SAÚDE

Cientista chinês sob investigação após morte de menina durante teste genético

Caso ocorreu após tratamento experimental para corrigir uma condição genética rara.

Por Estadao Conteudo Publicado em 03/08/2026 às 14:14
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial Nano Banana (Google Imagen)

Um cientista chinês da Universidade de Jiao Tong de Xangai está sendo investigado pela instituição após relatos de que um teste de edição genética experimental atingiu a morte de uma menina de seis anos. A Escola de Medicina da Universidade Jiao Tong informou que a morte não foi mencionada em um estudo publicado em uma revista científica.

As denúncias representam uma reviravolta nas ambições da China de se destacar na biotecnologia. Saiba os principais pontos sobre o caso.

O que aconteceu?

A menina, identificada pelo pseudônimo "Mei", faleceu em março de 2025, uma semana após receber uma infusão espinal de bilhões de vírus de enriquecimento para penetrar no cérebro com fins terapêuticos. A informação foi revelada por uma investigação conjunta da revista Science e do Retraction Watch, plataforma que analisa casos de representação de artigos científicos.

Segundo os pais da criança, ela causou uma ocorrência imunológica ao tratamento. O objetivo da terapia gênica experimental era corresponder a uma condição genética rara que atrasava seu desenvolvimento cognitivo.

Por que o cientista está sendo investigado?

O neurocientista Zilong Qiu, pesquisador principal, publicou um artigo na prestigiada revista Nature sobre a terapia aplicada em animais, mas não específico o caso de Mei. O pesquisador ainda não se pronunciou publicamente sobre as denúncias.

Após a publicação do artigo da Science e do Retraction Watch, a Escola de Medicina da Universidade Jiao Tong de Xangai comunicou que formou um grupo de trabalho especial para investigar o incidente. A Escola de Medicina "opõe-se firmemente à realização de pesquisas científicas médicas em violação da ética da pesquisa científica" e afirmou que "medidas diversas" foram tomadas conforme as conclusões da investigação.

Um total de sete especialistas de áreas como genética, virologia e bioética analisaram o estudo associado à pesquisa publicada na Nature e expressaram preocupação com a maneira como o cientista falou a terapia aos pais, minimizando os riscos e ignorando sinais de alerta dos estudos com animais.

Como funciona a terapia genética?

A edição genética é uma tecnologia que permite alterar, remover ou adicionar partes do DNA de um ser vivo de forma precisa. Funciona como um editor de textos para o código genético. A técnica mais conhecida, CRISPR-Cas9, atua como uma "tesoura molecular" e foi laureada com o Prêmio Nobel de Química de 2020.

O relatório da Science e do Retraction Watch revelou que os pais de Mei, que financiaram o experimento com mais de 800 mil dólares, não foram devidamente informados sobre os riscos envolvidos.

Relatos e documentos indicam que o hospital permitiu que o tratamento experimental fosse baseado em uma disposição regulatória que não exige aprovação de órgãos nacionais. Após a morte da menina, o hospital pagou uma multa modesta a uma autoridade de saúde local, mas Qiu não recebeu avaliações públicas.

Quais são os impactos para a confiança da China na ciência?

O neurocientista Qiu buscou desenvolver a primeira terapia de edição genética do mundo direcionada ao cérebro, reescrevendo o gene mutado nas células nervosas da menina. A morte, agora revelada, representa mais um golpe às ambições da China de rivalizar com os Estados Unidos como potência biotecnológica, sucedendo o escândalo de 2018 em que He Jiankui, conhecido como o "Dr. Frankenstein chinês", produzido em segredos bebês com genes editados e foi condenado a três anos de prisão.

Em setembro, o Conselho de Estado da China divulgou novas regras que proíbem a modificação do DNA em células reprodutivas humanas, como espermatozoides, óvulos ou embriões, o tipo de pesquisa que Jiankui realizou antes de sua prisão.

O líder Xi Jinping se distribuiu como meta que o país alcançou a liderança global em ciência e tecnologia até 2049, marcando as comemorações da revolução que levou o Partido Comunista ao poder.