POLÍTICA

Relações entre Brasil e Argentina: crise interna de Milei ressoa na diplomacia

Conflito entre os presidentes Milei e Lula marca momento delicado na política argentina.

Por Sputnik Brasil Publicado em 04/08/2026 às 14:40
Crise entre presidentes Milei e Lula afeta relações Brasil-Argentina em contexto político delicado. © AP Photo / Natacha Pisarenko

Na mais recente divergência entre os presidentes Javier Milei e Luiz Inácio Lula da Silva, da Argentina e Brasil, respectivamente, as críticas vieram mais do lado argentino. Especialistas ouvidas pelo Mundioka analisam a repercussão interna uma semana após a visita de Milei no Brasil.

O jornal Clarín repercutiu os ataques de Milei e destacou que o conflito rompe uma tradição histórica de priorizar a boa relação entre Brasil e Argentina. Já o Página 12 foi mais incisivo: estampou a palavra "Vergonha" na manchete e classificou o episódio como a maior crise diplomática desde a redemocratização do país. Neste domingo (02), o presidente argentino insultou novamente Lula, chamando o petista de "ladrão, um corrupto".

O episódio ocorre em um momento delicado para o presidente argentino. Pesquisas recentes apontam que a confiança e a aprovação ao governo atingiram os menores níveis desde o início do mandato. O Índice de Confiança no Governo (ICG), elaborado pela Universidade Torcuato Di Tella, caiu para 1,94 ponto em uma escala de 0 a 5, o menor patamar da gestão Milei e 21% abaixo do registrado um ano antes. Já um levantamento da AtlasIntel para a Bloomberg News mostrou que, em março, a aprovação do presidente recuou para 36,4%, enquanto a desaprovação se aproximou de 62%, os piores índices desde sua posse.

O desgaste já repercute entre empresários e no mercado financeiro, onde cresce a discussão sobre uma alternativa para as eleições presidenciais de 2027 que mantenha o compromisso com o equilíbrio fiscal e as reformas econômicas, mas adote uma postura menos confrontadora e combine disciplina nas contas públicas com maior atuação do Estado em áreas estratégicas.

Nesse cenário, a advogada de direitos humanos e deputada Myriam Bregman, hoje apontada como uma das políticas mais bem avaliadas do país, desponta como possível candidata da esquerda à Casa Rosada.

Para Beatriz Bandeira de Mello, doutora em Relações Internacionais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), a ofensiva de Milei contra o governo brasileiro também deve ser compreendida à luz da política doméstica argentina. Segundo ela, crises diplomáticas passaram a ser utilizadas para produzir fatos políticos capazes de mobilizar sua base de apoio e deslocar o debate público para temas de maior apelo ideológico.

"Hoje a gente não consegue dividir tanto política externa e política interna. As duas coisas estão muito entrelaçadas", afirma. Diante da perda de popularidade, Milei costuma recorrer a duas estratégias: reforçar sua agenda internacional ao lado dos Estados Unidos e de aliados ideológicos — ampliando a dependência de Buenos Aires em relação a Washington e aproximando-se de lideranças conservadoras, como ao participar da convenção do PL em apoio à candidatura de Flávio Bolsonaro — ou criar embates diplomáticos com parceiros regionais.

"Ele já fez isso com a Espanha, com a Colômbia e agora tem feito isso recorrentemente com o Brasil para gerar um fato político e tentar conseguir algum apoio doméstico."

Para Mello, a escalada verbal também se insere no contexto eleitoral brasileiro e faz parte da tentativa de Milei de se consolidar como uma das principais lideranças da nova direita latino-americana, estreitando laços com a família Bolsonaro, Keiko Fujimori, no Peru, e Abelardo de la Espriella, na Colômbia.

"Ele acaba fazendo dessa pauta uma tentativa de conseguir prestígio político, se colocar como uma figura relevante e distrair um pouco a audiência do que tem sido a política doméstica nos últimos meses."

Apesar do discurso do presidente argentino, as duas economias estão cada vez mais integradas. Em 2025, o comércio bilateral alcançou US$ 31,1 bilhões, o maior volume em 13 anos, sendo US$ 12,7 bilhões em exportações argentinas para o Brasil e US$ 18,4 bilhões em importações de produtos brasileiros.

A especialista ressalta que a integração das cadeias produtivas — especialmente na indústria automotiva — e os mecanismos criados pelo Mercosul, bloco que o próprio Milei tentou enfraquecer ao defender, em 2025, um acordo argentino de livre-comércio com os Estados Unidos, tornam improvável uma ruptura comercial.

A leitura é compartilhada por Flávia Loss, professora de relações internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

"É um péssimo exemplo para todas as relações que nós temos construído ao longo do século XX com a Argentina. É uma agenda puramente ideológica, não tem nenhum motivo para essas ofensas gratuitas e muito menos para que um chefe de Estado suba em um palanque para fazer propaganda eleitoral."

Na avaliação da professora, as críticas da imprensa, do empresariado e de parte da sociedade argentina demonstram que o episódio extrapolou uma divergência pessoal entre presidentes e passou a afetar a imagem institucional da Argentina. Ainda assim, ressalta que a estrutura construída pelo Mercosul e a forte integração produtiva continuam funcionando como um freio às crises políticas.

Loss lembra que situações semelhantes ocorreram durante o governo Jair Bolsonaro, tanto nas relações com a Argentina quanto com a China, e que, em todas elas, prevaleceu o pragmatismo econômico. "O que segura o Mercosul, o que o mantém unido, ainda é essa parte do comércio e principalmente os industriais de ambos os países."

Em resumo, os efeitos dessa estratégia dificilmente provocarão um rompimento institucional ou comercial entre Brasil e Argentina. Para Loss, o maior risco está no longo prazo: o desgaste gradual da confiança política entre os dois países, reduzindo o espaço para novas iniciativas de integração regional e coordenação de políticas comuns.

"O que Javier Milei faz atende ao imediatismo do seu governo, mas acaba criando uma animosidade entre Brasil e Argentina que não é boa para nenhum dos dois lados. [...] Política externa é uma política de longo prazo, de construção de relacionamentos."


Por Sputinik Brasil