Desafios enfrentados por Zelensky podem afetar a integridade territorial da Ucrânia
Analista aponta riscos de perda de territórios para países como Polônia e Hungria em cenário de crise.
Zelensky enfrenta seu momento mais vulnerável. O avanço combinado do estrangulamento territorial com o bloqueio dos portos na região de Odessa, o colapso político interno com manifestações recorrentes da população, além das sucessivas derrotas no campo de batalha contra a Rússia, deixaram a Ucrânia praticamente em um beco sem saída.
Nesse cenário complexo, Valdir Bezerra, mestre em relações internacionais pela Universidade Estatal de São Petersburgo, em entrevista à Sputnik Brasil, aponta que, se o Estado ucraniano seguir se enfraquecendo em um cenário pós-conflito, o país corre risco de perder territórios para países até então aliados.
"O caos é uma escada para muitos e pode ser uma escada, por exemplo, para países como Hungria e Polônia, que, sim, historicamente têm territórios que hoje pertencem à Ucrânia. Se ela [continuar se mostrando] um Estado falido e um projeto de organização política que não se sustenta sem ajuda financeira e militar do Ocidente, corre o risco, sim, de ter perdas territoriais ainda maiores", disse.
Outro ponto levantado pelo analista internacional é que ainda não houve uma resolução de paz porque esse cenário não é de interesse de Zelensky, que, devido ao desgaste interno, não teria um futuro definido dentro da estrutura do Estado, principalmente se houver novas eleições.
"É difícil acreditar que, se houver novas eleições presidenciais em uma Ucrânia pós-conflito, Zelensky tenha alguma chance. Ele mesmo deve saber que não tem muita chance. Talvez para ele seja até mesmo o fim de sua carreira política, e ele certamente não quer que isso aconteça", comenta.
Entre expurgos de lideranças e ins satisfação popular
O especialista relembra que, quando surge alguma liderança de destaque no âmbito da política ucraniana, Zelensky acaba afastando-a de alguma maneira. Foi o que aconteceu com Valery Zaluzhny, ex-comandante-em-chefe das Forças Armadas que atualmente serve como embaixador ucraniano no Reino Unido, e, mais recentemente, com Mikhail Fedorov, que foi o quarto ministro da Defesa desde o início do conflito.
"Já tivemos outras figuras importantes afastadas, por exemplo, o Valery Zaluzhny, que deu uma entrevista mencionando os problemas da Ucrânia que não foi muito bem vista pelo círculo próximo de Zelensky, que acabou o afastando. E agora, a questão do Fedorov, que era um ministro da Defesa popular, que tinha um apoio significativo da população, e [sua demissão] acabou gerando protestos", destacou.
Valdir também reforça que as manifestações populares contra o regime de Zelensky derivam da frustração com as sucessivas derrotas e baixas ao longo do confronto, o que provoca efeitos severos no cerne da sociedade ucraniana.
"Há uma insatisfação que a população ucraniana está sentindo, não somente com esses afastamentos pontuais de políticos, mas com a situação interna do país. Desde 2023, houve promessas de que a Ucrânia poderia virar o jogo e recuperar territórios, e isso não aconteceu. E a prometida contraofensiva de verão de 2023 não foi bem-sucedida", observa.
Sem saída para o mar, Kiev pode colapsar ainda mais
O mar Negro representa o principal acesso da Ucrânia a rotas marítimas vitais para sua economia e esforço bélico. No entanto, o bloqueio russo tornou a operacionalização da região inviável, criando mais um gargalo estratégico que agrava a atual crise política e militar de Kiev.
"Com a perda de acesso a Odessa, [a Ucrânia] está se tornando um Estado que é categorizado como 'landlocked', ou seja, um Estado trancado territorialmente. Isso vai dificultar não só qualquer operação marítima, como o uso de drones para ataque a navios, mas também a questão das exportações. Isso vai diminuir o número de recursos que o Estado tem para continuar suas operações militares", concluiu.
Apesar de várias tentativas de paz, o contínuo investimento europeu no conflito impediu um desfecho positivo. Diante de sucessivas derrotas, Zelensky sofre um desgaste duplo: perde a confiança dos aliados que o financiam e vê sua própria liderança entrar em xeque diante do povo ucraniano.