PERFIL | SOLIDARIEDADE

Muito além da polêmica: Valadares transforma influência nas redes em ações sociais em Rio Largo

Presidente da Associação de Moradores do Conjunto Tavares Granja e criador do perfil @falavaladarez, que reúne 50,6 mil seguidores, líder comunitário mostra à Tribuna do Sertão a cozinha comunitária e conta uma trajetória de mobilização iniciada durante a enchente de 2010

Por Redação Publicado em 09/08/2026 às 16:03
Márcio Valadares, o Valadares, é presidente da Associação de Moradores do Conjunto Tavares Granja, em Rio Largo, e utiliza as redes sociais para mobilizar campanhas e ações solidárias na comunidade

RIO LARGO — Uma polêmica recente envolvendo um motorista de aplicativo colocou o nome de Márcio Valadares, mais conhecido simplesmente como Valadares, no centro das discussões nas redes sociais. Vídeos, comentários e opiniões fizeram o episódio ganhar dimensão muito além de Rio Largo. Passada a repercussão inicial e após um entendimento entre os envolvidos, a Tribuna do Sertão foi ao município conhecer um outro aspecto da trajetória de uma figura que já tinha expressiva presença pública na cidade antes do episódio.

Valadares é líder comunitário, presidente da Associação de Moradores do Conjunto Tavares Granja e criador de conteúdo nas redes sociais. No Instagram, mantém o perfil @falavaladarez, que, de acordo com os números apresentados à reportagem, possui cerca de 50,6 mil seguidores.

A dimensão desse público chama a atenção quando comparada ao tamanho do próprio município. Rio Largo tem 97.658 habitantes na estimativa populacional do IBGE para 2025. No Censo de 2022, eram 93.927 moradores. O número de seguidores de Valadares corresponde, portanto, a um contingente equivalente a aproximadamente 52% da população municipal, embora seu público nas redes, naturalmente, não seja formado apenas por moradores da cidade.

Mas é fora da tela do celular que Valadares quis mostrar à reportagem uma parte de sua atuação.

A entrevista aconteceu em uma cozinha comunitária mantida por ele em Rio Largo. Panelas, utensílios e o espaço utilizado para preparação de alimentos fazem parte de uma estrutura que, segundo o líder comunitário, serve de base para sopas solidárias, ceias de Natal e outras iniciativas realizadas durante o ano.

O local também funciona como ponto de articulação de campanhas para arrecadar e encaminhar alimentos, roupas, móveis, fraldas, cadeiras de rodas, cadeiras de banho e outros produtos destinados a pessoas em situação de vulnerabilidade.

A história que Valadares conta para explicar como chegou até ali começa muito antes das redes sociais alcançarem a importância que possuem hoje.

Uma enchente e o início de uma trajetória


Valadares situa o início de sua atuação comunitária em 2010, ano em que uma das maiores enchentes da história recente de Alagoas atingiu diversos municípios e provocou destruição também em Rio Largo.

Naquele período, ele morava na Ilha Angelita, comunidade localizada em uma área atingida pelas águas. Assim como inúmeras outras famílias, teve de abandonar a residência.

Sem casa, passou a conviver com pessoas que enfrentavam a mesma situação.

Segundo seu relato, foi durante a permanência em um abrigo improvisado em uma escola que percebeu que as doações que chegavam precisavam ser organizadas para evitar que o desespero das famílias prejudicasse justamente aqueles que se encontravam em situação mais vulnerável.

“As pessoas estavam assustadas e começaram a brigar pelas doações. Foi naquele momento que pensei: alguém precisava organizar aquilo. Então resolvi assumir essa responsabilidade.”

Valadares conta que começou a ajudar na organização da cozinha e na separação dos donativos. Alimentos, roupas e outros produtos passaram a ser distribuídos seguindo critérios de prioridade.

Idosos, crianças e mães com bebês, segundo ele, estavam entre aqueles que precisavam receber atenção especial.

A experiência ganhou um significado ainda mais forte porque Valadares também era vítima da tragédia.

Não se tratava, naquele momento, de alguém que chegava de fora para prestar assistência aos desabrigados. Ele próprio estava entre eles.

“Eu estava ajudando a mim mesmo. Já conhecia a fome, a solidão, a rejeição e o abandono. Cuidar das pessoas também me fazia seguir em frente.”

Quase dois anos debaixo de lona


O fim da enchente não significou uma rápida volta à normalidade.

Valadares relata que, depois da saída dos primeiros abrigos, passou quase dois anos vivendo em barracas de lona instaladas no Campo do Progresso, ao lado de outras famílias que aguardavam uma solução habitacional definitiva.

Foi durante esse período que sua participação na organização comunitária aumentou.

Ele passou a atuar como cozinheiro voluntário e a participar da rotina de organização do espaço ocupado pelas famílias.

A convivência diária com os desabrigados, segundo conta, fez surgir uma espécie de liderança construída muito mais pela necessidade prática daquele momento do que por qualquer projeto previamente estabelecido.

Posteriormente, as famílias foram transferidas para novas moradias.

Valadares afirma que houve um entendimento para que a ocupação das casas fosse antecipada, mesmo antes da conclusão de toda a infraestrutura prevista para a área.

Com o início daquela nova etapa, surgiu também a necessidade de organização dos moradores.

Ele passou a integrar formalmente a associação comunitária. Primeiro ocupou a função de tesoureiro. Depois, foi eleito presidente.
Atualmente, Márcio Valadares preside a Associação de Moradores do Conjunto Tavares Granja, em Rio Largo.

Uma cozinha que virou ponto de solidariedade


Anos depois da enchente que marcou o começo dessa história, a comida continua no centro de parte das ações desenvolvidas pelo líder comunitário.

A diferença é que as refeições deixaram de ser preparadas em uma estrutura improvisada de atendimento a desabrigados e passaram a sair de uma cozinha comunitária organizada para ações solidárias.

É ali que são produzidas, segundo Valadares, refeições utilizadas em diferentes iniciativas.

Uma das mais conhecidas é a distribuição de sopa para famílias da comunidade. O espaço também serve de suporte para eventos beneficentes e para a preparação de ceias destinadas a pessoas em situação de vulnerabilidade.

No período natalino, por exemplo, a proposta é alcançar também idosos que vivem sozinhos e famílias que não teriam condições de preparar uma ceia.

Mas a cozinha acabou assumindo uma função que vai além do preparo de alimentos.

O espaço se tornou uma espécie de ponto de referência para quem tem alguma coisa para doar e também para quem procura auxílio.
Roupas que não são mais utilizadas, móveis, utensílios domésticos, fraldas, cadeiras de banho e cadeiras de rodas estão entre os materiais que, segundo ele, já passaram pelas campanhas realizadas com auxílio de seus seguidores.

E algumas dessas conexões são feitas praticamente em tempo real pelas redes sociais.

Durante reportagem, moradora agradece cesta básica


Uma dessas situações ocorreu justamente enquanto a equipe da Tribuna do Sertão realizava a reportagem.

Uma moradora chegou ao local para agradecer pela cesta básica que havia recebido em decorrência de uma mobilização feita por Valadares.

Segundo ele, o processo começou quando uma seguidora entrou em contato dizendo que gostaria de ajudar uma família com alimentos, mas não sabia quem efetivamente estava precisando.



Valadares indicou uma beneficiária.


A doação, conforme explicou, foi então realizada diretamente da doadora para a família atendida.

É justamente esse formato que ele diz procurar adotar nas campanhas realizadas pelas redes sociais: apresentar a necessidade, localizar quem deseja contribuir e aproximar as duas partes.

Redes sociais viraram instrumento de mobilização


Se a enchente de 2010 marcou o começo de sua atuação presencial como liderança comunitária, as redes sociais ampliaram significativamente o alcance das campanhas.

Hoje, Valadares utiliza o perfil @falavaladarez não apenas para produzir conteúdo e comentar assuntos do cotidiano da cidade, mas também para divulgar pedidos de ajuda.

Com 50,6 mil seguidores, seu perfil se transformou em um canal capaz de dar visibilidade rapidamente a uma determinada situação.

Os pedidos são variados.


Há campanhas para arrecadar alimentos e roupas, localizar móveis para famílias que estão montando novamente suas casas, conseguir cadeiras de rodas e cadeiras de banho, obter fraldas e outros produtos.

Também aparecem pedidos relacionados a medicamentos e tratamentos de saúde, além de mobilizações envolvendo animais.
Valadares afirma que procura evitar a intermediação de valores quando as campanhas envolvem dinheiro.

Nesses casos, segundo ele, os dados para contribuição são os da própria pessoa ou família beneficiada, permitindo que o seguidor faça a transferência diretamente a quem necessita.

Ele resume essa relação com uma frase que passou a utilizar para definir seu trabalho:

“Eu sou a ponte que alcança vidas, e meus seguidores são os anjos que atravessam essa ponte.”

Para Valadares, é justamente essa capacidade de mobilização que transformou seu número de seguidores em algo mais importante do que uma métrica de popularidade digital.

A rede, afirma, pode ser acionada quando uma família perde alguma coisa, quando alguém precisa de alimento ou quando surge uma necessidade que não pode esperar pelos caminhos tradicionais de assistência.

Tudo começou com um pedido de ajuda


Valadares também guarda na memória o momento em que percebeu que as redes sociais poderiam cumprir esse papel.

Segundo ele, conheceu uma mulher que enfrentava dificuldades para garantir alimentação para os três filhos.

Queria ajudá-la, mas não tinha condições financeiras de resolver sozinho o problema.

A alternativa encontrada foi gravar um vídeo.

No conteúdo, contou a situação e pediu ajuda aos seguidores.

A resposta o surpreendeu.

Vieram alimentos, roupas, móveis e outros objetos destinados à família.

A experiência mostrou que, embora uma pessoa isoladamente pudesse não ter condições de solucionar uma situação de vulnerabilidade, dezenas ou centenas de pessoas mobilizadas poderiam produzir um resultado diferente.

A partir daí, segundo Valadares, os pedidos de solidariedade passaram a fazer parte de maneira permanente de seu conteúdo.

Do assistencial ao cultural

As iniciativas desenvolvidas por Valadares não se restringem à assistência material.

A programação organizada pela associação e pelos colaboradores também inclui atividades de lazer e manifestações culturais.
Uma delas é o Arraiá do Valadares, realizado durante o período junino.

O evento reúne distribuição gratuita de comidas típicas, apresentações de quadrilhas juninas, grupos culturais e artistas locais.
Há ainda sorteios de brindes obtidos por meio de parcerias e doações do comércio.

A intenção, segundo Valadares, é proporcionar à própria comunidade um evento que reúna moradores e preserve as tradições juninas.
Outras iniciativas foram incorporadas ao calendário.

Há brechós solidários, distribuição periódica de sopa, atividades no Dia das Crianças e ações especiais no período do Natal.

Cada evento, explica, depende da capacidade de mobilização de voluntários, moradores, comerciantes e seguidores.

Da comunidade para as redes — e das redes para a comunidade


A trajetória de Valadares acaba formando um movimento de mão dupla.

Ele começou participando da organização de pessoas atingidas por uma tragédia dentro da própria comunidade. Anos depois, passou a utilizar uma audiência digital que ultrapassa dezenas de milhares de seguidores para mobilizar ajuda e fazer com que recursos obtidos fora da comunidade retornem para pessoas que necessitam deles.

É uma dimensão particular do fenômeno dos influenciadores digitais.

No caso de Valadares, a atuação nas redes se mistura à condição de líder comunitário e presidente de uma associação de moradores.
A exposição, naturalmente, também amplia a cobrança.

Quanto maior o alcance, maior a velocidade com que um episódio envolvendo aquela pessoa pode ganhar repercussão.
Foi o que aconteceu recentemente.

A polêmica que levou o nome de Valadares para além de Rio Largo

Nos últimos dias, um episódio envolvendo Valadares e um motorista de aplicativo ganhou forte repercussão nas redes sociais.

A discussão extrapolou o município, recebeu comentários de internautas e colocou o influenciador no centro de uma controvérsia.

De acordo com as informações apresentadas à reportagem, o caso terminou em entendimento entre os envolvidos, sem prosseguimento de medidas judiciais.

Durante a entrevista à Tribuna do Sertão, Valadares foi questionado sobre o episódio.

Ele reconheceu que, pela dimensão adquirida nas redes, aquela ocorrência passou a ser a referência mais recente para muitas pessoas que não conheciam sua trajetória anterior.

Para ele, porém, um episódio isolado não deve ser utilizado para resumir toda a história de uma pessoa.

Valadares afirma que também gostaria de ser conhecido pelo trabalho desenvolvido na comunidade e pelas ações que realiza desde a enchente de 2010.

O líder comunitário também diz compreender que a própria exposição pública faz com que suas atitudes sejam submetidas a um grau maior de avaliação.

Acima da liderança comunitária, da presidência da associação ou da atuação como criador de conteúdo, afirma existir uma pessoa sujeita a erros e acertos.

Uma história que não começou com a polêmica


Foi justamente esse outro aspecto que a Tribuna do Sertão buscou conhecer em Rio Largo.

A proposta da reportagem não é apagar, julgar ou substituir a discussão provocada pelo episódio recente, mas mostrar que a história de Márcio Valadares na cidade não começou com a polêmica que circulou nas redes sociais.

Há uma trajetória que, segundo seu relato, remonta à enchente de 2010; passou pela experiência de morar em barracas de lona; pela organização de famílias desabrigadas; pela atuação na associação de moradores; e chegou a uma cozinha comunitária de onde continuam saindo alimentos e campanhas de solidariedade.

Também há uma audiência digital de 50,6 mil seguidores, utilizada por Valadares como ferramenta para mobilizar doações e aproximar pessoas que podem ajudar daquelas que estão precisando.

No encerramento da entrevista, ele repetiu o convite que costuma fazer aos seguidores.

Quem tiver alimentos, roupas, móveis, utensílios ou equipamentos que não utiliza mais pode procurar a associação ou entrar em contato por meio do perfil @falavaladarez.

Para Valadares, o objeto parado na casa de alguém pode ter pouco valor para o proprietário, mas fazer diferença na vida de outra família.

Mais do que revisitar a controvérsia dos últimos dias, a reportagem encontrou em Rio Largo uma cozinha comunitária e uma rede de solidariedade que, segundo seu idealizador, começaram a ser construídas quando ele próprio perdeu a casa e precisou de ajuda.
Quase 16 anos depois da enchente de 2010, Valadares diz continuar tentando repetir, agora em outra escala, aquilo que aprendeu naquele momento: organizar quem pode ajudar para fazer a ajuda chegar a quem precisa.