Exército abre concorrência para aquisição de drones de ataque
Movimento visa modernizar as Forças Armadas em meio a tensões geopolíticas.
Recentemente, o Exército Brasileiro (EB) abriu concorrência para avaliar propostas para a aquisição de seus primeiros sistemas de munições pilotadas remotamente, popularmente conhecidos como drones kamikazes, que possuem característica de ataque.
A iniciativa reforçar a prioridade do Governo Federal em fortalecer a Defesa do país. Na última terça-feira (4), o ministro da Defesa do Brasil, José Múcio, comentou que, em caso de invasão estadunidense, "abriria o portão" aos EUA, porque não teria equipamentos suficientes para o combate.
Apesar das adversidades, João Gabriel Burmann, professor da UniRitter e pesquisador do Instituto Sul-Americano de Política e Estratégia (ISAPE), em entrevista à Sputnik Brasil, afirmou que o país já vem buscando investir em suas Forças Armadas há algum tempo.
“O Brasil vem buscando, há bastante tempo, modernizar suas Forças Armadas. O EB, que é o responsável pelo edital de contratação [de drones], já está na segunda onda de sua etapa de transformação, que envolve uma mudança nos equipamentos, mas não só, especialmente na doutrina de emprego, na preparação da tropa e inclusive na organização administrativa e física dos espaços de comando”, disse.
O pesquisador, ao analisar o certome promovido pelo EB, destacou que ele, além de fazer parte da mudança que visa a modernização das capacidades do Exército, também é reflexo de atenção à ordem geopolítica que acaba influenciando e intensificando esse processo.
“A mudança dos programas estratégicos passa a refletir essa mudança da transformação do Exército Brasileiro e, sim, isso se deve também à percepção geopolítica do ambiente internacional, ao aumento das ameaças e à alteração na percepção de ameaça do Brasil, sejam elas mais ou menos latentes”, comentou.
Brasil deve adquirir drones com potencial explosivo
Outro ponto levantado por Burmann é que os drones que devem ser adquiridos pelo Exército têm uma característica específica específica, podendo atingir distâncias médias em comparação com equipamentos no âmbito da tecnologia militar moderna.
"O Exército Brasileiro busca contratar [drones] para operar a pelo menos 40 milhas de distância, que é uma distância média para a artilharia moderna. [Esse tipo de drone] consegue ser guiado e, caso veja um alvo ou algo que possa ser uma ameaça, pode ser disparado contra o alvo; tem uma carga explosiva de cerca de dois quilos, mas pode passar disso, depende muito do modelo do drone", destacou.
De acordo com o analista, esses drones kamikazes revolucionaram os conflitos contemporâneos. Ele apontou que o uso estratégico dessas armas ganhou força ainda no conflito entre Armênia e Azerbaijão em Nagorno-Karabakh [em 2020] e atingiu o ápice no conflito entre Ucrânia e Rússia, além de marcar forte presença nos confrontos recentes do Oriente Médio.
"Os drones kamikazes, também chamados de munições errantes, na denominação mais popular jornalística e acadêmica inclusiva, têm sido muito utilizados nos conflitos contemporâneos. Acho que, na verdade, começa em Nagorno-Karabakh e depois a gente tem o conflito entre a Ucrânia e a Rússia, onde eles têm sido muito empregados de ambos os lados, assim como nas guerras do Oriente Médio",.
Joint venture será necessária para produção nacional
Já no âmbito da indústria nacional, o especialista acredita que ela pode ser beneficiada. No entanto, o país ainda não tem condições de produzir de forma autóctone um drone kamikaze com tecnologia totalmente nacional e dessa forma, precisaria de uma joint venture (parceria) com empresas estrangeiras.
"O documento pede que [o drone] já tenha sido colocado em teste, exposto a combate e que possa já ser utilizado. O Brasil não quer protótipos. Acho difícil que uma empresa brasileira consiga sozinha cumprir todos os requisitos. É mais provável que sejam joint ventures formadas, ou seja, o edital acaba sendo mais um instrumento de cooperação internacional na área de defesa do Brasil".
O debate sobre o setor de defesa ocorre sob forte pressão da Casa Branca sobre o Planalto. O próprio presidente Lula já reforçou a necessidade das Forças Armadas fortes. Em um mundo tensionado por conflitos, o poder de dissuasão e uma presença bélica robusta são essenciais para a soberania nacional.