Decisão de Trump gera reação no governo Lula
Cancelamento do visto da embaixadora brasileira é visto como chantagem político-diplomática.
Integrantes do governo Lula reagiram nos bastidores com surpresa à decisão do governo Donald Trump de revogar o visto da embaixadora do Brasil em Washington, Maria Luiza Viott, classificando a medida como uma forma de pressão política e chantagem. O governo ainda não se pronunciou oficialmente sobre o caso.
Irritado com a demora do governo Lula em conceder aval a Daniel Perez, escolhido como futuro embaixador americano no Brasil, o governo dos Estados Unidos informou nesta terça-feira, 4, que cancelou o visto diplomático da embaixadora Viotti.
A medida equivale a uma expulsão dela dos Estados Unidos e só será revogada quando o governo brasileiro concordar com a indicação de Perez e solucionar a pendência diplomática, explicaram a jornalistas funcionários do Departamento de Estado.
No entanto, a equipe do órgão informou que Viotti não está obrigada a deixar os EUA imediatamente e poderá permanecer em solo americano até que o imbróglio se resolva. Eles afirmaram que o governo agir com reciprocidade e reclamaram que o Ministério das Relações Exteriores estaria "segurando" propositalmente o processo de consulta de Perez.
No final de julho, o Estadão revelou que o governo Lula pretendia atrasar a decisão sobre Daniel Perez para depois das eleições, em meio à crise provocada pelo tarifaço.
A ação do governo Trump foi recebida no Brasil como uma "chantagem" e uma tentativa de pressionar o Planalto na expectativa das eleições presidenciais. A medida ocorre em um contexto de embates sobre vistos e tarifas na relação entre os governos Lula e Trump.
Diplomatas brasileiros consultados pelo Estadão afirmaram que o assunto não seria discutido em público, mas em privado observaram que o condicionamento feito pelo Departamento de Estado era evidente e que há um "comitê de campanha" em ação no governo Trump. Eles também expressaram preocupação com a aprovação do nome de Perez, visto como ideologicamente problemático, em meio ao período eleitoral.
Após uma reunião anterior, integrantes do governo afirmaram que não havia pressa em avaliar o nome de Perez, considerando que Trump havia demorado um ano e meio para indicar seu futuro representante. Desde janeiro de 2025, a embaixada americana é chefiada por um encarregado de negócios interino, após o término da missão de Elizabeth Bagley, colaboradora de Joe Biden.
Embaixadores também mencionaram que Trump ignora a Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas. O artigo 4º afirma que um país deve assegurar que a pessoa indicada como embaixador em outro recebe o agrément - o consentimento oficial do governo que receberá o diplomata. Uma negativa não precisa ser justificada.
No caso de Perez, Trump enviou o nome do deputado da Flórida ao Senado americano em 1º de junho. O pedido de agrément ao Brasil - ou seja, a consulta formal sobre a concordância do governo Lula com a escolha - seria feito quase um mês depois, segundo fontes a par do processo.
Dois meses após a indicação, o Itamaraty ainda não havia respondido, mas o nome de Perez já começara a tramitar no Congresso dos EUA. Ele foi sabatinado e aprovado na Comissão de Relações Exteriores do Senado, faltando apenas a votação no plenário e sua aprovação pela Casa. Esse rito foi, no entanto, atropelado pelo republicano.
Não existe um prazo formal para que um governo responda ao pedido de agrément feito por outro país. No entanto, uma demora excessiva, de muitos meses, pode ser compreendida como uma objeção clara, resultando em mal-estar diplomático e possivelmente na troca do nome escolhido ou na decisão de deixar a embaixada sem um chefe de missão.
Trump seguiu o rito e pediu a Bolsonaro aval para o embaixador.
A decisão de anunciar sua escolha antes de consultar o governo brasileiro não foi uma exceção. Desde que voltou à Casa Branca, em janeiro de 2025, Trump já havia feito indicações de embaixadores, muitas vezes através das redes sociais e desconsiderando a concordância de outros governantes, inclusive na América Latina. Após a posse, ele publicou sua lista de indicados na região na plataforma Truth Social.
Ao contrário do que fez com o governo Lula, Donald Trump havia consultado previamente o então governo Jair Bolsonaro em 2019, antes de indicar oficialmente seu escolhido como embaixador para o Brasil. Essa "fuga" no procedimento de indicação incomodou o governo Lula.
Naquela ocasião, o diplomata de carreira Todd Chapman, escolhido por Trump, recebeu a aprovação prévia do Itamaraty em outubro de 2019. O nome vazou na imprensa dias antes, enquanto o processo de consulta ao governo brasileiro se mantinha em sigilo.
Todd Chapman foi confirmado publicamente pela Casa Branca somente após a confirmação do aval pela chancelaria brasileira, de maneira discreta, como é habitual. Ele seria sabatinado em dezembro e aprovado pelo Senado americano em fevereiro de 2020, antes de assumir a função em março e entregar as cartas credenciais a Bolsonaro em abril.
Embate de vistos
Durante sua visita à Casa Branca, em maio, o presidente Lula afirmou ter entregue a Trump uma lista de autoridades públicas, incluindo ministros de Estado e membros do Supremo Tribunal Federal (STF), cujos vistos haviam sido revogados anteriormente e que nunca foram restabelecidos. Segundo Lula, essa não foi a primeira vez que solicitou a restauração dos vistos a Trump.
Recentemente, houve também a expulsão do delegado Marcelo Ivo, então adido da Polícia Federal junto à polícia migratória americana - o ICE, que foi respondida pelo governo Lula com a expulsão de um policial americano atuante em Brasília.
Outro episódio que desagradou o Departamento de Estado foi a negativa da visita ao Brasil - e ao ex-presidente Jair Bolsonaro - solicitada por Darren Beattie, consultor sobre Brasil na diplomacia americana e ex-assessor de Trump.
Nas últimas semanas, o governo brasileiro negou vistos a dois funcionários do Departamento de Estado, os diplomatas Riley M. Barnes, secretário assistente, e Samuel Samson, subsecretário assistente, que viriam ao país para discutir temas eleitorais.
Um diplomata brasileiro revelou que a visita ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) havia sido solicitada durante o recesso e que foram informados de que a interação seria disponibilizada em outra ocasião. Mesmo assim, a viagem prosseguiu.
A missão frustrada coincidiu com uma nova onda de desconfiança sobre as urnas eletrônicas levantada pelo bolsonarismo, que despertou questionamentos sobre as reais intenções deles, levando o governo brasileiro a entender que uma estratégia de questionamento à integridade do sistema eletrônico de votação estava em curso.
O Departamento de Estado negou e assegurou que a agenda havia incluído reuniões com governo, sociedade civil e líderes religiosos para ouvir sobre "integridade eleitoral, liberdade religiosa e liberdade de expressão".