilidade da agência ainda será investigada pelas autoridades federais.

Documentos obtidos pelo Fantástico revelam que um ex-inspetor da Anac, que foi exonerado em 2025 após 16 anos de serviço, já alertava sobre falhas graves na Voepass e reclamava de perseguições por parte de dirigentes da agência reguladora.

Ele recomendou, em 2019, a suspensão da autorização de voo da MAP Linhas Aéreas (que se fundiu à Passaredo para criar a Voepass). O motivo, segundo a reportagem, seriam evidências de que peças estavam sendo utilizadas pela companhia sem a devida avaliação de aeronavegabilidade. De acordo com esse inspetor, essa recomendação não foi seguida pela agência.

Em 2022, houve uma nova denúncia. O então inspetor alertou que peças de um avião que sofreu um acidente em Rondonópolis, Mato Grosso, em 2016, teriam sido reaproveitadas ilegalmente. A Anac afirmou à TV Globo que houve verificação das peças na época e a conclusão foi de que as normas regulatórias eram seguidas.

Ele também enviou e-mails para órgãos internacionais, como a FAA e EASA, agências dos Estados Unidos e da União Europeia, respectivamente. No entanto, a Anac desautorizou o inspetor perante essas agências, fazendo com que ele respondesse a um processo interno por insubordinação em 2023, culminando em sua exoneração após 16 anos de trabalho na agência.

Testemunha citou suspeita de propina à Anac

Na semana passada, a PF informou que um mecânico de pista da Voepass – testemunha na investigação – mencionou a suspeita de pagamento de propina pela Voepass a funcionários da Anac. Segundo o relato, ele estranhou a suspensão de sua carteira de autorização de trabalho, mesmo após ter sido aprovado em um curso de reciclagem exigido. Para o mecânico, a motivação seria a intenção de removê-lo da pista por “criar muito caso”, já que se recusava a liberar aviões que supostamente apresentavam problemas.

A Polícia Federal vai encaminhar a íntegra da investigação à Procuradoria da República no Distrito Federal (MPF) para que a prática de eventuais atos de improbidade administrativa por integrantes da agência seja apurada.

Conforme aponta o relatório, a investigação detectou que a agência havia encontrado, antes do acidente, “diversas não conformidades técnicas e não procedimentais relacionadas à manutenção das aeronaves” da companhia.