Chanceleres reagem a crise nas relações Brasil-Argentina
Mauro Vieira e Pablo Quirno defendem as posições de seus governos após rebaixamento das relações diplomáticas.
Mauro Vieira e Pablo Quirno defenderam as posições de seus governos após o rebaixamento das relações diplomáticas entre Brasília e Buenos Aires.
Em meio à crise diplomática entre Brasil e Argentina, os ministros das Relações Exteriores de cada país reagiram ao evento. Vale lembrar que as tensões nas relações dos dois países ocorreram após o presidente da Argentina, Javier Milei, insultar autoridades brasileiras, especialmente o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, durante a convenção partidária no dia 25 de julho em São Paulo, que lançou oficialmente a candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência da República.
A princípio, o governo brasileiro convocou para consultas o embaixador do Brasil na Argentina, Julio Bitelli, em uma medida interpretada como um endurecimento da postura diplomática brasileira diante do episódio. Após mais uma troca de insultos de Milei, Brasília decidiu rebaixar as relações diplomáticas com a Argentina, passando a conduzir as tratativas apenas pelo encarregado de negócios da representação.
A medida, inédita na história da relação bilateral entre as duas nações sul-americanas, mostra a gravidade do embate entre Brasília e Buenos Aires.
Mauro Vieira
Ao veículo argentino Perfil, o chanceler Mauro Vieira afirmou que o rebaixamento das relações diplomáticas entre Brasil e Argentina foi uma resposta aos "reiterados insultos e agressões" do presidente Javier Milei contra o Brasil, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e as instituições brasileiras.
"Foram quatro manifestações consecutivas no espaço de uma semana em que o presidente da Argentina, de uma forma muito grosseira, muito direta e muito agressiva, criticou o Brasil, as instituições, na pessoa do presidente da República. Enquanto não houver explicações satisfatórias, manteremos essa decisão."
Nesse período, as relações entre os dois países permanecerão no nível de encarregados de negócios, medida que, segundo o chanceler, busca demonstrar a gravidade do episódio sem romper os canais diplomáticos.
Vieira também diferenciou a participação de Milei em um evento político, a CPAC, realizado em Santa Catarina, em 2024, da presença do presidente argentino no lançamento da candidatura de Flávio Bolsonaro.
Segundo Vieira, na visita anterior, Milei defendeu suas posições políticas, mas não fez ataques às autoridades brasileiras. Já no evento de julho deste ano, afirmou que o presidente argentino promoveu ofensas ao chefe de Estado brasileiro e às instituições do país durante um ato eleitoral, o que caracterizou uma interferência inédita e inaceitável na política interna do Brasil.
Vieira ressaltou ainda que o problema não é de natureza ideológica, afirmando que o governo Lula mantém relações de respeito e diálogo com líderes de diferentes orientações políticas ao redor do mundo, desde que prevaleçam a cordialidade e o respeito mútuo entre os Estados. O chanceler lamentou que a crise coloque em risco uma relação bilateral que, desde a redemocratização, foi marcada pela cooperação e integração entre Brasil e Argentina.
"As boas formas e o respeito não são uma questão ideológica. São uma questão de convivência entre as pessoas e, sobretudo, entre os Estados nas suas relações."
Pablo Quirno
Em contrapartida, o chanceler argentino Pablo Quirno lamentou o que classificou como uma "decisão unilateral" do governo brasileiro ao rebaixar as relações diplomáticas. Segundo ele, apesar das divergências políticas e ideológicas entre os dois governos nos últimos anos, Buenos Aires optou por não responder aos episódios anteriores no âmbito diplomático, defendendo que havia outros caminhos para preservar a relação bilateral.
Quirno também rebateu as críticas brasileiras sobre uma suposta interferência de Javier Milei nas eleições presidenciais, mencionando quando Lula visitou a ex-presidente Cristina Kirchner antes das eleições argentinas de 2025, quando ela cumpria prisão domiciliar, e afirmou que o governo argentino não interpretou o gesto como ingerência.
Além disso, disse que Milei também foi alvo de críticas e insultos por parte de integrantes do governo brasileiro, sem que a Argentina adotasse medidas diplomáticas em resposta. O caso remonta à vez em que o ministro da Fazenda, Dario Durigan, chamou o líder argentino de "palhaço".
O chanceler afirmou que a crise entre os dois países reflete diferenças ideológicas mais profundas e disse esperar que haja uma mudança de poderes no Brasil nas eleições. "A região está mudando sua direção ideológica. Celebramos isso e esperamos que aconteça o mesmo no Brasil", declarou.
Quirno reforçou que a Argentina não pretende responder diplomaticamente à decisão do governo brasileiro. Segundo o chanceler, Buenos Aires respeita o direito de Brasília de definir o nível das relações bilaterais, mas manterá sua postura de preservar o diálogo.
"Da nossa parte, não haverá nenhuma ação diplomática em resposta ao que o Brasil fizer. O Brasil tem todo o direito de tomar as decisões que entender, e nós seguiremos mantendo as relações no nível que o Brasil decidir", declarou.
"Para haver uma briga são necessárias duas partes. Não contem com a Argentina para isso. Nós vamos continuar travando apenas a luta pelas ideias da liberdade."