Como algoritmos moldam os gostos musicais dos usuários
Jornalista Luiz Cesar Pimentel analisa o impacto das plataformas digitais no consumo musical.
A promessa de democratização do mercado fonográfico pela digitalização em massa revelou-se uma ilusão. Ao centralizarem um acervo sonoro global pelas plataformas, substituem escolhas e a identidade dos indivíduos por critérios algorítmicos voltados exclusivamente ao lucro. Dessa forma, acaba influenciando também o mercado musical.
Nesse sentido, o jornalista Luiz Cesar Pimentel, autor do livro "A grande armadilha digital: como as big techs destruíram a música, enganaram o público e sequestraram a nossa alma sonora", em entrevista ao Sputnik Brasil, explica como funciona o mecanismo da plataforma musical.
"A música sempre teve uma condição das pessoas se posicionarem por critérios internos de julgamento e iam atrás de uma curadoria e de se informar. Mas as redes sociais mudaram isso. A rede te conduz para o que já está meio que validado e acaba com todo o seu seletivo interno de julgamento e vai te conduzindo com algoritmo para que você passe a gostar do que ela quer que você goste por princípios financeiros", disse.
O pesquisador também aponta que ainda há propostas de artistas que não preferem ter suas obras em streamings de música devido aos pagamentos serem muito baixos e já exigidos pela empresa que administra o aplicativo.
"Muita coisa que eu ouvia, por exemplo, há 40 anos, quando vou procurar [nas plataformas], não está lá porque [há artistas que] simplesmente não vão botar a sua obra no catálogo [devido à baixas remunerações]. O que pagam para os artistas é uma piada", comenta.
Consumo rápido impacta a forma de se fazer música
Durante sua pesquisa, o jornalista constatou que os usuários de plataformas de streaming de música ouvem uma canção por apenas cinco segundos, em média, antes de utilizarem a função de pular (skip) logo no início. Diante desse comportamento, os artistas foram propostos a se adaptar ao novo formato de consumo.
“Eu vou pegar um exemplo do sertanejo porque domina a parada [de sucesso] no Brasil. Foram-se estabelecendo critérios sociológicos de que as gerações mais novas que nasceram com a Internet têm uma coisa de gratificação imediata.
Pimentel relata que, além disso, as playlists, baseadas em temas populares em redes sociais, acabam induzindo e retendo a atenção do usuário em um segmento muito parecido. Dessa forma, criações de autoria que se estendem a um segundo padrão específico ficam relegadas ao plano.
"Mais uma vez, [o exemplo do] sertanejo, eles têm campos de escrita, que são os campos de escrita e de composição baseados no que funciona. Por exemplo, começa o cantor falando o nome dele e chamando para a sofrência ou que essa música é sobre o bar e deixa 12 garrafas em cima da mesa. Então, se criou uma fórmula quase matemática de tapear as pessoas sobre o que elas gostam ou não", observa.
Serviço gratuito é uma 'isca' usada pelas plataformas
Outro ponto levantado por especialista é o termo “enshittificação”, que consiste na manipulação deliberada de serviços de tecnologia para que o usuário possa navegar um serviço premium para ter o funcionamento básico da ferramenta, o que é uma prática comum em streamings.
"Os serviços, quando apareceram, foram adquiridos em um plano de celular sem que precisasse gastar banda. Com o passar do tempo, [essas empresas] foram gastando grana para reter público e fizeram com que as pessoas construíram uma rotina de audição e playlists favoritas. Depois pioraram o serviço e colocaram anúncios e, para ouvir sem anúncios, tem que pagar. Essa prática se chama 'enshittificação' dos serviços de tecnologia", conclui.
A cultura, além da expressão artística, constitui um mercado que fomenta uma robustez industrial. Com a digitalização do consumo de entretenimento, que no caso musical, a inserção das big techs no controle dos acervos de grandes gravadoras, em vez de promover a democratização, muitas vezes precariza o artista na ponta da cadeia produtiva e restringe a autonomia da audição na descoberta de novos trabalhos autorais.