POLÍTICA

Crise diplomática entre Brasil e EUA se agrava com revogação de visto

Em meio a tensões, embaixadora Maria Luiza Ribeiro Viotti perde visto nos Estados Unidos.

Por Sputnik Brasil Publicado em 05/08/2026 às 19:11
Revogação de visto da embaixadora Maria Luiza Ribeiro Viotti agrava tensão entre Brasil e EUA. CC BY 2.0 / Erik Cleves Kristensen / "Fuera el Imperialismo"

Em mais um capítulo da crise diplomática sem precedentes, o governo do presidente Donald Trump revogou o visto da embaixadora brasileira em Washington. Apesar de a medida não significar uma expulsão, caso a diplomata deixe os Estados Unidos, será necessário solicitar formalmente um novo visto para retornar, o que dificulta o trabalho diplomático.

Dias depois de o Brasil negar o visto a duas autoridades norte-americanas ligadas ao Departamento de Defesa, os Estados Unidos anunciaram, na última terça-feira (4), a revogação do visto da embaixadora Maria Luiza Ribeiro Viotti na capital norte-americana.

Além da recusa do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que apontou que o motivo da viagem era uma tentativa de questionar a integridade do sistema eleitoral brasileiro, Washington justificou a medida pela demora do Itamaraty em conceder o agrément para que Daniel Perez assuma a embaixada dos Estados Unidos em Brasília, cargo que está vago desde o início da gestão Trump.

O Palácio do Planalto reagiu duramente e classificou a decisão como mais uma hostilidade de Washington contra o Brasil. O governo também apontou uma tentativa de interferência nas eleições de outubro, quando Lula concorre ao quarto mandato. Além disso, o Executivo citou a Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas, cujas regras preveem que o nome do indicado só pode ser divulgado após o aval do outro país. "O Brasil segue estritamente o direito internacional", acrescentou.

O mais recente capítulo da crise diplomática entre Brasil e Estados Unidos, considerado inédito nos mais de dois séculos de relações bilaterais, representa uma atitude "de agressão muito grave", avalia, ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, o professor de relações internacionais da Universidade de Brasília (UnB), Roberto Goulart Menezes.

"É a mais importante representação do nosso país no exterior, dado todo o peso das relações com os Estados Unidos, além do ponto de vista cultural e político. No momento em que Washington recorre a um instrumento como esse para revogar o visto da embaixadora, faz uma chantagem contra o Brasil."

Além disso, o especialista cita o descumprimento, pelos Estados Unidos, das regras que regem a diplomacia internacional há décadas, já que o governo brasileiro soube da indicação de Daniel Perez pelas redes sociais. Para Menezes, essa é mais uma medida hostil contra o Brasil que evidencia um resgate da Doutrina Monroe pela Casa Branca, política externa criada em 1823 e apresentada como uma forma de impedir novas intervenções coloniais europeias na América Latina, mas posteriormente utilizada como instrumento de dominação na região, inclusive por meio de intervenções militares.

"O governo brasileiro não vê isso como um gesto isolado e sabemos que é uma tentativa de interferência no processo eleitoral [...]. Então é grave e preocupante, e a nota do Executivo foi muito contundente, demonstrando que o país não quer ser tratado dessa forma. É muito importante marcar essa posição."

Já o professor de relações internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e pesquisador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre os Estados Unidos (INCT-INEU), Williams Gonçalves, afirma ao podcast Mundioka que a diplomacia é o principal canal de diálogo entre os países. Com a revogação do visto da embaixadora, segundo ele, a relação entre Brasil e Estados Unidos pode ficar ainda mais conturbada.

"Mesmo havendo problemas de relacionamento e desentendimentos, a diplomacia deve ser sempre preservada, porque é por meio dos servidores do Estado especializados em negociação que as questões podem ser superadas. Quando se aplica a retaliação aos diplomatas, o canal de negociação está sendo prejudicado. Não é apenas uma questão formal", argumenta.

Brasil é a 'bola da vez' para os EUA

Depois de Peru e Colômbia elegerem candidatos da direita e alinhados a Trump por pequena margem de votos, o Brasil segue no radar dos Estados Unidos na tentativa de consolidar a chamada onda azul na América Latina. Nas últimas semanas, até as principais autoridades do governo Trump fizeram críticas públicas ao presidente Lula. Após anunciar as novas tarifas contra produtos brasileiros, o secretário de Estado, Marco Rubio, declarou nas redes sociais que o petista "priorizou seu próprio ego em detrimento de um acordo que vise o bem-estar do povo brasileiro".

Segundo Williams Gonçalves, todo esse contexto mostra que o Brasil é a "bola da vez" para Washington na América do Sul. Na avaliação do pesquisador, a Casa Branca quer, de forma explícita, exercer total controle sobre a região.

"A Casa Branca tem trabalhado para afastar e reduzir a presença econômica da China na região, e vem obtendo sucesso nesse sentido. É bom frisar que invadiu a Venezuela, prendeu o presidente e transformou o Executivo em um governo fantoche. No Panamá, fez reverter um contrato que existia entre o Estado e uma empresa chinesa que deveria administrar o Canal do Panamá, além de obrigar o país a deixar a iniciativa chinesa Cinturão e Rota."

O especialista lembra que, com a aproximação das eleições, o governo Trump vê uma oportunidade de também mudar a posição do Brasil em relação à China.

"O país é atualmente o que mais recebe investimentos chineses no mundo. Portanto, o objetivo é transformar o Brasil em um país subalterno, como a Venezuela é hoje. A oportunidade que as eleições oferecem é muito grande, porque uma das correntes que disputa a Presidência é completamente submetida aos desejos dos Estados Unidos. Vale dizer que isso ocorreria sem qualquer contrapartida."

Múcio destaca inferioridade militar do Brasil

No mesmo dia em que a sanção contra a diplomata brasileira foi anunciada, o ministro da Defesa, José Múcio, deu uma declaração sobre uma eventual invasão militar dos Estados Unidos ao Brasil que repercutiu negativamente. Em evento na Confederação Nacional da Indústria (CNI), Múcio afirmou que o país não teria condições de se defender e que sua opção seria "abrir o portão".

"Eu vejo os jornalistas o tempo todo [perguntando]: 'Se os Estados Unidos quiserem invadir o Brasil, o que é que o senhor faz como ministro da Defesa?' Abro o portão, porque a gente não tem equipamento para enfrentá-los e nem tem dinheiro para consertar o portão. Eu prefiro abrir o portão", disse na ocasião.

O professor da UnB Roberto Menezes critica o posicionamento do ministro, que não só coloca o Brasil em uma condição de "república das bananas", como também rebaixa o país a uma situação "inimaginável". Conforme o especialista, a postura é ambígua e inadequada para alguém que ocupa um cargo da importância de um ministro da Defesa.

"O Múcio diz que é uma brincadeira, mas há coisas com as quais não se brinca em um cargo tão sério. É preciso estar à altura da função. Estamos falando da segurança e da defesa de um país e de um ministro responsável por comandar as três Forças [Marinha, Exército e Aeronáutica]. Certamente, a fala também causou incômodo no alto comando militar."

Williams Gonçalves concorda e defende que Múcio vai inclusive contra a defesa da soberania nacional, uma das principais bandeiras do governo do presidente Lula.

"É uma declaração inadmissível, mesmo que ele considere haver uma desproporção abissal entre as forças militares dos Estados Unidos e do Brasil. Se há um problema de verba e subfinanciamento, isso deve ser resolvido internamente, e não levado a público, ainda mais em tom de mágoa."