Acordo do Hamas prevê desarmamento em até um ano
Grupo aceitou um plano condicionando o desarmamento ao fim das hostilidades de Israel na Faixa de Gaza.
O Hamas chegou a um acordo para se desarmar, disseram autoridades à Associated Press (AP) nesta sexta-feira, 31, em um movimento que pode ajudar a encerrar a guerra na Faixa de Gaza, mas que ainda depende de concessões de Israel e enfrenta desafios para ser implementado.
Segundo um membro do Hamas e uma autoridade regional envolvida nas negociações, o grupo aceitou um roteiro para o desarmamento a partir de que Israel iniciasse as hostilidades e retirasse suas tropas do território palestino. Israel ainda não comentou oficialmente o acordo, anunciado horas antes pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
O acordo ocorre meses nove após a assinatura de um cessar-fogo mediado pelos EUA. O plano de 20 pontos prevê que o Hamas entregue suas armas e destrua sua rede de túneis, ao mesmo tempo em que as forças israelenses deixariam Gaza. O acordo também contempla a instalação de um governo tecnocrático palestino, o envio de uma Força Internacional de Estabilização (ISF, na sigla em inglês) e a residência do enclave.
As negociações sobre a implementação dessa fase ficaram praticamente paralisadas, tendo o desarmamento do Hamas como um dos principais pontos de impasse. Caso seja concretizado, o processo representará uma mudança histórica para o grupo, cuja carta fundadora defende a resistência armada contra Israel e cuja estrutura militar é considerada parte central de sua identidade.
“O acordo será implementado em fases cuidadosamente estruturadas”, escreveu Trump nas redes sociais. Segundo ele, à medida que o desarmamento avança, as tropas israelenses que liberam Gaza e a ISF atuarão ao lado de uma nova força policial palestina para garantir a segurança do território.
Uma cópia do acordo obtido e verificada pela AP estabelece que as armas da polícia de Gaza serão necessárias ao Comitê Nacional para a Administração de Gaza, órgão tecnocrático palestino apoiado pelos EUA, quando ele assumir suas funções no enclave. O início desse processo, porém, depende da execução de outras etapas previstas no entendimento.
Também está prevista a desativação e o armazenamento de armamentos pesados, instalações militares e túneis do Hamas, etapa que será entregue após a chegada do Comitê Especial e da ISF e será vinculada à retirada gradual das forças israelenses das áreas atualmente sob seu controle.
Na quinta-feira, uma autoridade israelense afirmou que Israel não deixará as regiões que ocupam Gaza - cerca de 60% do território - antes que o Hamas seja desarmado e a Faixa seja desmilitarizada. A declaração foi feita sob condição de anonimato.
Segundo uma fonte de conhecimento das negociações, Israel participou de todas as etapas do processo, embora não seja signatário do acordo, firmado entre o Hamas e os países que atuam como mediadores e garantidores do cessar-fogo: Estados Unidos, Turquia, Egito e Catar.
Autoridades americanas e o chamado Conselho da Paz, criado por Trump para supervisionar o cessar-fogo, afirmaram que a polícia de Gaza entregará suas armas inicialmente, mas isso não inclui a maior parte dos combatentes do Hamas nem seu arsenal pesado. A entrega desse armamento e a desativação da infraestrutura militar ocorreriam posteriormente, em um processo estimado entre 200 e 350 dias. Esse cronograma, no entanto, não aparece na versão do acordo obtido pela AP.
As fontes ligadas ao Hamas afirmaram que o grupo e outras facções concordaram em armazenar e armazenar as armas pesadas sob supervisão da comissão tecnocrático especializada, sem entregá-las a Israel ou a outras partes não palestinas.
Uma autoridade americana disse que Israel, que sempre demonstrou ceticismo sobre a disposição do Hamas em abrir mão de seu arsenal e do controle de Gaza, foi consultada durante toda a negociação. Segundo ela, o governo israelense não assumirá compromissos além dos previstos no plano original de cessar-fogo.
Integrantes do comitê tecnocrático palestino afirmaram à AP que esperam entrar em Gaza em até dois meses, mas aprovaram que Israel poderá criar obstáculos. O grupo também alertou que a proteção das instituições públicas e da infraestrutura do território será um desafio de grandes proporções.
A guerra começou após o ataque liderado pelo Hamas contra o sul de Israel em 7 de outubro de 2023, que matou cerca de 1,2 mil pessoas e resultou no sequestro de 251 reféns. Em resposta, a intervenção israelense matou mais de 73 mil palestinos, segundo o Ministério da Saúde de Gaza, controlado pelo Hamas, que não faz diferença civil de combatentes em seus balanços. Atualmente, grande parte da população permanece deslocada em acampamentos improvisados e bairros totalmente destruídos. Fonte: Associated Press.