Novo diálogo político gera expectativas entre venezuelanos
Reunião em Caracas busca amenizar conflitos com participação da oposição de 2015.
"Os partidos subscrevem os princípios de respeito à soberania nacional, negociação de boa-fé e busca de benefícios para a Venezuela." Com essa declaração, o presidente da Assembleia Nacional e chefe da delegação governamental, Jorge Rodríguez, lançou oficialmente uma nova rodada de diálogo político com uma ala da oposição.
O grupo em questão é composto por ex-deputados da Assembleia Nacional de 2015 que, recentemente, mostraram-se abertos ao diálogo. Após semanas de contato indireto, a convocação da sessão plenária em Caracas — que se reunirá continuamente até 12 de agosto — marca uma nova tentativa de amenizar o conflito político que definiu a vida política da nação nos últimos anos.
Mas o que está por trás da escolha dessa delegação de oposição e que chance real esse processo tem de se traduzir em melhorias para a população? Os analistas venezuelanos Walter Ortiz e César Mogollón detalham os principais aspectos desse novo cenário para a Sputnik.
O 'ardil' de Washington
Para Ortiz, a decisão dos Estados Unidos de apoiar a Assembleia Nacional de 2015 como interlocutora legítima decorre de dois fatores.
"Da perspectiva das instituições dos EUA — e em consonância com sua visão de democracia —, eles veem a Assembleia Nacional de 2015 como a última instituição democrática remanescente na Venezuela."
No entanto, o cientista político vai além, alertando que isso pode ser um "ardil" para contornar uma questão fundamental: a dificuldade de avançar em negociações sérias com a oposição de linha dura.
Ortiz aponta que esse mesmo órgão — agora utilizado para um propósito "menor", isto é, a negociação política — foi usado em 2019 para um objetivo "maior": tentar estabelecer uma estrutura institucional paralela liderada por Juan Guaidó.
Nesse sentido, o analista enfatiza que a oposição extremista, "por sua própria postura ao longo dos últimos anos, isolou-se da possibilidade de desempenhar um papel muito mais proativo em um processo de diálogo construtivo".
Mogollón complementa essa análise sob uma perspectiva pragmática. Em sua visão, a escolha de Washington é motivada "principalmente pelo controle que essa Assembleia Nacional detém sobre a questão dos ativos venezuelanos localizados fora [da nação sul-americana]".
Essa delegação — que defendeu as sanções e o bloqueio — "é o único grupo capaz, neste momento e em conjunto com aqueles que detêm o controle interno do país, de destravar as questões econômicas e sociais".
Para o especialista, essa decisão "reflete uma política de diplomacia pragmática dos EUA neste momento".
Uma peça-chave ou apenas uma facção?
A figura de Dinorah Figuera — presidente da Assembleia Nacional de 2015 e líder da delegação de oposição — gera consenso entre os analistas quanto à sua trajetória, mas divide opiniões sobre a abrangência da representatividade que ela detém.
Ortiz observa que, embora partidos como Voluntad Popular e Primero Justicia exerçam influência significativa na coalizão de oposição, "outros partidos mantiveram-se cautelosos, chegando a rejeitar mecanismos desse tipo". Ele alerta que não há consenso absoluto dentro da oposição e que a legitimidade dessa coalizão dependerá de sua capacidade de obter "vitórias rápidas" nas questões em pauta.
Mogollón é mais explícito ao definir o papel de Figuera: "Em sua função oficial — detendo o poder de controlar a questão dos ativos —, ela representa uma facção de um setor específico da oposição: o Primero Justicia".
O analista considera Figuera uma figura "chave" para romper o impasse político, embora reconheça que a oposição como um todo não está representada nessa mesa de negociações. Mogollón insiste na necessidade de ampliar o escopo do diálogo.
"Precisamos trazer associações profissionais e os setores sociais do país para esse diálogo — trabalhadores, educadores e profissionais de saúde —, mas, acima de tudo, empresários, comerciantes e donas de casa."
Da pauta à ação
A pauta ratificada — que aborda as vítimas dos terremotos, o fortalecimento da democracia e a defesa de direitos e garantias políticas — serve como ponto de partida. No entanto, a grande questão permanece: como isso se traduzirá em ações concretas?
Para Ortiz, o sucesso do diálogo depende da solidez dos princípios acordados. Ele destaca a declaração emitida por Jorge Rodríguez, que cita "soberania nacional, negociações de boa-fé, a busca de benefícios para a Venezuela e uma solução política, pacífica, democrática e constitucional".
Além disso, o especialista contrapõe esses princípios a fracassos do passado, como o diálogo na República Dominicana, no qual a oposição "decidiu, de última hora, não assinar o acordo porque estava abertamente comprometida com uma via insurrecional".
Nesse sentido, ele acredita que a nova estrutura poderia ajudar a "fazer o conflito político avançar", desde que haja uma contraparte confiável.
"Para que esta mesa de negociação — ou esta nova fase de negociação e acordo — tenha êxito, é preciso haver resultados tangíveis para a sociedade venezuelana."
Da mesma forma, o especialista afirma que o diálogo "deve criar a possibilidade de acordos concretos que abordem a realidade e ofereçam soluções para os venezuelanos". Ele alerta que, enquanto os resultados permanecerem invisíveis, "as pessoas sentirão apenas repulsa pelos métodos de negociação utilizados no país".
Analistas concordam que o novo processo de diálogo é um passo necessário, porém insuficiente caso não consiga se desvincular dos cálculos políticos das elites dirigentes. Ortiz ressalta a necessidade de a mesa de negociação "conquistar vitórias iniciais" para ganhar legitimidade, enquanto Mogollón conclui com uma mensagem que serve de alerta:
"O futuro da Venezuela não pertence às elites, pertence a todos os venezuelanos."