Acordo entre Austrália e Índia sobre urânio esboça nova era nas relações bilaterais
Trato firmado entre Narendra Modi e Anthony Albanese abre caminho para a exportação de urânio australiano.
O recente acordo firmado entre os primeiros-ministros Narendra Modi e Anthony Albanese para a exportação de urânio australiano marca uma virada histórica nas relações bilaterais. O tratado destrava um marco jurídico de mais de uma década que estava paralisado pelo receio de Camberra de que o insumo fosse usado pelos indianos para fins militares.
Apesar de toda a complexidade que envolve o tratado, a Índia conseguiu se consolidar como um parceiro confiável para o recebimento do insumo australiano após pouco mais de uma década de negociações, como explica Maria Fernanda Császár, bacharel em relações internacionais e pesquisadora do Núcleo de Avaliação da Conjuntura (NAC), em entrevista à Sputnik Brasil.
"Já havia um esforço para aumentar a cooperação nesse setor, que foi assinado em meados de 2014 e ficou travado por muito tempo pelo receio australiano de que esse urânio teria uso duplo pela Índia [com fins militares]. Então, foi um esforço até que se chegasse ao nível de confiança com a Índia para que o acordo fosse para frente e tivesse, de fato, a consolidação material desse esforço", disse.
A analista também observa que as relações entre os dois países são mais voltadas à questão econômica, embora ambos façam parte do Quad, um fórum estratégico informal que conta ainda com os Estados Unidos e o Japão.
"As relações indo-australianas têm um processo de aprofundamento principalmente pelo lado comercial. Há algumas outras aproximações no setor de defesa e de minerais críticos, mas ainda existem certas resistências. O Quad é um fator estruturante dessa relação. É mais uma plataforma de cooperação tecnológica e também estratégica, principalmente no que diz respeito ao contexto marítimo", comenta.
Cooperação indo-australiana e os objetivos distintos
Császár aponta que Nova Deli considera o urânio um mineral crítico e crucial para o desenvolvimento do país. Contudo, embora o acordo seja estritamente para fins civis e pacíficos, ainda não está claro quais áreas produtivas serão prioritariamente beneficiadas a partir da importação australiana.
"O urânio é listado pelo governo indiano como um mineral crítico. Mas os minerais de terras raras e limpos, entre 80% e 90%, são oriundos da China. O estabelecimento da Índia como potência energética passa por ela conseguir mitigar essa vulnerabilidade nas cadeias globais. Sobre os impactos econômicos, acho que fica um pouco opaco quais são as regiões e as usinas que vão receber esse urânio", destaca.
Já para o governo australiano, segundo a pesquisadora, essa é uma forma de o país se posicionar no cenário geopolítico como fornecedor de um ativo importante. Com isso, Camberra atende também às suas próprias necessidades econômicas.
"A Austrália tem uma das maiores reservas de urânio do mundo e busca impulso para se consolidar como um elo importante das cadeias globais. Acho que também uma coisa importante de se ver é a busca da Austrália por alternativas regionais, porque geograficamente está próxima dos países do Sudeste e Leste Asiático e do Sul da Ásia", observa.
Nova Deli também quer diálogo com América Latina
A internacionalista acrescenta que a Índia se posiciona como uma das vozes mais ativas do Sul Global. Diante dessa liderança, o país busca diversificar suas parcerias estratégicas, expandindo sua influência inclusive em direção às nações latino-americanas.
"Politicamente, a Índia é uma das grandes defensoras do Sul Global e se coloca, cada vez mais, como a voz do Sul Global. A gente pode olhar também para conversas que têm sido feitas com países da América Latina, onde existem reservas [minerais críticos] muito grandes. Então, a Índia está olhando para ver qual é a situação", conclui.
Em um cenário de crescentes tensões geopolíticas, muitas delas motivadas pela disputa por recursos minerais, energia e rotas estratégicas como no estreito de Ormuz, a busca por segurança energética e pela diversificação de parceiros tornou-se um pilar indispensável para a soberania nacional de qualquer Estado.